Revista Ave Maria

Artigos da revista › 12/03/2018

A comunhão fraterna

“Eles eram perseverantes em ouvir o ensinamento dos apóstolos, na comunhão fraterna, na fração do pão e nas orações (…). Todos os que abraçavam a fé viviam unidos.” (At 2,42.44)

Uma atitude fundamental da experiência da fé é viver a Palavra. Essa foi a primeira vivência dos que conheceram Jesus e aceitaram o convite de segui-lo. Assim, reconheceram que viver a Palavra é viver Ele, ser um com Ele. É escrever com a vida o Evangelho. As primeiras comunidades fizeram dessa experiência o seu estilo de vida. Isso levou, também, a construir novas relações, a fazer da convivência de uns com os outros uma experiência de comunhão fraterna.

Quando se vive a Palavra se estabelecem novas relações que superam todas as formas de condicionamentos e isso leva a viver entre os outros, com os outros e pelos outros. Essa experiência é fundamental para quem decide seguir Jesus. É impossível ser discípulo de Jesus e expressar a verdadeira fé sem viver relações humanas de amor.

O segredo das relações humanas é Deus, é o amor (cf. Ex 34,4b-6.8-9; 2Co 13,11-13; Jo 3,16-18). Deus é comunidade. Se Deus fosse sozinho, Ele não poderia amar (amaria a quem?). Mas, Deus é Trindade de Pessoas (Pai, Filho e Espírito Santo – Mt 28,19) e por isso é amor (1Jo 4,8), é comunhão. Deus é e decide tudo em comunhão, pois tudo que a Trindade Santa realiza é de comum acordo às três Pessoas Divinas. Deus não vive separado, solitário, isolado; não é individualista. Deus, antes de agir, é amor e comunhão e, quando age, ama em comunhão.

Deus é amor em si, mesmo antes do tempo, porque desde sempre tem em si mesmo um Filho, a Palavra (ou o Verbo), a quem ama com amor infinito, que é o Espírito Santo. Em todo amor há sempre três realidades ou sujeitos: um que ama, um que é amado e o amor que os une.

Deus, que é comunhão, criou o homem e a mulher para a comunhão, por isso todo ser humano anseia por ela: “Desde o início a pessoa humana é, por natureza, um ser social” (Gaudium et spes, nº 12); “Ao criar o homem e a mulher, Deus coloca neles a capacidade de comunhão” (Familiaris Consortio, nº 11).

Ser imagem e semelhança de Deus é viver em comunidade, é refletir na terra a realidade da vida trinitária de Deus no céu: “Assim na terra como no céu”, como oramos com a oração que aprendemos com Jesus. Tudo aquilo que Jesus nos ensinou se sintetiza nisto: Ele nos revelou como o Pai e Ele vivem na comunhão do Espírito Santo e desejou ardentemente que tomássemos parte desse maravilhoso relacionamento.

Cada Pessoa Divina, na Trindade, não existe para si, mas em função das outras duas, junto com as outras duas, nas outras duas. O que faz com que as Pessoas Divinas sejam, existam, é a comunhão, o dom de si,  não dom de coisas! o relacionar-se. A maior glória que podemos dar à Trindade é vivermos em comunhão, como Ela vive. A existência cristã é uma “existência trinitária”. A Igreja que brota da Trindade (cf. Lumen gentium, nº 2) deverá ser sempre mais uma comunidade de diálogo, de união, de participação.

A contemplação da Trindade pode ter um precioso impacto em nossa vida humana. É um mistério de relação. Significa que as Pessoas Divinas não têm relações, mas que são relações. Os seres humanos têm relações – entre pai e filho, marido e mulher, por exemplo –, mas, não nos esgotamos nessas relações, existimos também fora e sem elas. Não é assim, porém, com o Pai, o Filho e o Espírito Santo.

O amor é a razão de tudo o que nós fazemos no mundo. O amor perpassa todo o Evangelho como seu fundamento, sua razão, seu sentido, o seu próprio ser. O amor é o “segredo” que fez os primeiros cristãos construírem a história da qual todos nós somos herdeiros e também protagonistas.

Podemos perceber que a história do mundo hoje, também, é uma história de luta e de divisões e ainda se precisa aprender a difícil e necessária arte de amar. É necessária a presença do amor para que Deus seja conhecido, a fé seja verdadeira e eficaz, surja uma nova humanidade cujos valores sejam outros, bem diferentes daqueles que até hoje construíram nossa história, sobretudo nos últimos séculos. E nós, cristãos, somos, por chamado e por missão, aqueles que acreditam no amor (1Jo 4,16).

Acreditar que Deus é amor é o primeiro passo para construir um novo relacionamento em todos os níveis e curar todas as feridas pessoais, institucionais, sociais que fazem uma vida sem sentido: “Caríssimos, amemo-nos uns aos outros, pois o amor é de Deus e todo aquele que ama nasceu de Deus e conhece Deus” (1Jo 4,7-8). Mas, como amar assim, viver esse amor que gera unidade que faz cair as barreiras que muitas vezes se levantam em nome de Deus dando ao mundo um testemunho contrário ao próprio Deus e faz perder a razão de nossa própria fé?

São muitos os desafios e as propostas para aquele que pretende ser discípulo de Cristo. Particularmente, a cultura contemporânea desafia os antigos valores buscando ao mesmo tempo reconhecer a verdade que traz respostas úteis e práticas para a vida das pessoas e para o progresso dos povos. Em meio a essa situação multifacial a vida cristã é também desafiada e interpelada ao interno da própria Igreja e pela própria sociedade.

Dos cristãos se espera correspondência pronta e generosa à graça como sinal e luz para o mundo. A Igreja deve ser o lugar privilegiado para o encontro com Cristo, razão e sentido de tudo. Para isso se supõe que os verdadeiros cristãos são pessoas que creem e que amam, que são pedagogas da fé e do amor, pessoas que amam a vida, que sabem usufruir e desfrutar a beleza da existência, dos relacionamentos, que são profetas do sentido.

A vida cristã se propõe a construir a unidade e a ser seu sinal como seu sentido último e confia na ação do Espírito, isso supõe que cristãos sejam todos discípulos fiéis do Espírito que é o Amor.

Pensemos nisso. Descobrir que Deus é amor e viver o amor como Jesus ensinou é a característica que revela que se vive a Palavra e se nutre de Cristo na Eucaristia, que se relaciona com Deus como o Filho com o Pai.

Texto escrito pelo Pe. José Alem, cmf, extraído da seção “Espiritualidade” da Revista Ave Maria, na edição de março de 2018.

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