Revista Ave Maria

Artigos da revista › 05/09/2017

A consciência da gravidade da crise cultural e ecológica precisa traduzir-se em novos hábitos

Ele aponta para a floresta e pergunta:

Você está vendo aquelas árvores, aquelas maiores, bem altas? Elas sim, são nossos cartões de créditos. E nada exigem de nós em termos de juros. São elas a nossa maior riqueza.

Pedro Pereira Lima, da comunidade Nova Fronteira, no município de Medicilândia, pertence à Mesorregião do Sudoeste Paraense. Está falando da castanheira que, com sua exuberante presença em meio à floresta, se avista ao longe. A castanheira foi a responsável por manter a economia da Amazônia após o declínio do ciclo da borracha.

É do extrativismo da castanha que, ainda hoje, milhares de coletores e coletoras sustentam suas famílias. E, entre as características que a tornam singular, está a longevidade. Já foram identificados exemplares com mais de 800 anos, há registros de troncos com mais de 5 metros de diâmetros, e sua altura atinge entre 50 a 60 metros de comprimento. É proibido cortar uma castanheira, ela morre em pé. Contudo, protegida por lei, mas sem floresta em torno, a árvore-símbolo da Amazônia seca.

Pedro lamenta a exploração desenfreada que a Amazônia vem sofrendo. Segundo ele, com sua sabedoria tradicional dos povos que vivem na floresta, deveria ser proibido derrubar qualquer árvore.

É triste, mas bem pouco adianta manter a castanheira em pé se não existe floresta para acompanhá-la. As árvores precisam umas das outras, para que o fluxo gênico aconteça entre elas.

Ele é enfático ao afirmar que não se deve interromper a vida de nenhuma árvore.

No dia 5 de setembro comemora-se o Dia da Amazônia, que tem como função conscientizar o mundo a respeito dessa importante riqueza natural. A Amazônia sofre constantemente com o desmatamento, principalmente em decorrência do avanço das plantações de soja e da pecuária, da extração ilegal de madeira, da criação de hidrelétricas e a mineração, problemas responsáveis pela destruição de grandes áreas da floresta e dos Rios. Apesar de muitos considerarem essas atividades importantes para a economia do Brasil, devemos lembrar que essa exploração destrói o bioma e causa sérias consequências para o planeta, uma vez que ele tem um papel fundamental no equilíbrio ambiental da Terra e influência direta sobre o regime de chuvas de toda a América Latina. O desmatamento da Amazônia influencia as mudanças climáticas mundiais.

Com isso, a Comissão Episcopal para Amazônia da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB), por meio das comunidades, prelazias e dioceses com a criação de Rede Eclesial Pan-Amazônica (REPAM), vem atuando de forma incisiva na conscientização, no cuidado e no combate à exploração predatória da Amazônia.

A Carta Encíclica do Papa Francisco Laudato SÌ (LS) nos orienta para essa aliança entre a humanidade e o ambiente. “A consciência da gravidade da crise cultural e ecológica precisa traduzir-se em novos hábitos” (LS 209).

Pedro Pereira e sua comunidade vivem isso. Apoiados, incentivados pela Prelazia do Xingu e outras instituições, criaram a Cacauway, primeira fábrica de chocolate no coração da Amazônia, que surgiu da união de agricultores familiares no município de Medicilândia e fundaram a Cooperativa Agroindustrial da Transamazônica (COOPATRANS). O processo de produção da Cacauway tem como base três fatores: o ambiental, que é o cultivo cacaueiro em harmonia com o meio ambiente; o social, que busca garantir a permanência e o bem-estar das pessoas no campo; e o econômico que agrega valor a partir do melhoramento da amêndoa de cacau a ser utilizada na produção. Sim, é possível um desenvolvimento socioambiental a partir dos povos que vivem na Amazônia, sem a destruição desse fundamental bioma para o mundo.

“Curai a nossa vida, para que protejamos o mundo e não o depredemos, para que semeemos beleza e não destruição” (LS 246).

 

Texto escrito por Osnilda Lima, fsp, extraído da seção “Dia da Amazônia” da Revista Ave Maria, na edição de setembro de 2017.

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