Revista Ave Maria

Artigos da revista › 26/03/2018

A Igreja e a Pastoral Familiar

É importante que sejamos pastores das famílias, pois, elas são a estrutura da vida social e eclesial

A família é tão importante para a Igreja que está nas bases das suas principais ações pastorais e movimentos nela existentes. O próprio termo “pastoral” está carregado de significado simbólico, sobretudo teológico, que lembra a ação do Pastor. Quando a Igreja adota o termo pastoral, ela nos remete à sua missão, isto é, a nossa missão como Igreja, a missão de cuidar da vida como o Bom Pastor cuida das suas ovelhas, em todas as suas etapas e circunstâncias. Esse exemplo nós encontramos nas Sagradas Escrituras, mais especificamente no Novo Testamento, quando Jesus traz a distinção do Bom Pastor e do mercenário, dizendo que o Bom Pastor é aquele que dá a vida pelas suas ovelhas (Jo, 10,11), isto é, aquele que é capaz de gastar a sua vida pela vida do seu semelhante.

Nesse sentido nós temos as pastorais na Igreja. Quando assumimos uma pastoral, assumimos, ou deveríamos assumir a missão de pastores e espera-se de nós que sejamos bons pastores, bons agentes de pastoral. Assim, o termo pastoral nos remete a essa que é a missão essencial da Igreja: cuidar da vida desde a concepção até a morte. E, como foi dito no início, a Igreja tem diversas pastorais e movimentos que cuidam diretamente da família porque a família é que estrutura a vida social e eclesial como vimos noutro texto. Dentre essas pastorais temos a Pastoral Familiar.

A Pastoral Familiar é uma espécie de “guarda-chuva” de diversas pastorais, isto é, sob ela abrigam-se outras pastorais e movimentos cujo objetivo é o cuidado com a família, ou membros específicos dela, como, por exemplo, a Pastoral Pré-matrimonial; a Pastoral de Casais de Segunda União; a Catequese Familiar; a Pastoral Vocacional; as pastorais que cuidam de membros específicos das famílias, como, por exemplo, Pastoral da Pessoa Idosa, Pastoral da Criança, Pastoral Juvenil, Pastoral dos Namorados etc. Há também os movimentos cuja atenção se volta exclusivamente para as famílias. Temos na Igreja as Equipes de Nossa Senhora, o ECC (Encontro de Casais com Cristo), o Cursilho de Cristandade, o Movimento Familiar Cristão (MFC), o Movimento Lareira, entre outros mais ou menos expressivos, mas que tem como foco a família.

Assim, a Pastoral Familiar é uma pastoral que se desdobra em outras pastorais familiares e que é tida como uma das mais importantes exatamente por cuidar da “menina dos olhos” da Igreja, que é a família, pois, se a Igreja descuidar da família, ela está negligenciando um aspecto elementar da sua missão.

Como arquétipo de família a Igreja tem a Família de Nazaré – Jesus, Maria e José –, que representa a perfeição dentro das imperfeições deste mundo. Parece algo paradoxal e/ou contraditório, porque o modelo da Família de Nazaré, se comparado ao modelo de família tradicional, ou o considerado perfeito que temos hoje na nossa sociedade, nele não se enquadraria muito bem. Quais as razões? Vejamos algumas e comparamo-las com o que se espera das famílias hoje: Maria ficou grávida antes de viver maritalmente com José. Além disso, ela era ainda adolescente, fato que seria um escândalo hoje, ou mesmo crime, pois Maria era menor de idade. José não era o pai legítimo do Menino Jesus, mas o adotou como filho, algo que também não seria bem visto hoje. Ambos eram pobres, retirantes, migrantes, perseguidos, ameaçados de morte etc., ou seja, uma família marginalizada na sociedade. Na nossa sociedade de hoje seriam tratados de forma preconceituosa e continuariam não tendo abrigo. Maria deu à luz numa estrebaria e às escondidas, recebendo a visita de pobres pastores, sem a devida assistência social que uma parturiente precisa e merece. Enfim, essas e outras situações dos relatos bíblicos mostram uma família que foge aos padrões dos nossos dias. Hoje ela seria alvo da Pastoral Familiar.

É esse modelo que a Igreja tem como referência e não há nisso nenhuma contradição, embora a sociedade não tenha esse modelo como o ideal. Porém, a perfeição dessa família está na fidelidade a Deus e não nos aspectos sociais e é nisso que a Igreja se apoia ao tê-la como modelo para as famílias de todos os tempos. É nisso que a Pastoral Familiar busca embasar suas ações.

Assim, é preciso acolher a todas as famílias, mas dar uma atenção especial àquelas que mais se assemelham à Família de Nazaré, nos aspectos sociais, buscando fazer com que elas, e as demais, assemelhem-se a família de Jesus, Maria e José na fidelidade e no amor a Deus. Famílias que se alicerçam em Deus são famílias realmente bem alicerçadas, mesmo que vivam situações de vulnerabilidade social, ou que sejam socialmente incluídas. Não importa a família, o que importa é se ela é uma família que traz Deus no seu seio, que cultiva os valores de Maria e José e que ensina os seus filhos a viver os valores de Jesus.

Texto escrito pelo Pe. José Carlos Pereira, cmf, extraído da seção “Relações Familiares” da Revista Ave Maria, na edição de março de 2018.

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