Revista Ave Maria

Artigos da revista › 28/06/2017

Altar, o coração da Igreja

“Todos comeram do mesmo alimento espiritual; todos beberam da mesma bebida espiritual (pois, todos bebiam da pedra espiritual que os seguia; e essa pedra era Cristo).” (1Cor 10,3-4)

Desde o ano 2000 tem-se dado continuidade às obras internas do Santuário Nacional de Nossa Senhora Aparecida. Construído em estilo neo-românico, apesar de sua grandeza a construção se impõe pela simplicidade. Um dos elementos valorizados pelo novo projeto é o novo altar maior da basílica, consagrado em 2002. O altar é o elemento essencial do espaço celebrativo e entender o seu significado nos ajudará a viver melhor a nossa fé.

Desde o ponto de vista simbólico pode-se dizer que a igreja nasce do altar. Essa afirmação é válida para diferir os aspectos dessa realidade, começando pelo fato central da nossa fé, a salvação que Cristo nos trouxe, passa pelo altar da cruz. Como nos lembra São João Crisóstomo, do mesmo modo que Eva foi formada pela costela retirada de Adão durante o seu sono, a Igreja, o Corpo de Cristo, nasce do sangue e da água que jorraram quando Jesus foi transpassado pela lança, na sua morte/sono na cruz. A cruz e o altar estão intimamente ligados, pois foi sobre esse lugar elevado que o Filho de Deus subiu para doar o seu sangue e oferecer a todos a vida eterna.

O altar é o centro do edifício de culto. Para ele convergem todos os gestos da ação litúrgica. O altar é incensado, é beijado pelo sacerdote, a procissão com os dons se dirige ao altar e também a procissão para a comunhão é um caminhar para ele. Se observarmos as igrejas antigas constataremos que as linhas arquitetônicas já indicam que o altar é o centro para onde tudo converge e onde tudo tem início. Dessa maneira, o altar é o centro do mundo, pois é o lugar onde é celebrado o mistério da nossa fé e, com a vinda de Cristo na Eucaristia, o altar é o lugar onde o céu e a terra se encontram.

No começo do cristianismo o altar foi compreendido primeiramente como a mesa do Senhor, em torno da qual a comunidade se reunia para partir o pão consagrado, mas a sua natureza sagrada foi logo evidenciada em função do caráter sacrificial de Cristo. Com o início das perseguições e o reconhecimento do martírio como união radical à Cristo, passou-se a celebrar a Eucaristia sobre o altar dos mártires. A mesa de madeira foi substituída pelo altar de pedra, que adquire um simbolismo cada vez mais rico. O altar é a tumba, é o lugar elevado do sacrifício de Cristo, é a cruz, é o trono celeste, mas é símbolo do próprio Cristo, pois Ele é a pedra angular (cf. Mt 21,42).

O altar cristão é uma síntese riquíssima dos muitos significados, ligados também ao altar do Antigo Testamento (Hb 13,10). Ele nos lembra o altar do sacrifício de Abel (Gn 4,4), como também o sacrifício de Melquisedeque (en 14,18-20), ou aquele de Isaac (Gn 22), passando pelo altar que Abraão construiu aos pés do Sinai (Ex24,4), até o altar do templo de Jerusalém (IICr 4,1), mas o altar que serve de modelo e dá significado a todos os outros é aquele que se encontra na Jerusalém celeste: “Ouvi então uma voz que vinha dos quatro cantos do altar de ouro, que está diante de Deus” (Ap 9,13).

Ao longo da Idade Média a Igreja continuou a afirmar o pensamento dos Santos Padres sobre o significado do altar, mas quando, no século XVI, o altar passou a ser colocado junto à parede, como parte da estrutura que abriga o tabernáculo, alguns aspectos de seu significado ficaram menos evidentes. O Concílio Vaticano II procurou restabelecer a centralidade do altar, na sua simplicidade. Por isso, insiste no valor do altar em si, que não deve estar escondido embaixo de toalhas e sufocado por ornamentos inúteis. Despojado do supérfluo é mais fácil ver no altar a mesa ao redor da qual o Pai reúne os seus filhos para o banquete, como também o lugar sagrado sobre o qual se atualiza a cada celebração eucarística o mistério redentor de Cristo, de tal modo que a Igreja possa unir a sua voz àquela dos anjos e dos santos para dar glórias ao Senhor.

Na Basílica de Aparecida o resgate do significado do altar é bastante evidente. Inicialmente porque ele está colocado no centro perfeito do edifício, exatamente no lugar onde a nave central é atravessada pelo transepto (parte do corpo da igreja que forma os braços da cruz na planta do edifício) e perfeitamente abaixo do centro da cúpula que coroa a construção. A cúpula é justamente uma imagem do céu e o altar quadrado, imagem da terra. A centralidade do altar também é indicada pelo fato de ele estar no centro do lugar mais elevado, separado da nave pelos diversos degraus em forma de círculos concêntricos. Também a cruz suspensa sobre o altar indica que esse é o lugar central do edifício. O altar está no centro porque o seu valor é central. Sobre essa pedra desce o Senhor a cada celebração eucarística e, unido à cruz, o altar não é só um centro, mas é também o eixo do mundo e lugar de comunicação entre o céu e a terra; como a escada que Jacó viu em sonho, o altar e a cruz unem a terra ao céu (cf. Gn 28,12).

 

Texto escrito pelo frei Sidney Machado, extraído da seção “Espiritualidade e Arte”, da Revista Ave Maria, na edição de junho de 2017.

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