Revista Ave Maria

Artigos da revista › 28/02/2019

As cinzas apagam os pecados?

“Pela penitência da Quaresma, corrigi nossos vícios, elevai nossos sentimentos, fortificai nosso espírito fraterno e garanti a nós uma eterna recompensa, por Cristo, Senhor nosso.” (Missal romano, p. 417)

A pergunta do título é muito importante! É bastante comum a busca pela imposição das cinzas, na Quarta-feira de Cinzas. Às vezes, essa busca é feita como se fosse uma ação mágica, de purificação do pecado. Todavia, a imposição das cinzas é um sacramental que deve nos lembrar de que “viemos do pó e ao pó voltaremos”, ou seja, lembrar-nos da fugacidade de nossa vida. Também é um convite à conversão: “Arrependei-vos e crede no Evangelho”.

É importante ter arrependimento de nossos pecados e fé no Evangelho e, se cremos nele, devemos praticar o que nos ensina, ou seja, uma vida próxima de Deus e dos irmãos e longe de todo pecado.

A oração de bênção sobre as cinzas pode nos dar a real motivação desse ritual litúrgico: “Ó Deus, que vos deixais comover pelos que se humilham e vos reconciliais com os que reparam suas faltas, ouvi como um pai as nossas súplicas. Derramai a graça da vossa bênção sobre os fiéis que vão receber estas cinzas, para que, prosseguindo na observância da Quaresma, possam celebrar de coração purificado o mistério pascal do vosso Filho. Por Cristo nosso Senhor. Amém” (Missal romano, pp. 175-176).

Podemos afirmar que as cinzas não apagam os nossos pecados. O que apaga os nossos pecados é o mistério pascal, o sacrifício de Jesus Cristo na santa cruz, que nos confere o perdão de todos os nossos pecados por meio de nosso arrependimento e do desejo de não mais pecarmos. Tudo isso nos conduz à mudança de vida.

A Quarta-feira de Cinzas nos abre o caminho para a Quaresma, um tempo de penitência e preparação para a Páscoa. Desse modo, as cinzas devem ser para nós como um sinal externo desses propósitos. No Antigo Testamento, há vários relatos de pessoas, humildes e ilustres, que se vestiam do modo mais simples possível e se cobriam de cinzas, como sinal de arrependimento por seus pecados. A liturgia nos traduz esse comportamento e nos exorta com as seguintes palavras: “Troquemos nossas vestes por cinzas e cilício; choremos, jejuando em face do Senhor: pois cheio de bondade é o nosso Deus, capaz de perdoar nossos pecados” (Missal romano, p. 176).

Assim, o ponto de partida para que a recepção das cinzas sirva para nós como purificação de nossos pecados e para vivenciarmos da melhor forma possível o Tempo Quaresmal é a nossa disposição interior, ou seja, o desejo de mudança de vida, de maior comunhão com Deus e com o próximo. Se essa disposição interior for o ponto de partida, a recepção das cinzas terá para nós um grande significado e será a etapa inicial de preparação para celebrarmos da melhor forma possível a Páscoa de Nosso Senhor Jesus Cristo e colhermos seus frutos. A paixão, a morte e a ressurreição de Jesus podem gerar em nós grande mudança de vida: passagem (Páscoa) da morte para a vida; passagem do medo para a confiança; passagem de uma vida de pecado para uma vida em busca de santidade, uma vida com real sentido de viver.

 

Valdeci Toledo

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