Revista Ave Maria

Artigos da revista › 01/06/2019

Música do Coração

É muito fácil compreender a música e seus efeitos quando se escutam e conhecem os sons do próprio corpo, uma máquina perfeita, uma orquestração formada por diferentes partes com inúmeras células que apresentam formas e funções muito bem definidas, uma estrutura rítmica capaz de impulsionar a vida e simultaneamente acolher as ressonâncias do coração.

O coração é o lugar principal de trabalho do cristão. No Evangelho de São Mateus encontra-se uma lição harmoniosa como música. Jesus é questionado sobre a maneira como os discípulos estariam violando tradições dos antigos. Era uma questão sobre a pureza, sobre o gesto de lavar as mãos. Então, Jesus responde trazendo as palavras do profeta Isaías e demonstra o sentido da profecia. Não adianta nada honrar com os lábios quando o coração está longe das palavras. É trabalho em vão. Ainda, destaca: o que entra pela boca não causa impureza, mas, sim, o que sai dela. O coração é a fonte das virtudes e também das más intenções. É uma lição fundamental ao que anseia seguir Jesus.

A música cristã em seus primórdios estava totalmente submetida à Palavra de Deus. Não era somente o reflexo do coração dos primeiros cristãos, mas também veículo para melhor compreensão da Palavra e expansão do coração humano à alegria interior.

O canto é ferramenta indispensável na vida de um cristão porque ensina a escuta ao corpo e manifesta a presença do Criador por meio de sons organizados.

Uma herança especial do século IV, deixada por São Gregório de Nissa em sua literatura, refere-se à vigília de preparação para a Páscoa sob os efeitos da música: “As palavras que ressoava durante a noite em nossos ouvidos por meio dos salmos, hinos e cânticos espirituais era como um rio de alegria que penetrava pelos ouvidos da alma e nos enchia de consoladora esperança”.

A escuta é essencial ao trabalho do coração. Ela não se faz sem seu maior amigo, o silêncio. Há muito medo de estar em silêncio. Atualmente, a poluição sonora cresce, tornando os momentos de silêncio cada vez mais raros. É compreensível. Quando se faz silêncio, escuta-se tudo o que há dentro do coração, o entendimento se faz, a mudança encontra espaço, o tempo se transforma. O silêncio responsabiliza. O silêncio amadurece. O silêncio ensina a amar. A maturidade espiritual ocorre com muita facilidade no coração que aprende a amar.

A música sacra, litúrgica e cristã deve ser a reverberação do mais puro amor, o encontro com a verdadeira origem da vida, a sinfonia de esperança que transforma o mundo e aponta o horizonte do eterno.

Por
Ricardo Abrahão

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