Revista Ave Maria

Artigos da revista › 19/07/2017

O ambão: Lugar da proclamação da Palavra de Deus

“Depois do sábado, quando amanhecia o primeiro dia da semana, Maria Madalena e a outra Maria foram ver o túmulo. E eis que houve um violento tremor de terra: um anjo do Senhor desceu do céu, rolou a pedra e sentou-se sobre ela.” (Mt 28,1-2)

 

Com a reforma litúrgica determinada pelo Concilio Vaticano II a Palavra de Deus readquiriu a sua importância na celebração litúrgica. Seria ingênuo, porém, imaginar que as gerações de cristãos que nos precederam nos séculos tenham esquecido ou desprezado a Sagrada Escritura. A grandiosidade dos ambões medievais nos fala de modo eloquente sobre a importância desse elemento na liturgia durante os séculos. Pela forma, pelas dimensões e pelo programa das imagens que compõem os ambões antigos nos convencemos imediatamente de uma verdade: o ambão da Palavra não é um móvel, mas um lugar. O lugar de onde se proclama a boa notícia da salvação trazida por Cristo.

Alguns desses ambões possuíam uma dupla escadaria. O ministro da Palavra subia por um lado até o ponto mais elevado e, uma vez feita a proclamação, descia pela escada disposta no lado oposto. O duplo acesso impunha uma conformação triangular de tal modo que alguns ambões se assemelham a uma pequena montanha. A simbologia que acompanha essa estrutura tão elevada está ligada ao fato que a proclamação do Evangelho é tarefa de competência do diácono, que repete ritualmente o anúncio da ressurreição de Cristo. Do mesmo modo que o anjo sentado sobre a pedra do Santo Sepulcro anunciou às santas mulheres a ressurreição do Senhor (cf. Mt 28,1-2), o diácono sobe ao lugar elevado que corresponde à pedra que se encontrava à entrada do sepulcro para proclamar solenemente que, no eterno hoje da liturgia, o Senhor ressuscitou para a salvação da humanidade. Por esse motivo, nas imagens antigas os anjos são representados com a dalmática, veste própria do diácono. A palavra grega “angelon”, da qual deriva “anjo” em português, significa exatamente “aquele que anuncia” e dessa maneira a figura do anjo e do diácono se fundem em função da missão que os une.

A mesma iconografia que reveste de beleza os ambões medievais testemunha que o ambão corresponde à pedra que fechava o sepulcro do Senhor. No ambão de Positano vemos o profeta Jonas sendo engolido e depois regurgitado pelo monstro marinho. Desde a antiguidade os Santos Padres viram nos três dias que o profeta passou no ventre do peixe uma prefiguração dos três dias que Cristo passou no ventre da terra antes da ressurreição.

Dentre os elementos que fazem parte da iconografia entorno do ambão da Palavra é comum encontrar a representação do Espírito Santo em forma de pomba. O tema é muito pertinente, pois foi pela ação do Espírito Santo que os textos bíblicos foram inspirados e transmitidos através das gerações, mas sem a sua ação vivificante a proclamação e a compreensão hoje dos textos inspirados é radicalmente comprometida. Algumas vezes vemos um águia no lugar na pomba. Águia e pomba são duas imagens diferentes utilizadas para colocar em evidência aspectos diversos do mistério celebrado. Se a pomba lembra a presença do Espírito Santo, a águia nos diz que esse Espírito é sagaz e forte. Como os olhos aguçados da águia o Espírito nos permite entrar em profundidade no mistério divino e aquece o nosso coração, enchendo-o do desejo de ouvir, meditar e agir segundo a vontade de Deus manifesta na Escritura Sagrada.

Outro aspecto interessante dos ambões antigos é o fato de que a maior parte deles não se encontra no santuário (presbitério), mas em meio à nave central na igreja. Essa colocação ajuda a entender que a Palavra é proclamada em meio à assembleia para que seja vivida no mundo. A Bíblia é para o cristão no mundo e não será mais necessária na eternidade, pois lá estaremos diante do Verbo vivo e eterno que nos salva e vivifica. No tempo da história, porém, a Palavra e os sacramentos constituem os meios pelos quais o Espírito nos enche da presença viva da Trindade.

A instrução geral do missal romano nos diz que “A dignidade da palavra de Deus requer que haja na igreja um lugar adequado para a sua proclamação e para o qual, durante a liturgia da palavra, convirja espontaneamente a atenção dos fiéis (IGMR, 309). Não podemos negar que a grandeza e a beleza dos antigos ambões contribuem enormemente para que a atenção dos fiéis se volte para o lugar da proclamação. A solenidade necessária para a proclamação digna da Palavra é facilitada pela beleza e imponência desse elemento eminente que se apresenta como parte da própria arquitetura do espaço sagrado. Dessa maneira nos dispomos naturalmente a direcionar os olhos, a abrir os ouvidos e o coração para escutar a mensagem que o Senhor nos quer transmitir.

 

Texto escrito por Fr. Sidney Machado, extraído da seção “Espiritualidade e Arte” da Revista Ave Maria, na edição de julho de 2017.

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