Revista Ave Maria

Artigos da revista › 23/04/2018

O rosto humano de Deus

Três especialistas – um médico, um padre e uma psicóloga – explicam por que acreditam que o Sudário de Turim, o lençol que teria envolvido o corpo de Jesus após sua morte, é 100% autêntico

Turim, maio de 2010. O Papa Bento XVI resolveu expor à visitação pública uma das relíquias mais valiosas da Igreja Católica: o Santo Sudário. Quando soube que teria a rara oportunidade de ver de perto o lençol de linho que, segundo a tradição católica, teria envolvido o corpo de Jesus após sua paixão e morte, a psicóloga Maria Beatriz Ribeiro Gandra não pensou duas vezes: pegou o primeiro avião rumo à Itália. Na Catedral de São João Batista, participou da exposição que durou 43 dias e atraiu um público estimado de 2 milhões de peregrinos. Se a figura gravada na mortalha é a do Filho de Deus? Maria Beatriz não tem a menor dúvida. “O Homem do Sudário é Jesus de Nazaré!”, afirma, categórica. “O Sudário de Turim é uma ‘testemunha silenciosa’ de quanto Jesus sofreu por amor a nós”.

Derivado do latim, a palavra sudarium quer dizer lenço. Ou, por analogia, lençol. O Sudário foi um presente póstumo dado a Jesus por José de Arimateia, descrito nos Evangelhos como “homem justo e bom”, “discípulo de Jesus” e “membro do Sinédrio”. Segundo o relato de Mateus, José de Arimateia foi até Pilatos e lhe pediu o corpo de Jesus. “Os crucificados não tinham direito a um enterro digno”, explica o médico e escritor José Humberto Cardoso Resende, autor dos livros O Santo Sudário – ciência e féferidas de Jesus e As três horas do Calvário. “Depois de mortos, seus corpos eram jogados para os abutres.”

Mas, José de Arimateia não deixou que isso acontecesse. “José tomou o corpo, o envolveu num lençol de linho puro e o colocou no túmulo novo que ele havia escavado para si na rocha”, narra o evangelista Mateus no versículo 59 do capítulo 27. A cena do sepultamento de Jesus está presente nos outros três Evangelhos: Marcos 15,42-47; Lucas 23,50-56 e João 19,38-42. O evangelista a quem Jesus amava vai além e descreve o momento em que ele e Pedro encontram o túmulo vazio: “Viu os lençóis deixados no chão” (Jo 20,6). Mas, o que teria acontecido àquele lençol mortuário depois da ressurreição? Ninguém sabe ao certo. Alguns sudaristas – nome dado aos estudiosos do tema – especulam que ele teria sido guardado por Maria Madalena e, depois, entregue a Judas Tadeu, um dos doze apóstolos, que o teria levado para a cidade de Edessa – hoje Urfa, na Turquia.

O primeiro registro histórico do Santo Sudário remonta ao distante século XIV. Naquela época, a relíquia estava em poder de um nobre cavaleiro do rei João II, da França, chamado Geoffrey de Charny. Depois de sua morte, em 1356, passou aos cuidados da viúva, Jeanne de Vergy. Em março de 1453, a neta de Geoffrey, Margaret, resolveu doar a peça à Casa de Savoia, uma das mais antigas famílias reais da Europa. De lá para cá, o tecido sagrado passou pelos mais diferentes lugares, como a capela do castelo de Chambéry, na França, onde escapou, em 1532, do primeiro de três incêndios, até chegar, por volta de 1578, à cidade de Turim, na Itália, onde permanece até hoje. Em março de 1983, o rei Humberto II, da Itália, deixou o Santo Sudário, em testamento, para a Igreja.

 

Milagre ou farsa?

Ao longo dos séculos, o Sudário de Turim foi submetido aos mais diferentes estudos científicos. Dos muitos testes que comprovaram sua autenticidade, Maria Beatriz destaca dois. O primeiro é de 1898. Na noite de 28 de junho, o fotógrafo italiano Secondo Pia, com a autorização do Papa Leão XXIII, tirou algumas fotos do Santo Sudário. Quando revelou o filme, quase caiu para trás: o negativo revelava, com riqueza de detalhes, a imagem de um homem alto, de cabelos compridos, barba espessa e semblante sereno. Na parte da frente e de trás do seu corpo, as marcas do flagelo romano, como a chaga do lado direito, as feridas dos cravos no pulso e nos pés e o sangue derramado pela coroação de espinhos. Não por acaso, muitos sudaristas chamam o Santo Sudário de “o Quinto Evangelho”. “O Sudário de Turim é a prova da ressurreição de Jesus”, afirma José Humberto. “Quem consegue manter o semblante tranquilo e sereno, depois de tanta dor e sofrimento? Só alguém que morreu como homem e ressuscitou como Deus.”

O segundo teste, aponta Maria Beatriz, é de 1975. Dois cientistas americanos, John Jackson e Eric Jumper, submeteram fotos do Sudário a um computador da NASA, a agência espacial dos EUA, que produziu uma imagem tridimensional. A que conclusão eles chegaram? Em seu relatório final, declararam que, após mais de cem horas de estudo, “não detectaram qualquer indício de que a peça seja falsa”. Entre outras descobertas, a imagem tridimensional revelou, sobre as pálpebras do Homem do Sudário, duas moedas: uma, dilepton lituus, produzida na Palestina durante o governo de Pôncio Pilatos e a outra cunhada pelo próprio governador da Judeia em homenagem a Júlia, a mãe do imperador Tibério. “As duas datam do ano 29 da Era Cristã”, enfatiza Maria Beatriz.

Mas, no decorrer dos anos, houve também quem acreditasse que o Sudário de Turim não passava de uma “farsa medieval”. É o caso dos escritores britânicos Lynn Picknett e Clive Prince. Em 1988, afirmaram que o pano teria sido “pintado à mão” pelo gênio renascentista Leonardo da Vinci, em 1492. Ainda em 1988, outro teste, realizado por três diferentes laboratórios, calculou o período de fabricação do Sudário entre 1260 e 1390 d.C. Logo, pesquisadores ligados ao Projeto de Pesquisa do Sudário de Turim (STURP, na sigla em inglês) vieram a público refutar o resultado do carbono-14. Disseram que as amostras do tecido analisadas teriam sido “contaminadas”. “É humanamente impossível que alguém, pintor ou cientista, tenha falsificado o Sudário”, afirma José Humberto. “O pano de linho traz detalhes anatômicos precisos, gravados com sangue AB negativo.”

Mas, e a Igreja Católica? O que tem a dizer sobre o Sudário de Turim? Oficialmente, a Santa Sé nunca se pronunciou sobre a autenticidade dele. No entanto, os três últimos Papas já visitaram a relíquia na Catedral de Turim: São João Paulo II, em 1998; Bento XVI, em 2010, e o Papa Francisco, em 2015. São João Paulo II referiu-se ao Sudário como “imagem do amor de Deus e da ressurreição de Jesus”. Bento XVI disse tratar-se de “um ícone escrito com sangue”. Já o Papa Francisco declarou que “o rosto do Santo Sudário transmite uma grande paz”.

No Brasil, a alegria de estar frente a frente com o Sudário, igual àquela que Maria Beatriz sentiu em 2010, pode ser vivida na exposição Quem é o Homem do Sudário? Entre outros itens, a exposição apresenta uma reprodução fiel do Sudário de Turim, a reconstituição do corpo impresso na mortalha e a réplica de alguns instrumentos de tortura, como a coroa de espinhos e o flagrum romano. No Shopping Caxias, no Maranhão, até o dia 17 de maio, já percorreu mais de vinte cidades e foi assistida por 1,5 milhão de pessoas. “O que mais me chama a atenção no Sudário? É a forma como a imagem foi impressa em um pano de linho”, afirma Padre Alexandre Paciolli, o curador da exposição. “As inúmeras tentativas fracassadas de reprodução da imagem só reforçam a tese de que estamos diante de um fato milagroso.”

Reportagem escrita por André Bernardo extraído da seção “Relíquias” da Revista Ave Maria, na edição de abril de 2018.

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