Revista Ave Maria

Artigos da revista › 01/09/2019

O sofrimento

“Se me deito, penso: quando poderei levantar-me? E, ao amanhecer, espero novamente a tarde e me encho de sofrimentos até o anoitecer.
Meus dias correm mais rápido do que a lançadeira do tear e se consomem sem esperança.” (Jó 7,4-6)

“Como eu gostaria de sorver de tal modo o sofrimento alheio para que, na mesma hora, meus irmãos sentissem mais leves os fardos que carregam nos ombros, as angústias que carregam no coração.” (Dom Helder Câmara)

Coisa comum é o sofrimento! Parece impossível viver sem ter provado os dissabores das desilusões, do medo, da perda, da tristeza e da morte. Basta ligarmos a televisão e deparamos com o sofrimento humano estampado nos rostos de mães que clamam por notícias de seus filhos desaparecidos, se olhamos os jornais impressos vemos a calamidade do povo que padece pela violência, fome e miséria, se saímos às ruas topamos com um tapete de vidas humanas jogadas pelas calçadas mendigando um pão, um olhar, uma palavra, um gesto de solidariedade para sobreviver.

Dentro de nossas casas, infelizmente, não estamos isentos do sofrimento. Sempre há algo que insiste em nos roubar a paz. Vez ou outra aparecem os conflitos familiares para dificultar a convivência, sofremos na carne as dores de alguém querido que está dependente químico ou vivemos reféns do fantasma do desemprego que, em tempos de direitos negados, insiste em bater à nossa porta. Não estamos livres de sofrer!

A temática da dor e do sofrimento é uma das mais comuns na história do pensamento, da arte e dos questionamentos humanos. Assim, não é diferente no campo religioso. O sofrimento nos coloca ante a crueza da nossa indigência e finitude. Esse é o lamento e a inquietação de Jó quando se percebe em situação de miséria e penúria. Contudo, esse lamento não é de todo sem esperança. Diante de tanto sofrimento e desilusão, Jó se manteve firme na fé e na certeza de que Deus seguia com ele, pois é fiel. Contudo, isso não o livrou das dificuldades, mas sentir a presença de Deus o fez olhar para o sofrimento com esperança.

A exemplo de Jó, percebamos que o pior da vida não é o pranto, o sofrimento, a penúria e a morte. O terrível é passar por tudo isso sem a presença de Deus, Ele que é todo ternura, amor e cuidado.

Podemos perguntar: “Como Deus pode permitir o sofrimento?”. Para isso não temos uma resposta pragmática, mas, temos a certeza de que Ele sofre conosco. Assim como fez com seu Filho na cruz, repete esse mesmo gesto de acolhida e partilha com cada um de nós em meio às cruzes da nossa existência. Ele jamais nos abandona!

Quanto a nós, resta-nos seguir o exemplo do Pai. Sejamos presença na vida dos nossos irmãos que sofrem, assim, tornamos mais leve o peso das dores humanas – as nossas e as dos demais. A vida, quando partilhada, ganha novo sentido, o caminho torna-se mais suportável e os fardos, mais leves.

Sigamos com esperança. Conscientes de que os sofrimentos virão, mas temos um Deus que segue conosco lado a lado.

 

Diego Andrade de Jesus Lelis, cmf

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