Revista Ave Maria

Artigos da revista › 01/08/2019

Santa Rosa de Lima

23 DE AGOSTO
VIRGEM, PADROEIRA PRINCIPAL DA AMÉRICA LATINA
(1586-1617)

“As doçuras e a felicidade que o mundo pode me oferecer são apenas uma sombra referente àquilo que eu experimento.”

Quando criança, retirou-se a uma pequena cela, construída no fundo do jardim de sua casa, a mais linda moça de Lima. Seu gesto pareceu absurdo a muitos de seus contemporâneos, mas ela foi conquistada por um amor maior.

“Sois bela, sois rosa.” Rosa é a primeira santa canonizada na América Latina, contemporânea do arcebispo da cidade, São Turíbio de Mongrovejo, que teve a alegria de lhe administrar a Crisma e de incentivá-la no caminho da santidade.

Na realidade, seu nome de batismo era Isabel, mas Mariana, a doméstica índia que lhe servia de babá, sensibilizada pela beleza da menina e seguindo o costume dos indígenas, deu-lhe o nome de uma flor, que pudesse exprimir melhor sua fascinante harmonia: “Sois bela” – disse-lhe –, “sois rosa!”. E o nome novo pegou, mais que o outro, que ficou esquecido no registro de Batismo.

Nasceu em Lima, capital do rico Peru, em 1586, de progenitores abastados provenientes da Espanha; viveu uma infância serena e economicamente privilegiada, mas a seguir os seus pais não conseguiram enriquecer no novo mundo.

Rosa, que havia estudado com dedicação, adquirira uma bela cultura e tinha aprendido a arte de bordar como convinha a todas as meninas da aristocracia espanhola; arregaçou as mangas e ajudou os pais em todas as espécies de atividades: dos trabalhos de casa ao cultivo da horta e ao bordado.

Gostava, sobretudo, de cuidar do jardim e depois ela mesma saía a vender as flores e as peças de bordado nas casas da nobreza de Lima.

O AMOR PELOS ÍNDIOS

Ela, que experimentava a pobreza na sua casa, olhando ao redor, fora e dentro das casas dos ricos, descobriu outra ainda mais humilhante situação, a dos índios. Comovia-se, sobretudo, vendo como era comum os descendentes dos nobres incas serem maltratados pelos fidalgos espanhóis. Sua amizade com Mariana foi importante. Havendo entre as duas um entendimento perfeito, Rosa, por seu intermédio, via toda a nação inca. Como gostaria de mudar o rumo da história! Por que vir à América trazendo guerras, destruições e ódio quando os cristãos são chamados a semear o amor em toda parte?

Quando podia falar às pessoas, não conseguia suportar o fogo que ardia dentro de si e proclamava que o verdadeiro Deus quer um mundo diferente, pois deseja o bem de todos indistintamente.

Agradavam-lhe as pregações do seu bispo e quando ele não estava fora, em missões, não perdia dele sequer uma Missa. Ele, sim, que amava os índios!

Certo dia, soube-se que ele tinha morrido, longe de Lima, em uma capela, no meio dos índios.
Um pensamento atormentava a mente da menina. “Por que” – perguntava-se ela angustiada – “os índios devem sofrer tanto?”. Não encontrava resposta até que descobriu – ou melhor, até que alguém (o Senhor) revelou a ela – o valor redentor da dor.

A PÉROLA DA VIDA CRISTÃ

Tinha lido alguma coisa de Santa Catarina de Siena e logo a entendeu e a tomou como se fosse sua mãe e irmã, como modelo. Dela aprendeu o amor ao sangue de Cristo e a paixão pela Igreja. Como a santa de Siena, também para Rosa Deus lhe mostrou a beleza dos que se entregam a Ele na virgindade e se colocam a serviço dos irmãos.

Então, ela passou a viver de maneira austera e, não havendo em Lima nenhum convento feminino, obteve a licença de vestir o hábito de irmã terciária dominicana como Catarina e se retirou para a vida contemplativa dentro de uma pequena cela, em uma casinha no meio do seu jardim. Tinha 20 anos e passou a ser chamada de Rosa de Santa Maria.

Tinha andado tanto até esse momento pelas ruas e pelas casas de Lima que lhe parecia justo se recolher à oração, pois, contemplar o seu Esposo crucificado é reviver-lhe a paixão pela conversão dos espanhóis e pela difusão do Evangelho entre os indígenas.

Sua escolha tinha mexido com a sociedade “para o bem” e sua beleza parecia desperdiçada naquele retiro tão original, mas Rosa tinha sua missão para ser cumprida. Assim, enquanto alguns – e não eram poucos – zombavam dela, considerando-a uma louca, outros, pelo contrário, iam visitá-la, ouviam-na com respeito e sentiam que o próprio coração mudava.

“(…) PARA QUE AUMENTES O MEU AMOR POR TI!”

Infelizmente, as privações sofridas durante anos tinham debilitado o seu físico. Permanecer sozinha naquela pequena casa no fundo do jardim, depois da morte de seus pais, não era mais aconselhável. Aceitou o convite de dom Gonzalo de la Maza e de dona Maria de Uzategui e, em 1614, foi morar na casa deles, onde havia todas as condições para viver uma vida na oração, pois esse santo casal, sozinho e de idade avançada, era para Rosa como que dois anjos guardiões que não só não a perturbavam, mas a protegiam.
Foram três belos anos, esses últimos, não porque Rosa não sofresse, mas porque, ao menos, tinha alguém ao seu lado, e alguém que compreendia o amor por Deus que lhe ardia no peito a ponto de fazê-la dizer “Não pensava que uma criatura pudesse ser atingida por tanto sofrimento. Meu Deus, aumentai-o, todavia, para que aumente o meu amor por vós”. Como Catarina, também ela foi tornada digna de reviver na sua carne a paixão do seu Esposo.

Assim que sentiu se aproximar a sua partida para o Céu, Rosa confidenciou ao casal Maza: “Este é o dia das minhas núpcias eternas!”. Morreu aos 24 de agosto de 1617, festa de São Bartolomeu Apóstolo, que ela tanto admirava por ter sofrido um martírio particularmente doloroso.

Um pintor, Angelino Medoro, chamado às pressas pelo senhor Maza, pouco antes de Rosa deixar esta terra, reproduziu-a ao vivo sobre o leito de morte. Tinha apenas 31 anos e não havia perdido os traços belíssimos da sua fisionomia.

Era a imagem mais verdadeira da América Latina que, mesmo tendo recebido como presente do Criador uma beleza encantadora e uma riqueza sem limites, por vicissitudes históricas, quase sempre desumanas, viveu sempre na pobreza e na dor. Não obstante isso, jamais perdeu a confiança no amor de Deus e sempre nutriu a esperança de um futuro melhor.
Talvez por isso que Rosa de Lima foi escolhida como a padroeira do Continente da Esperança.

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