Revista Ave Maria

Artigos da revista › 21/06/2017

Santo do mês – São Luís Gonzaga, padroeiro da juventude (1568-1591)

 “Não convém querermos ser grandes por causa do nosso nascimento: porque também os príncipes são cinzas como os pobres.”
(Palavras atribuídas ao santo. Cit. in: Bargellini, P. Mille santi del giorno. Firenze, Vallecchi Editore, 1977, p. 345. Cf. também: Cepari. Vita di san Luigi Gonzaga. Roma, 1925, p. 48)

Se para alguns mártires da Antiguidade coube a sorte de permanecerem na história como lendas que os tornaram mais simpáticos do que eram, para outros santos, como Antônio de Pádua e Luís Gonzaga, a tradição popular, alimentada por certo tipo de hagiografia, reservou-nos a surpresa de encontrá- los com histórias desfiguradas, sem nenhuma vantagem para suas pessoas. Antônio, o douto franciscano, combativo e defensor dos pobres, admirado até mesmo por São Francisco por sua santidade e sabedoria, tornou-se, na fantasia popular, um fradinho de rosto angélico que encontra os objetos perdidos ou o prodigioso mago que arruma casamentos para as moças solteiras. Luís Gonzaga, de caráter decidido e de inteligência aguda, conhecedor do luxo e da magnificência das cortes europeias, foi retratado como um jovem imerso em nuvens celestes que, para não perturbar sua pureza, fechava os olhos todas as vezes que encontrava uma mulher pelo seu caminho, mesmo que fosse a sua mãe.

Porém, a verdadeira história é bem diferente. Luís nasceu no castelo de Castiglione delle Stiviere, entre Bréscia e Mântua, no dia 9 de março de 1568, filho do marquês dom Ferrante Gonzaga e da condessa senhora Marta Tana de Santena, um casal de jovens esposos que voltou da corte de Madri, onde ambos tinham estado a serviço do rei Filipe II e da rainha Isabel.

O DESTINO DO PRIMOGÊNITO

O destino de Luís estava claro para todos: deveria tornar-se um perito na arte militar e em governar, porque seria o herdeiro dos bens e títulos do seu pai. Por isso, já na idade de 4/5 anos trazia a divisa de pequeno capitão em Casalmaggiore ao sul do rio Pó, onde o pai, por ordem de Filipe II, treinava 3 mil soldados de várias partes da Itália para ser enviados à Tunísia com o exército imperial, a fim de exterminar as últimas resistências islâmicas que permaneceram em armas depois da batalha de Lepanto.

O pequeno soldado observava com interesse o movimento disciplinado das tropas e ficava particularmente atraído pela explosão de um disparo. Um dia, aproveitando a distração de uma sentinela, carregou uma colubrina e acendeu a mecha. O tiro por felicidade partiu para o alto, sem provocar nenhum dano, e o menino foi lançado para trás, ficando coberto de pó.

Quando o levaram, ainda todo sujo, mas sorridente, para o seu pai, também o pai sorriu por complacência. Era um soldado precoce. Infelizmente, como sua mãe percebeu, o menino aprendia rapidamente não só o uso das armas, mas também as maneiras nem sempre educadas dos soldados. Quando o pai embarcou para a Tunísia juntamente com os seus soldados, em 1573, Luís teve de retornar para casa, onde o aguardava sua mãe com outros dois irmãozinhos. Abandonou a divisa militar e submeteu-se de boa vontade à disciplina materna, que com delicadeza e decisão lhe purificou o linguajar, fazendo-o compreender que certas palavras não ficam bem na boca do cristão.

A CONVERSÃO

Foi nesse período que Luís marcou a data de sua “conversão do mundo para Deus”. Segundo a sua descrição, tinha apenas 7 anos quando durante a oração sentiu um grande desejo de se doar totalmente ao Senhor e nesse momento ele pronunciou o seu “sim”! Foi tão forte a intimidade daquele momento que, daí em diante, mergulhar em Deus e contemporaneamente desenvolver os trabalhos ordinários da vida se tornaram para ele atitudes normais.

Mais tarde, quando já era estudante de teologia, o seu formador, preocupado pela sua saúde, ordenou-lhe que não se empenhasse demais em procurar uma união ininterrupta com Deus, deixando repousar um pouco a mente. Luís confiou essa orientação a outro companheiro: “Não sei o que fazer. O padre reitor mandou-me não pensar em Deus para evitar todo esforço, e é isso precisamente que exige de mim o máximo esforço” (cf. Pettinato, G. I santi canonizzati del giorno/VI. Udine, Edizioni Segno, 1991, p. 234).

VOTO DE CASTIDADE AOS 10 ANOS

Para selar esse propósito ele fez o voto de castidade. Tinha apenas 10 anos. Podia entender as consequências de tal empenho? A resposta quem nos dá é São Carlos Borromeu, que, dois anos depois, em uma conversa com Luís, não só não o repreendeu por essa sua decisão, mas o encontrou tão amadurecido que quis lhe dar pessoalmente a Primeira Eucaristia, mesmo não sendo costume fazer a comunhão nessa idade. De Florença Luís e seu irmão Rodolfo foram enviados para Mântua, à corte do duque, seu parente. Aí Luís sentiu os primeiros sintomas de uma doença que – segundo o parecer dos médicos do tempo – só poderia ser curada com uma rígida e controlada dieta na alimentação e na bebida. Luís se submeteu com docilidade às orientações do médico, enquanto começava a despertar em si a ideia de renunciar ao marquesado em favor de Rodolfo e entrar em uma ordem religiosa.

PRÍNCIPE NA CORTE E ESTUDANTE UNIVERSITÁRIO

Mas as convenções sociais, que os seus pais julgavam ser um privilégio e um dever, fizeram que, no ano de 1581, ele fosse para a Espanha como pajem de honra do príncipe herdeiro, dom Diego. Contemporaneamente continuou seus estudos de filosofia na Universidade de Alcalá.

Em meio às ocupações da corte e dos estudos, Luís encontrava tempo para ler livros de espiritualidade e para orar. Leu meditando o famoso Compêndio da doutrina espiritual, de Luís de Granada, mas mergulhou, sobretudo, na leitura de um opúsculo de São Pedro Canísio e das cartas escritas pelos missionários jesuítas nas Índias. Compreendeu, então, que o seu lugar era na Companhia de Jesus.

NOVIÇO JESUÍTA EM ROMA

Não foi fácil para seu pai aceitar sua decisão, ao passo que sua mãe a aprovava em silêncio. Enfim, venceu as resistências paternas e renunciou ao marquesado em favor de seu irmão Rodolfo e, no dia 25 de novembro de 1585, depois de uma visita de três dias a Loreto, para cumprir o voto feito pela mãe no dia do seu nascimento, podia finalmente entrar para o noviciado dos jesuítas em Roma. Não era novidade para os jesuítas receber em suas fileiras personagens provenientes da alta nobreza. Disso eram exemplos ilustres, além do fundador, os primeiros companheiros de Inácio e Francisco Bórgia, sucessor de Inácio. Entrava-se na Companhia com a condição de deixar do lado de fora todo sinal de sangue azul, porque passando por aquela porta todos eram iguais.

Luís, que havia morado como estrangeiro em várias cortes europeias, em Roma sentiu-se em casa: “Se eu tenho”, escreveu, “um país natal aqui, esse é Roma, onde nasci em Jesus Cristo”. Lá, sob a orientação de Roberto Belarmino, terminou brilhantemente o curso de filosofia e iniciou a teologia. Por ordem dos superiores retornou ao castelo paterno para conciliar uma briga que surgiu entre o irmão e o príncipe de Mântua. Realizou essa missão devido ao ascendente moral que gozava junto de todos e pela caridade com que soube tratar cada um. Obteve também a regularização do matrimônio de seu irmão, que, infringindo as leis do tempo, havia se unido a uma jovem que não era da sua condição social.

Voltando para Roma, iniciou em novembro de 1590 o último ano de teologia para ser depois ordenado sacerdote. Não que isso fosse para ele uma meta cobiçada, porque para ele o que realmente importava era aprofundar sua união com Deus, tantas vezes experimentada, que lhe dava um sentido de plenitude. Amar para dar glória a Deus e para ser amado por Ele, simplesmente isso é o que queria, em sintonia com o carisma inaciano.

 A SERVIÇO DOS ATACADOS POR PESTE

Quando em Roma grassou a epidemia que tantas vidas havia já ceifado no norte da Itália, pediu e lhe foi concedido servir aos doentes no Hospital de São Sisto. Pouco depois, porém, a permissão lhe foi retirada por temor de que a sua frágil constituição física pudesse correr o perigo de contágio. Todavia foi-lhe permitido, diante de sua insistência, poder visitar os enfermos considerados com menos perigo de contágio, de outro hospital situado aos pés do monte Campidoglio.

Um dia, enquanto se dirigia para o hospital, encontrou abandonado na rua um empestado no fim da vida. Colocou-o sobre as suas costas e o levou ao hospital. Era um doente de peste e Luís contraiu a doença, que em poucos meses o conduziu à morte. Foi no dia 21 de junho de 1591, e Luís tinha apenas 23 anos.

Algum tempo antes, talvez prevendo a sua partida iminente, escrevera uma longa carta para a sua mãe, na linguagem pomposa do tempo, dizendo-lhe: “Os médicos, que não sabem como irá acabar, procuram fazer todo o possível para a saúde do corpo. Mas para mim é mais importante pensar que Deus nosso Senhor queira conceder-me uma saúde melhor do que aquela que possam obter os médicos; e, portanto, estou verdadeiramente feliz, porque espero que dentro de poucos meses Deus nosso Senhor me chame da terra dos mortais para o reino dos vivos”. A essa se seguia outra, que traz a data de 10 de junho de 1591: “A separação não será longa. Voltaremos a nos ver no céu e juntamente unidos ao autor da nossa salvação gozaremos alegrias imortais, louvando-o com toda a capacidade da alma e cantando sem fim suas graças… Eu disse essas coisas só para obedecer ao meu ardente desejo de que tu, ilustríssima senhora, e toda a família, considereis a minha partida como um acontecimento jubiloso… Preferi escrever para ti, porque nada me ficou com que possa manifestar de modo mais claro o amor e o respeito que, como filho, devo à minha mãe” (Acta Sanctorum, junho, 5, 878; cf. também Manns, P. I santi, II. Milano, Jaca Book, 1988, pp. 240-241).

Foi proclamado beato no ano de 1605, santo no ano de 1726 e, no ano seguinte, padroeiro da juventude. Para a maior parte dos seminaristas que, depois do Concílio de Trento, eram orientados pelos jesuítas ou se inspiravam na espiritualidade inaciana, Luís Gonzaga foi proposto como modelo para todos os aspirantes ao sacerdócio.

Texto captado da edição de junho da Revista Ave Maria. Para ler todos os conteúdos na íntegra, clique aqui e assine.

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