Revista Ave Maria

Artigos da revista › 01/08/2019

Trigo e joio crescem juntos

“Jesus propôs-lhes outra parábola: o Reino dos Céus é semelhante a um homem que tinha semeado boa semente em seu campo. Na hora, porém, em que os homens repousavam, veio o seu inimigo, semeou joio no meio do trigo e partiu. O trigo cresceu e deu fruto, mas apareceu também o joio. Os servidores do pai de família vieram e disseram-lhe: ‘Senhor, não semeaste bom trigo em teu campo? Donde vem, pois, o joio?’. Disse-lhes ele: ‘Foi um inimigo que fez isso!’. Replicaram-lhe: ‘Queres que vamos e o arranquemos?’. ‘Não’, disse ele; ‘Arrancando o joio, arriscais a tirar também o trigo. Deixai-os crescer juntos até a colheita. No tempo da colheita, direi aos ceifadores que arrancai primeiro o joio e atai-o em feixes para o queimar. Recolhei depois o trigo no meu celeiro’” (Mt 13,24-30).

A parábola do joio e do trigo. Por meio dela, Jesus ensina sobre a tolerância e a paciência necessárias para a vida. Seu ensinamento questiona o comportamento de quem classifica e faz distinção das pessoas. Ele tem uma maneira especial de relacionar-se com as pessoas, sobretudo com os marginalizados e excluídos social e religiosamente. Como Deus, que “faz nascer o sol tanto sobre os maus como sobre os bons, e faz chover sobre os justos e sobre os injustos” (Mt 5,45).

Jesus a ninguém discrimina. Acolhe não somente os considerados “bons”, mas a todos.

Jamais alguém fizera como Jesus, que até será acusado por aqueles que tinham fama de religiosos de ser “comilão e beberrão, amigo dos publicanos e dos pecadores” (Mt 11,19).

É um grave equívoco dividir as pessoas entre as boas como destinadas à salvação e as más para a condenação. Isso favorece o triste fato de que pessoas, inclusive cristãs, afirmam que a eliminação de alguém categorizado como ruim é um bem para a sociedade. É injusta e diabólica essa radicalidade. Esse não é o pensar de Deus.

Trigo e joio crescem juntos. No interior de cada um de nós estão presentes essas forças opostas. Como dizia Paulo: “Sabemos, de fato, que a lei é espiritual, mas eu sou carnal, vendido ao pecado. Não entendo, absolutamente, o que faço, pois não faço o que quero; faço o que aborreço” (Rm 7,14-15). Há necessidade de maturidade humana para um agir consciente e livre. Fazer crescer o bem e, assim, a tendência de agir precipitadamente, violentamente e condenando será vencida pelo amor que perdoa setenta vezes sete vezes (cf. Mt 18,32).

Saber conviver com o outro, nunca julgar nem condenar e ter a atitude divina da paciência para perceber a qualidade que cada ser traz.

Chama a atenção sobre o inimigo que semeia o joio (v. 25). Jesus semeia amor e respeito pelo outro enquanto outros espalham o joio do fanatismo, da violência, da distinção, da rejeição e da condenação.

No tempo de Jesus havia grupos que separavam, excluíam as pessoas como puras e impuras: fariseus, doutores da lei e outros. Será que em nosso tempo há quem “em nome do divino, do bem” se arroga no direito de discriminar, condenar, excluir? Que tristeza! É nossa responsabilidade o fato da existência de uma sociedade tão escandalosa e maldosamente desigual.

O mal (joio) presente é resultante das tendências humanas mal orientadas e do uso equivocado da liberdade.

Mateus, com essa citada parábola, convida os possíveis impacientes seguidores e seguidoras de Jesus à paciência e à perseverança no empenho contínuo da construção do Reino de Deus. Devemos rever nossas atitudes e amar a todos, pois somos irmãos e filhos do mesmo Pai. Arrancando o joio, pode-se perder também o trigo.

O Reino de Deus cresce e se desenvolve no enfrentamento e na superação das tensões entre injustiça e justiça, opressor e oprimido, rico e pobre, superior e inferior, capaz e incapaz, pecado e graça.

Por Pe. Antônio Ferreira, cmf

 

 

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