Revista Ave Maria

Artigos da revista › 01/11/2019

Consciência Negra em tempos sombrios


No dia 20 de novembro de 2019 rememoramos os ideais de Zumbi dos Palmares (1695) e da consciência negra, período significativo e especial para as comunidades negras, sobretudo por vivenciarmos a Década Internacional dos Afrodescendentes – 2015-2024 –, promovida pela Unesco (Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura). O objetivo da década consiste em promover o respeito, a proteção e a realização de todos os direitos humanos e liberdades fundamentais dos afrodescendentes, conforme Declaração Universal dos Direitos Humanos da ONU (Organização das Nações Unidas). Esse cenário deverá impulsionar também a Declaração e o Programa de Ação da Conferência Mundial contra o Racismo, a Discriminação Racial, a Xenofobia e Intolerância Correlata, ocorrida em Durban, África do Sul, em 2001, bem como os documentos da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB), que exortam todo o povo de Deus a colocar-se a serviço da vida e da esperança, “(…) acolher, com abertura de espírito, as justas reivindicações de movimentos – indígenas, da consciência negra, das mulheres e outros – (…) e empenhar-se na defesa das diferenças culturais, com especial atenção às populações afro-brasileiras e indígenas” (CNBB, doc. 85, coleção verde 105, aprovado na 51ª Assembleia Geral, organizado pela Comissão Episcopal Pastoral para a Ação Social Transformadora, que busca contribuir para a atuação da Igreja perante a realidade das comunidades quilombolas).

Diante desse contexto, as comunidades cristãs e especialmente a Igreja Católica têm o desafio e um amplo papel no apoio aos cidadãos e cidadãs negros no combate à discriminação racial, à desigualdade social e à intolerância às religiões de afro-brasileiras, desafio esse que tem por autoevidência o crime contra a humanidade de escravização do grupo étnico negro traficado do continente africano, no período colonial brasileiro, a exclusão social, política e econômica vivenciada pelo negro ao longo da história, com a subsequente marginalização na participação da riqueza do país, tendo que suportar o fardo do preconceito racial nos tempos modernos; no cenário de crise e caos social no Brasil, o negro é a maior vítima.

Nestes tempos hodiernos, as comunidades negras vivenciam momentos sombrios, tendo em vista o cenário desesperador à sombra do contexto social e político autoritário a que a população brasileira, com maior índice de exclusão, os mais pobres e os considerados subalternos, entretanto não submissos, são deliberadamente submetidos.

As comunidades remanescentes quilombolas foram as primeiras a ser discriminadas. Por má-fé ou ignorância, uma série de políticas públicas de construção, preservação e difusão cultural da visão de mundo negro estão sendo dizimadas. A perda para a nação é incomensurável, visto que é todo um patrimônio material e imaterial da memória de formação da nação brasileira, que corre um sério risco de ser inviabilizada, já que está sendo invisibilizada como parte de uma herança sem testamento, que toda nação recebe como parte da identidade do seu povo.

O fogo do ódio dizimador na floresta amazônica com a sua fumaça sombria transcende o território físico do país e representa uma grande ameaça à própria sobrevivência do planeta Terra. A tragédia climática atinge a todos os povos da floresta, as comunidades ribeirinhas, os povos indígenas, as comunidades quilombolas e o mais grave: todo o ecossistema da biodiversidade de animais, plantas e árvores, água e ar, em que não há processos de recuperação das suas vidas nativas e naturais de acordo com a formação original.

Nesse sentido, e em contraposição ao descrito acima, a Igreja profética, seguindo a Boa-Nova do Evangelho de Jesus de Nazaré, que alimenta a consciência dos negros e negras, não pode silenciar. É preciso agir como os profetas, anunciar e denunciar, em prol de todos os seres e da “casa comum”, ou até as pedras gritarão. A ameaça à vida plena sobrepõe o campo e chega ao ar que respiramos nas cidades, semelhante ao preconceito racial, que envenena o meio ambiente e social no qual se vive nestes obscuros tempos. O caminho da solidariedade cristã, o estudo, o esclarecimento e a conscientização, alargados com a fé irmanada dos cidadãos e cidadãs negros no combate à discriminação racial, a desigualdade social e a intolerância às religiões afro-brasileiras, urge ser fortalecido e precisa ser trilhado, como foi o de Zumbi e Dandara, no quilombo de Palmares e atualmente nas ações da Pastoral Afro-brasileira.

Conforme disse Dom Helder Câmara, na invocação a Mariama na Missa dos Quilombos, no ano de 1982 “(…) o importante é que a Igreja do Brasil embarque de cheio na causa dos negros. Como entrou de cheio na Pastoral da Terra e na Pastoral dos Índios, não basta pedir perdão pelos erros de ontem. É preciso acertar o passo de hoje sem ligar ao que disserem. Que se possa renovar a esperança em Deus, com as bênçãos de Mariama, mãe negra Aparecida! Axé! Ubuntu!”.

Pe. José Enes de Jesus e Osvaldo José da Silva

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