Revista Ave Maria

Artigos da revista › 01/01/2020

Intolerância Religiosa

Há assuntos que só podem ser discutidos quando as palavras e expressões tiverem o mesmo sentido para todos. Quando se trata, por exemplo, da expressão “intolerância religiosa”, estarão todos os que a usam pensando do mesmo modo?

Intolerância religiosa é a discriminação contra pessoas ou grupos com opiniões divergentes no campo religioso. Segundo a Constituição Brasileira, a todos cabe o direito de abraçar a religião que quiserem “Art. 5º – VI – É inviolável o direito à liberdade de consciência e de crença, sendo assegurado o livre exercício dos cultos religiosos…” (Constituição da República Federativa do Brasil de 1988, art. 5º); também os que não têm religião alguma devem ser respeitados. A Declaração Universal dos Direitos Humanos é nessa linha: “Todo homem tem direito à liberdade de pensamento, consciência e religião” (Declaração Universal dos Direitos Humanos, art. 18).

AS EXPRESSÕES SAGRADAS DE CADA RELIGIÃO

Cada religião conta com suas expressões sagradas, seus ritos e suas cerimônias próprias. A Igreja Católica, por exemplo, além da Palavra de Deus alimenta seus filhos com os sacramentos. Esses são para os seus fiéis, isto é, para a comunidade formada por aqueles que seguem os princípios e valores da Igreja Católica. Não são para todos os que, por acaso, vierem a participar de suas celebrações. Aliás, os próprios católicos, para receber os sacramentos, devem aceitar certas condições. Pense-se, por exemplo, na Comunhão Eucarística, nosso dom mais importante. A Eucaristia é tão valiosa que levou o apóstolo Paulo a escrever palavras muito fortes contra os que participam desse momento, sem distinguir devidamente o corpo do Senhor: “(…) eles comem e bebem sua própria condenação” (1Cor 11,27-29).

Portanto, não é intolerância religiosa da parte da Igreja Católica limitar a santa comunhão aos seus próprios fiéis. Não há nessa decisão nenhuma atitude agressiva ou ofensiva contra ninguém. Acolhemos com alegria quem desejar participar de uma celebração nossa, mas esperamos compreensão de sua parte. Compreensão, no caso, significa que queremos ser respeitados em nossos valores e ritos. Insisto: a Comunhão Eucarística é restrita às pessoas que vivem de modo comprometido com o seu Batismo, seguem as orientações da Igreja e testemunham a sua fé.

O mesmo vale para um católico que vai participar de um ato religioso de outra igreja cristã ou de matriz africana: cabe-lhe comportar-se ali de forma adequada, não se julgando no direito de fazer tudo o que gostaria. Intolerância religiosa é uma via de dois sentidos: o respeito mútuo é base e fundamento para uma boa convivência.

ECUMENISMO E DIÁLOGO INTER-RELIGIOSO

Sou a favor do ecumenismo, isto é, do diálogo e da busca da unidade entre as religiões que invocam o Deus Trino e confessam que Jesus, o Filho de Deus, é Senhor e Salvador. O pedido que no fim de sua vida Jesus fez ao Pai – “Pai, que todos sejam um” (Jo 17,21) – motiva-nos a buscar a plena comunhão eclesial. O caminho da unidade dos cristãos é longo e difícil; nele, cada pequeno passo é um grande passo.

Como a unidade dos cristãos só acontecerá pela ação do Espírito Santo é importante e necessário rezar, e muito, nessa intenção.

Sou, também, a favor do diálogo com as religiões não cristãs. “A Igreja Católica nada rejeita do que há de verdadeiro e santo nestas religiões” (Concílio Vaticano II, NAe, 2). Todos os povos formam uma só comunidade, por terem uma única origem. As várias religiões buscam resposta às grandes interrogações sobre a condição humana, por exemplo: qual o fim da vida? O que é bem e o que é mal? De onde vêm a dor e o sofrimento? Que sentido eles têm? O que é a morte? Qual o sentido de nossa existência? E outras. Nesse diálogo, a Igreja Católica anuncia Cristo, apresentando-o como caminho, verdade e vida.

Diferente é a minha posição sobre o sincretismo. Para que fique claro o que quero dizer, começo lembrando as definições que os dicionários apresentam dessa palavra. “Sincretismo”, para o Dicionário Houaiss, é “a fusão de diferentes cultos ou doutrinas religiosas”; para o Dicionário Aurélio, é “a tendência à unificação de ideias ou de doutrinas diversificadas e, por vezes, até mesmo inconciliáveis”; já para o Dicionário Etimológico Nova Fronteira, trata-se do “amálgama de doutrinas ou concepções diferentes”.

Com o sincretismo, ao perder a própria identidade, todos perdem. Pior: desaparece o diálogo, uma vez que o profundo conhecimento da própria fé ou da crença que norteia uma pessoa ou um grupo religioso são a base e o fundamento de todo e qualquer diálogo produtivo. Quando não há um conhecimento próprio, quando não se tem clareza quanto à própria identidade, o resultado será mesmo um “amálgama” (= “mistura de elementos heterogêneos ou diferentes”, segundo o Dicionário Houaiss). Tendo em vista que os cristãos viviam em ambientes onde moravam também pessoas de outras religiões, o apóstolo Pedro advertia às primeiras comunidades: “Sabei dar, aos que vos pedirem, a razão da vossa esperança” (1Pd 3,15). Com isso, ele queria dizer que somente um cristão que conhece bem a sua própria fé é capaz de apresentar e explicar sua visão religiosa aos que pensam e vivem de forma diferente da sua; somente esse cristão será capaz de um diálogo maduro com todos os que têm outras religiões ou que não têm religião alguma.

TEMPOS DE GLOBALIZAÇÃO

Vivemos num mundo pluralista. A globalização aproxima as pessoas, quebra muros de separação e nos ajuda a nos conhecermos melhor. Independentemente da religião que cada qual pratica, todos somos chamados a trabalhar por causas que nos unem e dignificam a vida humana – por exemplo, a paz, a justiça, a promoção dos necessitados, a solidariedade etc. No mais, devemos nos respeitar mutuamente e saber conviver com o diferente.

D. Murilo S.R. Krieger, scj

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