Revista Ave Maria

Artigos da revista › 01/11/2019

Maria, pedagoga do evangelho


“FAZEI TUDO O QUE ELE VOS DISSER” (JO 2)

“A VIDA CRISTÃ CONSISTE EM SEGUIR A CRISTO” (JOÃO PAULO II, CATECHESI TRADENDI, 5).

“Seguir Cristo significa aprender a pensar melhor como Ele, a julgar como Ele, a atuar de acordo com os seus mandamentos, a esperar como Ele os convida a fazê-lo”. Isso significa “desenvolver compreensão do mistério de Cristo à luz da Palavra, para que o homem todo seja impregnado por Ele” (idem, 20).

Jesus insiste no seu Evangelho aos que os seguem: “Vós sois meus amigos, se praticais o que vos ordeno” (Jo 15,14). E também: “Felizes os que ouvem a palavra de Deus e a observam” (Lc 11,28). Essas exigências de Jesus Cristo se repetem de formas diferentes por todo o Evangelho. Por isso é obvio afirmar que ser discípulo de Jesus significa viver segundo sua Palavra, segundo os seus mandamentos, que não são meras leis ou códigos, mas expressão dos valores humanos e divinos que possibilitam viver o mistério da vida em sua plenitude.

Essas exigências contêm verdades que levam a consequências impensadas e que nem sempre nós, cristãos, e mesmo os que procuram se aproximar de Cristo, temos bem presentes: reevangelizar-nos, viver todos os ensinamentos do Evangelho é a mais profunda, íntima, segura revolução de que hoje a humanidade necessita. Por isso, “A Igreja convida a todos a transformar suas mentes e seus corações segundo a escala de valores do Evangelho (Puebla, 148).

“Tanto a hierarquia como o laicato e os religiosos vivamos numa contínua autocrítica, à luz do Evangelho, em nível pessoal, grupal e comunitário, para nos despojarmos de qualquer atitude que não seja evangélica e desfigure a fisionomia de Cristo. Esta é a nossa primeira opção pastoral: a própria comunidade cristã, seus leigos, seus pastores, seus ministros e seus religiosos devem converter-se cada vez mais ao Evangelho” (idem, 972-973).

Maria é apresentada pela Igreja como mãe e modelo de cada cristão, da Igreja e da humanidade.

É assim que a Igreja, desde o Concílio Vaticano II e nos posteriores ensinamentos, tem ensinado e insistido para reconhecer o verdadeiro lugar e missão da Igreja como povo de Deus.

Há, porém, um aspecto que provavelmente nunca fora tratado com tanta ênfase e clareza como até então e que pode ter enormes ressonâncias em toda a vida da Igreja, em cada uma de suas expressões. Trata-se da relação entre Maria e o Evangelho.

Maria é o modelo ideal da Igreja (285) e é reconhecida como modelo extraordinário da Igreja, precisamente porque é discípula perfeita que se abre à Palavra e se deixa penetrar por seu dinamismo (296).

Maria, porém, não é um modelo exterior e distante. Sendo mãe gloriosa no Céu, atua na terra (288). Ela é ao mesmo tempo modelo e modeladora: enquanto peregrinamos, Maria será a Mãe e a educadora da fé (cf. Constituição Dogmática Lumen Gentium, 63). Ela cuida que o Evangelho nos penetre intimamente, plasme nossa vida de cada dia e produza em nós frutos de santidade. Ela precisa ser cada vez mais a pedagoga do Evangelho na América Latina (290).

Por isso, a Igreja, que deseja evangelizar não de maneira decorativa, como um verniz superficial (cf. Exortação Apostólica Evangelii Nuntiandi, 20), mas no fundo, na raiz, na cultura do povo, volta-se para Maria para que o Evangelho se torne mais carne, mais coração na América Latina (303).

MARIA E A PALAVRA DE DEUS

Donde vem a relação tão profunda entre Maria e o Evangelho? De toda a vida de Maria e do lugar que Deus lhe deu na história do seu povo. O “caminho de Maria” foi um constante dizer “sim” à vontade de Deus, isso é o verdadeiro amor de Deus e a perfeição cristã que Maria viveu como expressão fiel de sua vida totalmente voltada a Ele.

Maria deu seu “sim” a esse desígnio de amor. Aceitou-o livremente na anunciação e foi fiel à palavra dada até o martírio do Gólgota. Foi fiel companheira do Senhor em todos os caminhos. A maternidade divina levou-a a uma entrega total. Foi uma doação generosa, cheia de lucidez e permanente (292). Por sua fé é a Virgem fiel (294).

Se olharmos para a figura viva de Maria, nós a vemos toda de Cristo e com Ele, toda servidora dos homens (294). Maria é a pessoa que crê por excelência, em quem resplandece a fé como dom, abertura, resposta e fidelidade (294).

Maria é a discípula de seu próprio filho, pois vive o Evangelho em todas as circunstâncias em que a descreve a Sagrada Escritura.

A Virgem Maria se fez serva do Senhor. A Sagrada Escritura apresenta-a como alguém que, indo visitar Isabel por ocasião do parto, presta-lhe o serviço muito maior de anunciar-lhe o Evangelho com as palavras do Magnificat. Em Caná está atenta às necessidades da festa e sua intercessão provoca a fé dos discípulos para que “acreditam nele” (Jo 2,11). Todo o serviço que Maria presta aos homens consiste em abri-los ao Evangelho e convidá-los a obedecer-lhe: “Fazei o que vos disser” (Jo 2,5) (300).

A Virgem Maria foi sempre proposta pela Igreja a ser imitada dos fiéis porque, nas condições concretas da sua vida, ela aderiu total e responsavelmente à vontade de Deus (cf. Lc 1,38); porque soube acolher a sua palavra e pô-la em prática; porque a sua ação foi animada pela caridade e pelo espírito de serviço; em suma, ela foi a primeira e a mais perfeita discípula de Cristo (cf. Exortação Apostólica Marialis Cultu, 35).

Toda a vida de Maria é um catecismo vivo (cf. Exortação Apostólica Cathechesi Tradendae, 3-7).

Se a devoção a Maria não nos leva a imitá-la, se não for uma porta que nos leva a Jesus, a viver o Evangelho, então, não é suficientemente cristã.

Portanto, uma função decisiva de Maria no cristianismo consiste em que se evite o risco de limitar-nos a saber, pensar, estudar as verdades cristãs. Maria nos leva a vivê-las. Por isso, a Igreja ensina que sem Maria o Evangelho fica desencarnado, desfigura-se e transformar-se em ideologia, em racionalismo espiritualista (301).

Pe. José Alem, cmf

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