Revista Ave Maria

Artigos da revista › 09/08/2020

Pedro Casaldáliga Bispo e Profeta

Nascido no dia 16 de fevereiro de 1928, em Balsareny, província de Barcelona, Catalunha, Espanha.

Em 1943, ingressou na Congregação dos Filhos do Imaculado Coração de Maria, Missionários Claretianos.

Em 1952 foi ordenado sacerdote em Montjuic, Barcelona. Até a sua vinda para o Brasil, trabalhou na formação de futuros missionários, com a Pastoral da Juventude e com a Pastoral do Cursilho de Cristandade.

Participou na renovação congregacional pós-conciliar em 1967, em Roma, onde organizou a sua vinda para o Brasil. Nesse Capítulo, a Congregação fez uma verdadeira renovação e uma abertura para o campo missionário. Como gesto concreto, entre outros lugares, foi assumida a missão do Mato Grosso.

Em 1968, junto com o padre Manoel Luzon, cmf, chegou ao Brasil para fundar a Missão do Mato Grosso, uma região socialmente explosiva, com um algo grau de analfabetismo, marginalização social, violência e concentração fundiária.

Em 1969, ao ser fundada pelo Vaticano, a Prelazia de São Félix do Araguaia, nomeou também, um ano depois, o Administrador Apostólico. Nesse mesmo ano foi fundado o Jornal Alvorada, porta-voz dos problemas da região.

Em 1971 foi nomeado Bispo Prelado de São Félix do Araguaia pelo Papa Paulo VI. A publicação da carta pastoral “Uma Igreja na Amazônia em conflito com o Latifúndio e a Marginalização Social”, primeiro manifesto de apoio à gritante situação de devastação, miséria e violência na região amazônica.

Pedro ajudou a estruturar uma pastoral popular com o protagonismo dos leigos, baseada na conscientização e no compromisso evangélico. Como uma consequência dessa organização, ajudou a criar, com D. Tomás Balduíno, o Conselho Indigenista Missionário (CIMI) e a Comissão Pastoral da Terra (CPT).

Em 1976, no auge do conflito, já vinha sendo ameaçado de morte. Estando em missão de defesa de duas mulheres que estavam sendo agredidas, sofreu um atentado. Em companhia do padre João Bosco Penido Burnier, foi confundido. Pensando atirar no bispo, o sacerdote foi atingido e morto por um pistoleiro. Quem salvou o bispo Pedro foi a sua simplicidade. Padre João estava melhor vestido e por isso se pensou que ele fosse o bispo. Nesse mesmo local nasceu o Santuário dos Mártires da Caminhada, com grandes concentrações de povo a cada quadro anos. Um grande painel comemorativo ao tema foi pintado pelo sacerdote e pintor Maximino Cerezo Barredo, CMF, companheiro de Dom Pedro, que colocava nas telas as ideias teológicas de Pedro.

Em junho de 1988 fez sua primeira visita Ad Límina, visita oficial que os bispos fazem ao Papa. Tempo de conflito também com a Igreja de Roma, pela dificuldade de compreensão do que se passava na Igreja de São Félix. Importante nessa época foi o apoio que os demais Bispos da CNBB deram ao bispo Pedro. Os profetas nem sempre são compreendidos, nem mesmo pelos da própria casa ou da Igreja.

Em sua atividade pastoral, Pedro e sua equipe promoveram uma pastoral de união de negros, índios, pequenos agricultores, apoiando as grandes causas, como a indígena e a revolta de Chiapas no México, em 1994. Esteve também ao lado de governos nacionais e internacionais que tentavam fazer uma política voltada para o povo.

Muito combatido, mas também muito amado, “amado e odiado”, como se dizia do Padre Claret, seu patrono e fundador. Como reconhecimento, no ano de 2000 recebeu o título de doutor Honoris Causa, pela Universidade Estadual de campinas e da Pontifícia Universidade Católica de Goiás, em 2012.

Em 2005, já sofrendo da enfermidade de Parkinson, apresentou sua renúncia à Prelazia, que foi aceita pelo Papa João Paulo II.

Já com a saúde comprometida, e a cada dia se agravando mais, ficou em São Félix até no dia 04 de agosto de 2020, sob o cuidado dos Freis Agostinianos, até ser transportado, num avião equipado com UTI, para Batatais. A escolha foi pelas condições hospitalares e de residência para os enfermos (Domus Claret) que a cidade de Batatais oferece.

Na atividade literária, Já mencionamos a criação do Jornal Alvorada, no início do seu ministério pastoral, outros livros foram escritos por Pedro, sozinho ou em parceria. Publicações de poesias, associadas à pinturas de Cerezo Barredo, também se tornou uma publicação. A editora Paulus publicou um resumo de sua espiritualidade com o livro “Nossa Espiritualidade”. A Editora Ave Maria publicou uma obra com o título “Pedro Casaldáliga – As causas que imprimem sentido à sua vida. Retrato de uma personalidade”, 2008, mais de 400 páginas. Merece destaque o filme “Descalço sobre a terra vermelha”, uma coprodução entre Brasil e Espanha, conta a história de Pedro que deixa o conforto da Europa para assumir um grande desafio de construir uma Igreja no Araguaia.

Enfim, uma centena de participações em obras da imprensa escrita, falada e televisiva, junto com as mais diversas personalidades, são um verdadeiro legado para a Igreja e para a sociedade.

Em 1992 foi criada a Agenda Mundial da América Latina, publicação que segue sendo publicada, inclusive eletronicamente:

http://portal.metodista.br/biblica/revista-ribla/autores-latino-americanos/edicoes-digitais-da-agenda-latinoamericana

Ela veicula artigos privilegiando um tema específico a cada ano. Sua primeira edição foi publicada na ocasião da comemoração do V Centenário do encontro entre a América e a Europa. Foi uma iniciativa Pedro e do sacerdote claretiano José Maria Vigil, cmf. A Agenda é um veículo para as chamadas “Causas Latino-americanas”: causa Indígena, causa negra, a causa popular, a causa das mulheres e causa ecológica.

Contato de Pedro com a Congregação: Nos últimos anos, à frente do Projeto Claretiano Solidário, Pe. Ronaldo Mazula fez constantes visitas a São Félix. Nessa proximidade familiar e representando a Congregação Claretiana, Pedro acabou fazendo do Pe. Mazula um confidente. Por essas confidências sabemos, por exemplo, o desejo de Pedro de ser enterrado em São Félix do Araguaia. Todo bispo, ao ser sagrado deixa a Congregação a que pertence para assumir a sua diocese. Dom Pedro deixou oficialmente a Congregação, porém no seu coração sempre esteve muito presente a identidade Claretiana.

Com certeza, Pedro passa deste mundo e o céu ganha uma nova estrela. No céu, Pedro terá para si um céu bem grande e iluminado, o mesmo céu que ele queria aqui na terra para todos os seus filhos espirituais. Que no céu rogue por nós!

Pe. Brás Lorenzetti

1 Comentário para “Pedro Casaldáliga Bispo e Profeta”

  1. Maria do Carmo Perentel Comin disse:

    Vai fazer muita falta. Que Deus o receba na sua Glória. Um Santo chegando aos céus.

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