Revista Ave Maria

Artigos da revista › 03/02/2020

Quaresma, um convite a viajar pelo deserto

Quaresma é o tempo em que a Igreja oferece aos seus fiéis para um aprofundamento da espiritualidade por meio dos exercícios da oração, do jejum e da esmola. Seguindo o exemplo de Jesus, que se retirou para o deserto e lá deparou com várias tentações, fortalecendo-se para seguir seu caminho, assim cada cristão também é chamado a adentrar o deserto e buscar fortalecer sua vida de fé e de oração.

Usando a imagem de Jesus no deserto para estimular o tempo da Quaresma, podem-se pensar várias características do deserto físico para construir a vivência espiritual. A primeira delas é que o deserto não possui muitas coisas, o único excesso que existe são os grãos de areia, proporcionando assim ter uma vista mais ampla do todo. Outra característica é a ausência de barulhos, permitindo ouvir os ventos correndo e passando pelas dunas de areia. Essa ausência de coisas também permite enxergar outras pessoas que ali existem.

Tais características do deserto podem ser aplicadas aos exercícios quaresmais como uma viagem ao deserto da interioridade do ser humano. Por não ser uma viagem fácil, pois não é só comprar uma passagem aérea e fazer as malas, mas sim buscar entrar dentro de si e organizar o que ali encontrar, cada cristão precisa se apegar à oração, não a uma oração corrida ou feita por obrigação, mas uma oração dedicada, que exige tempo e concentração, momento propício para falar com Deus. Como em uma viagem, também é necessário planejar e organizar o tempo que será utilizado e para isso pode-se construir um plano, colocando nele quais momentos do dia serão reservados para vivenciar esse deserto.

Ao conseguir encontrar tempo para esse exercício é preciso dar as características do deserto físico à vivência espiritual. Uma delas é a ausência de excessos, deixando somente aquilo que é próprio do local e para isso o jejum provoca a não buscar somente os prazeres e a autossatisfação. Quando o cristão se propõe a jejuar não deve ter em conta uma dieta para emagrecer ou deixar de comer algo durante os quarenta dias para depois no 41º dia comer tudo o que deixou para trás, pois deve pensar que o jejum serve justamente para tirar os excessos que cegam e não permitem enxergar as necessidades dos outros e até mesmo as da própria pessoa. Quando alguém está em uma posição cômoda, não quer sair dela e isso gera o egoísmo, que impede de enxergar a si, as suas debilidades e, principalmente, as necessidades dos outros. Jejuar ganha significado quando ajuda a tirar o excesso e auxilia a enxergar melhor tudo ao redor.

Tendo construído esse caminho até aqui, viajando ao deserto e retirando os excessos, o cristão começará a ouvir melhor os ventos que correm pelas areias de sua vida e essa é a voz de Deus sussurrando ao coração dos seus filhos; isso é a oração, que deve ser a base de todas as ações no deserto. Essa voz também é a voz de muitos homens e mulheres, crianças, jovens e idosos que clamam por ajuda, atenção, amor, coisas que lhes foram tiradas para que alguns poucos pudessem ter muito enquanto para eles sobra quase nada. Quando o cristão consegue ouvir a voz de Deus na oração e a voz dos seus irmãos no dia a dia, impelido pelo espírito e libertado dos excessos pela prática do jejum, ele chega à prática do amor demonstrado, da caridade e doa aquilo que possui para os que precisam, exercitando assim a esmola. Doar aos que necessitam é reconhecê-los como irmãos e se assim o fizer praticará os mesmos gestos e atos de Jesus, reconhecendo não só o outro como irmão, mas também assumindo a filiação a Deus como Pai.

Vivenciar a Quaresma é fazer uma viagem para dentro de si e descobrir aí quais são as tentações que precisam ser enfrentadas, são as situações que precisam ser transformadas e, principalmente, buscar a Deus em todas as coisas, em si, no outro e nas situações em que cada um está inserido. Assim como fez com Jesus, Deus tem um plano de salvação para cada homem e cada mulher e quer levar todos para o caminho da ressurreição; para isso é preciso passar pelo deserto que fortifica e ajuda a dar sentido à missão de cada cristão.

Guilherme de Freitas, sdb

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