Revista Ave Maria

Artigos da revista › 03/03/2020

Santa Perpétua, Felicidade e companheiros

7 de março
mártires africanos
(† 202/203)

“Despontou o dia da vitória dos mártires e do cárcere foram conduzidos ao anfiteatro, como se fossem para o céu, de rosto radiante e sereno, dignos, sobressaltados mais pela alegria que pelo medo (…) Ó valorosos e beatíssimos mártires! Vós sois verdadeiramente os chamados e os eleitos à glória de Jesus Cristo, nosso Senhor.”

Nos primeiros séculos do cristianismo, o martírio foi considerado a maior perfeição a que poderia aspirar um seguidor de Cristo. Nos Atos dos Mártires se leem histórias estupendas de coragem de bispos e leigos, de virgens e casadas. Às vezes, toda uma comunidade ficou na mira do olhar do poder civil com a intenção de erradicar a fé que se espalhava como uma mancha de óleo entre as pessoas. Não faltaram obviamente aqueles que, para salvar a própria pele, fizeram sacrifícios para ídolos sem acreditar neles realmente, e pedindo depois para serem readmitidos na comunidade assim que desaparecia o perigo da perseguição.

Ainda catecúmenos e já dignos de dar testemunho

A narração do martírio de Perpétua, de Felicidade e dos outros companheiros é também uma autêntica joia porque nos faz conhecer o profundo relacionamento de fraternidade que existia entre os cristãos daquele tempo e como naquele clima também as mulheres casadas tinham a coragem de enfrentar o martírio.

Perpétua era uma mulher jovem, mãe de família, e com um menino ainda pequeno. Por sua condição social e inteligência era também uma pessoa bem instruída, como se percebe por suas cartas. Sua família era cristã, exceto o pai.

Felicidade era a criada de Perpétua e de sua patroa recebeu a fé.
Também ela era casada e estava no oitavo mês de sua primeira gravidez. Entre as duas mulheres, uma patroa e outra escrava, a sintonia era perfeita, pois a fé cristã tornou-as irmãs, até mais do que se fossem nascidas da mesma mãe terrena.

Ao lado das duas, havia alguns personagens masculinos: Saturnino, Secondulo e Revocato. Este último era um escravo. As duas mulheres e os três homens ainda eram catecúmenos, quando foram presos e reclusos no cárcere. Pertenciam a uma pequena cidade vizinha a Cartago de nome Thuburbo minus. O responsável pela comunidade era o catequista Saturo que, não estando presente na cidade no dia da prisão e não querendo deixar a sua obra incompleta, se apresentou espontaneamente às autoridades declarando-se cristão. Desta forma juntou-se ao grupo que estava no cárcere em Cartago. Dois diáconos da comunidade se interessaram pelo caso e com o dinheiro da própria comunidade conseguiram que os prisioneiros ficassem em cárcere privado e pudessem receber visitas dos parentes e amigos. Perpétua pôde assim alimentar o seu filhinho.

Naquele período, receberam o batismo das mãos de Saturo como preparação ao martírio. Perpétua no seu diário escreveu: “O Espírito me sugeriu pedir na hora de receber a água (do batismo) nada mais que a constância na vida”. A nobre senhora falou por si e por todos: com o batismo não pediram a libertação da prisão, mas a força para confessar Cristo.

O pai de Perpétua foi visitar a filha. Ele a amava imensamente e foi ele quem a tinha criado e instruído, como não acontecia com nenhuma outra mulher, e não podia permitir que agora ela terminasse miseravelmente por causa daquela nova crença religiosa. Suplicou à filha, de todos os modos, para que voltasse sob seus passos, mas foi inútil.

A preparação imediata ao martírio

Aqueles dias de espera deveriam ser dias de festa, mas Felicidade estava triste. Ela seria excluída da luta no anfiteatro, ao menos por ora, pois a lei romana proibia que fosse levada para a arena uma mulher grávida. O autor que teve entre suas mãos as folhas do diário de Perpétua nos informa sobre os últimos dias dos nossos mártires. Ele diz: “Quanto a Felicidade, também esta foi agraciada pelo Senhor, precisamente deste modo: ela estava no oitavo mês de gravidez, enquanto se aproximava o dia dos jogos, temia enormemente que lhe fosse suspenso o martírio. Não é lícito, de fato, matar mulheres grávidas…”.

Mas também seus companheiros estavam muito preocupados por ter de abandonar na estrada da mesma esperança uma tão virtuosa companheira, que estivera com eles desde o início. Com esse desejo comum, dois dias antes do espetáculo, rezaram juntos ao Senhor e logo após a oração Felicidade começou a sentir as dores do parto.

E depois, como é natural em um parto ao oitavo mês, ela se lamentava, sofrendo fortes dores. Então um dos carcereiros lhe disse: “Se você grita assim agora, imagina o que você irá fazer quando for atirada aos animais ferozes?” – Ela lhe respondeu: “O que eu estou sofrendo agora sou eu que sofro; mas lá será em mim outro quem sofrerá por mim; de fato, eu irei sofrer também por ele”. Segundo Perpétua em seu diário, “assim deu à luz uma menina, que uma de nossas irmãs tomou consigo e a criará como filha”.

Como podiam aquelas mães separar-se de seus filhos ainda pequenos? Só uma profunda experiência de fé pode explicar uma conduta tão heroica. Além do mais, se elas partiam, restava a família da comunidade. Aos filhos era melhor deixar a recordação de uma mãe corajosa diante dos algozes do que uma cristã medrosa que havia renegado a fé. Não havia dito o Senhor: “Aquele que não deixa, pai, mãe, filho…”? Eles se sentiam chamados a testemunhar a validade do evangelho.

O dia da festa

Era costume oferecer aos prisioneiros um lauto banquete antes de conduzi-los à arena. Eles aceitaram e fizeram a festa. Depois foram apresentados ao povo. De um lado estavam os homens: tinham restado apenas três, pois Secondulo não tinha resistido aos maus-tratos no cárcere e já tinha ido para o céu. O anfiteatro estava apinhado, pois o povo gostava de semelhantes espetáculos que geralmente eram feitos com delinquentes comuns e escravos. Desta vez a curiosidade era maior, pois os condenados eram “os lavados”, como eram chamados os primeiros cristãos por causa do rito com a água do batismo, e entre estes uma nobre matrona com a sua criada.

Entraram no anfiteatro entre duas filas dos algozes encarregados de lhes bater com chicote de couro tendo na extremidade um gancho de metal. O sangue que escorria dos corpos havia aguçado o instinto dos animais ferozes.

Saturo, Revocato e Saturnino foram amarrados aos postes, em um palco, bem visíveis à multidão, para serem primeiro atacados por um leopardo e depois por um urso. As mulheres ao contrário: foram conduzidas ao centro da arena e abandonadas aos chifres de uma vaca enfurecida.

O espetáculo começou com as mulheres, o animal mais de uma vez as lançou aos ares com os chifres até se cansar, enquanto a multidão aos urros se divertia. Perpétua quando se levantou cobriu-se por pudor os joelhos com os trapos que ainda restaram sobre o corpo e correu para levantar Felicidade. Depois ambas foram conduzidas à porta de entrada para assistir ao segundo espetáculo. As duas mulheres se abraçavam e se consolavam e trocavam palavras de encorajamento aos irmãos presos nos postes.

Um leopardo e depois um urso morderam os mártires, e quando foram retirados pelos domadores se via o sangue escorrendo de toda parte e se escutava a multidão a gritar: “Os lavados agora estão bem purificados”.

A multidão, no entanto, gritava para conduzir os condenados ao meio da arena e lhes vibrar à vista deles todos os golpes de misericórdia. Saturo achou um modo de retirar o anel, mergulhá-lo no próprio sangue e doá-lo a um soldado. Os mártires, pela última vez, trocaram o beijo da paz e se submeteram ao último ato daquele terrível cerimonial.

A igreja de Cartago tinha as suas primeiras testemunhas. Sobre o local onde foram enterrados foi levantada uma basílica, onde o próprio Agostinho muitas vezes teve a oportunidade de lhes exaltar as virtudes.

A narrativa de seu martírio percorreu o império e seu culto se difundiu não só na tradição da Igreja latina, mas também na grega e siríaca.

Deixe o seu comentário





* campos obrigatórios.