Revista Ave Maria

Artigos da revista › 02/01/2019

Santo do Mês: Santo Antão

“O abade santo Antão, inflamado do teu amor, soube acolher o convite do Evangelho com zelo total e com profunda alegria. Impelido por tua graça a seguir Cristo com o coração livre e puro, doou aos pobres todos os seus bens. Superando com força de espírito a debilidade do corpo, viveu em perfeita comunhão contigo, ó Pai, na áspera solidão do deserto.” 

Com estas breves pinceladas, a liturgia ambrosiana reassume o caminho espiritual daquele que se tornou o patriarca dos eremitas. Foi uma verdadeira senda de santidade que ocupou o lugar do martírio cruento, tão frequente no período das perseguições, mas que se havia tornado bastante raro, depois da paz de Constantino. As etapas dessa nova via de santidade foram descritas magistralmente por Santo Atanásio (295-373), bispo de Alexandria, conhecedor profundo da experiência espiritual de Antão.

O CHAMADO

Antão nasceu aproximadamente em 251, de uma rica família de agricultores na aldeia de Coma, atualmente Qemans, perto de Heracleópolis, no Médio Egito. Entre os 18 e 20 anos ficou órfão dos pais, com um rico patrimônio de terras para administrar e uma irmã menor para educar.

Certo dia, assistindo a uma cerimônia litúrgica, foi profundamente tocado pelas palavras do Evangelho: “Se querer ser perfeito, vai, vende os teus bens, dá-os aos pobres, e terás um tesouro no céu. Depois, vem e segue-me!”.

Antão tinha ouvido muitas outras vezes esse convite de Jesus, mas, então, sentia-o dirigido a ele pessoalmente. Pediu conselho às pessoas conhecedoras das coisas de Deus, vendeu os seus bens, reservando o indispensável para manter-se com o próprio trabalho e para cuidar da irmã, e retirou-se para o campo, num casebre.

A DIFÍCIL LUTA

Pediu ajuda aos outros ascetas e estes lhe disseram para não se assustar, mas prosseguir com confiança, porque Deus estava com ele. Precisava dar um passo adiante: desfazer-se das últimas coisas que ainda possuía e retirar-se para um lugar ainda mais solitário. Antão vendeu a sua casinha e o pequeno terreno, distribuiu o que tinha recebido aos pobres e, nu como Deus o tinha feito, revestido apenas de um rude pano, foi habitar uma antiga gruta escavada na rocha de uma colina, não muito longe da sua aldeia. Um amigo seu de vez em quando lhe levava um pedaço de pão, fora isso tinha de alimentar-se com ervas dos campos e frutos silvestres.

Depois de certo tempo de permanência na gruta, Antão foi acometido por uma terrível crise espiritual e teve a impressão de ser um pobre desiludido, abandonado por Deus. Conseguiu perseverar, alimentando-se por pura fé na Palavra de Deus e cumprindo dia por dia a vontade divina como lhe tinham ensinado os seus mestres. Quando afinal Cristo o inundou de luz, ele lhe perguntou: “Onde estavas? Por que não apareceste desde o início para acabar com os meus sofrimentos?”. Ouviu-o responder: “Antão, eu estava aqui contigo e assistia à tua luta…”.

O CHAMAMENTO PARA O DESERTO

O lugar de seu refúgio foi descoberto por seus concidadãos e Antão foi para mais longe ainda, perto do mar Vermelho. Sobre as montanhas do Pispir havia uma fortaleza abandonada, habitada somente por serpentes, mas, em compensação, havia uma boa fonte de água. Antão se transferiu para lá em 285 e lá permaneceu por vinte anos.

Mas, por que ele fugia assim para tão longe de todos, para lugares sempre mais semelhantes ao deserto? Desejava uma vida tranquila, longe das preocupações humanas e das inúmeras preocupações que as multidões de doentes e de curiosos dão a quem goza da fama de santidade?

O motivo profundo era outro. Os anacoretas sentiam-se chamados a reviver a página evangélica de Jesus que, guiado pelo Espírito, retirou-se para o deserto para ser tentado pelo demônio. Era convicção comum de que somente a solidão permitiria à criatura humana purificar-se de todas as tendências ruins, personificadas pela figura bíblica do demônio, e, assim, tornar-se um novo homem, Jesus.

Sob essa luz, as lutas dos anacoretas querem apresentar plasticamente uma verdade evangélica: a atuação das promessas batismais, a escolha pessoal de Deus. Com certeza, somente pessoas psiquicamente sãs podiam enfrentar uma ascese assim tão austera como a dos anacoretas e não foram raros os casos dos que não resistiram ou enlouqueceram, mudando por iluminações divinas ou por diabólicas tentações as próprias fantasias.

Não era o caso de Antão. De fato, depois de muitos anos de vida escondida, alguns monges descobriram o seu esconderijo: “Então, pela primeira vez, foi visto fora da fortaleza pelos que foram até ele. Ficaram maravilhados ao constatar que as suas condições físicas eram sempre as mesmas, nem gordo pela falta de movimento, nem magro pelos jejuns e pelas lutas com os demônios: estava da mesma forma que o tinham visto antes de se enclausurar no seu retiro. Espiritualmente puro, ele não estava nem oprimido pela dor nem enlevado pelo prazer; nele não havia riso nem tristeza; a multidão não o perturbava, muitas pessoas o saudavam e isso não lhe dava alegria excessiva: sempre igual a si mesmo, governando pela razão, segundo a natureza”.

Em 307, o monge Santo Hilário foi visitá-lo e trocaram suas experiências sobre a vida eremítica. Em 311, Antão não hesitou em deixar o seu querido refúgio e ir a Alexandria, onde crescia a perseguição de Maximino, para encorajar os irmãos com a sua palavra e também na esperança de poder enfrentar o martírio.

Suas saídas para a vida pública se multiplicaram, mas sempre para servir à comunidade cristã, para apoiar Santo Atanásio contra os difamadores e para professar publicamente a sua fé católica. Ninguém deu um basta tão decisivo à heresia ariana como ele, com a sua simples presença ao lado do amigo Atanásio. Na defesa de seu bispo escreveu também uma carta a Constantino e, se o imperador não a levou a sério, entre os cristãos foi mais eficaz do que todos os decretos imperiais.

Antão, no dia 17 de janeiro de 356, atingia a meta de seu caminho, aquele que gerações de monges tanto no Oriente como no Ocidente tinham percorrido, ampliando-o e adaptando-o às exigências dos tempos, sem, porém, renunciar à genuína inspiração que tinha guiado o seu grande mestre. Deixava à Igreja sua sabedoria, resumida por seus discípulos em 120 sentenças e vinte cartas.

Aos seus, escreveu: “Pedi com coração sincero àquele grande Espírito de fogo que eu mesmo recebi, e vo-lo será dado” (Santo Antão, Carta 8).

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