Revista Ave Maria

Artigos da revista › 03/09/2018

São Vicente de Paulo

SACERDOTE, FUNDADOR DOS LAZARISTAS
(1581-1660)

Vicente nasceu no dia 24 de abril do ano de 1581, perto de Pouy, na Gasconha, de uma família de pobres camponeses. Embora dotado de uma grande inteligência, até os 15 anos não fez outra coisa senão conduzir à pastagem as poucas ovelhas e os poucos porquinhos da família para ajudá-la a ir levando a vida.

Um advogado da região de Dax, impressionado com o talento do jovem, falou com seus pais, dizendo-lhes que era um pecado não fazê-lo estudar e ofereceu-se para pagar-lhe as despesas. Isso foi uma providência inesperada e uma grande esperança para o futuro da família. Vicente, por sua vez, não esperava outra coisa e lançou-se sobre os livros com todo o empenho.

Naqueles tempos e naquela região, estudar significava encaminhar-se para a carreira eclesiástica, na esperança de agarrar-se o mais rápido possível a uma boa renda.

Vicente estudou durante três anos no colégio dos padres franciscanos de Dax; depois, tornou-se clérigo e, com a ajuda de seu patrono e com a venda de um par de bois da parte do pai, inscreveu-se na universidade de Toulouse.

Aos 19 anos, conseguiu fazer-se ordenar sacerdote pelo bispo de Périgueux e continuou os estudos até tornar-se bacharel em teologia. Esperava obter um bom ganho tornando-se pároco, mas, não o conseguiu. No entretempo, perdeu o pai e, para ajudar a família, abriu uma escola particular sem grande sucesso; ao contrário, sobrecarregou-se de dívidas. Nesse período, inseriu-se a seguinte história, por ele mesmo narrada: enquanto viajava de Marselha a Narbonne foi aprisionado por piratas turcos e vendido como escravo em Túnis, tornando-se servo de um frade que, por amor ao dinheiro, fez-se muçulmano. Vicente o convenceu a voltar atrás e juntos fugiram em uma embarcação leve para a França. E tão logo conseguiu o cargo de pároco na capital.

Anos depois, aos 31 anos de idade e impressionado com a vida de oração de alguns de seus paroquianos, deixou de lado as preocupações materiais e de carreira e começou a ensinar o Catecismo, a visitar os doentes e a ajudar os pobres. O contato com a vida real reabriu-lhe o coração à oração e à meditação da palavra de Deus. Se os paroquianos foram seus primeiros mestres com sua vida, o instrumento de que a providência se serviu para operar nele uma profunda transformação foi Pedro de Bérulle, que, acolhendo-o em seu oratório, formou-o em uma profunda espiritualidade.

Estava dando os primeiros passos nessa nova vida quando de Bérulle o aconselhou a aceitar o encargo de preceptor junto à família de Filipe Emanuel dei Gondi, general das galeras régias. Vicente aceitou e foram quatro anos difíceis, tendo de lutar duramente para perseverar em uma escolha de vida verdadeiramente evangélica. Abriam-se diante dele dois caminhos: o da carreira, com a possibilidade de ganhar dinheiro e fazer seu pé-de-meia, e a do serviço aos pobres, com uma vida cada vez mais semelhante à do Mestre.

Vivendo no castelo de seus senhores foi-lhe possível verificar com os próprios olhos que havia na França dois estilos de vida: o dos ricos, que gozavam neste mundo dos bens da terra e esperavam gozar no outro os bens celestes, e o dos pobres, que, depois de uma vida infeliz neste vale de lágrimas, imaginavam encontrar interceptada também a porta do céu, devido à sua ignorância e aos vícios em que muitas vezes a miséria os afundava.

A senhora Gondi também compartilhava as preocupações do seu capelão e ofereceu uma soma de dinheiro àqueles religiosos que, a cada cinco anos, quisessem pregar uma missão às massas camponesas de suas terras. Ninguém se apresentou e Vicente, assustado com uma tarefa tão desmedida, abandonou o castelo sem tampouco avisar os patrões.

Os oratorianos de Bérulle, que alimentavam uma grande confiança nesse padre inquieto, ofereceram-lhe a possibilidade de exercer o seu ministério em uma nova paróquia do campo em Chatillon-le-Dombez. Aí começou a revelar-se o carisma vicentino. Ele próprio gostava de contar esse humilde começo: “Certo domingo, enquanto me vestia para celebrar a Missa, vieram me dizer que em uma casa isolada das outras, a um quarto de légua de lá, estavam todos doentes e em estado de necessidade indescritível. Fui com isso dolorosamente atingido e na pregação não deixei de recomendá-los com afeto… Depois das vésperas, tomei comigo um bom homem, burguês da cidade, e nos pusemos juntos a caminho para ir lá. Pela estrada, encontramos mulheres que nos ultrapassavam, outras que voltavam atrás… Havia tantas que me faziam pensar em uma procissão”.

Vicente fez então esta consideração: “Hoje estes pobrezinhos terão mais que o necessário; dentro de alguns dias, estarão novamente em necessidade!”. O que fazer? “Eu propus”, continua o santo, “a todas aquelas boas pessoas que a caridade havia inspirado, que cada qual se encarregasse de um dia, para trabalhar pela vida também de quem isso viesse acontecer depois”.

A caridade organizada! Caridade, porque tudo deve partir do amor que faz ver em todo pobre a presença viva de Jesus; organizada, porque os cristãos são tais somente quando se moverem conscientes de formar um só corpo, como na primeira comunidade de Jerusalém, dando-se conta de que, para alcançar o escopo, não era preciso nem mesmo ser ricos, bastava ser frequentemente solidários. Seu apelo foi imediatamente acolhido e surgiu o primeiro grupo de pessoas dispostas a servir os necessitados. Ele as chamou “Caridade” e deu às associadas o nome de “servas dos pobres” . Em três meses, a instituição possuía um regulamento próprio, aprovado pelo bispo, mas, acima de tudo, produzia seus frutos.

A senhora Gondi não se conformava com o fato de haver perdido seu capelão e conseguiu fazê-lo retornar às suas terras. Vicente aceitou, com uma condição: de poder morar não no castelo, mas no campo, e dedicar-se ao cuidado espiritual e material dos camponeses. As condições foram imediatamente aceitas e ele começou a fundar as caridades em todas as aldeias, agregando a elas não somente mulheres, mas também homens. Era seu desejo que umas e outros trabalhassem juntos, mas, devido à mentalidade do tempo, não foi possível e somente as caridades das mulheres permaneceram em ação.

Mais tarde, em 1833, sua ideia será absorvida por Emanuel Bailly, em Paris, que, juntamente com Frederico Ozanam, fará florescer as “Conferências de São Vicente de Paulo”.

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