Neste mês, o Senhor nos chama a mergulhar na profundidade de nossa fé, marcando não apenas a transição do Tempo Comum para a Quaresma, mas também um convite a reavaliar os fundamentos de nossa vida cristã. A liturgia deste mês, por exemplo, oferece a nós um roteiro espiritual riquíssimo, que nos desafia a olhar para dentro e a transformar nossa relação com Deus e com o próximo, preparando-nos para a grande celebração da Páscoa.
O quarto domingo do Tempo Comum ressoa com as bem-aventuranças de Mateus, a “carta magna” do Reino dos Céus. Jesus nos apresenta um caminho paradoxal para a felicidade: ela reside na pobreza de espírito, na mansidão, na fome e sede de justiça, na misericórdia, na pureza de coração e na busca pela paz. É um chamado à humildade, como nos lembra o profeta Sofonias, no qual Deus escolhe os “humildes da Terra” para confundir os sábios e os fortes, conforme São Paulo exorta aos coríntios. Esse reino não se constrói com poder ou sabedoria mundana, mas com um coração que confia plenamente na providência divina e se compromete com a justiça e a solidariedade, reconhecendo nos desprezados do mundo a base para a sua edificação.
Ao longo das semanas, a liturgia nos adverte contra a superficialidade. Jesus, em diversos momentos, confronta os fariseus e escribas que valorizavam mais a letra da lei e as tradições externas do que a verdadeira pureza de coração. Marcos é categórico: “Não é o que entra pela boca que mancha o homem, mas o que sai do homem, isso é que o mancha” (7,14-23). Maus pensamentos, devassidões, roubos: tudo brota do interior. Esse é um convite a uma fé autêntica, que não se contenta com ritos vazios, mas busca uma conversão profunda, na qual a oração e a caridade são manifestações sinceras de um coração transformado e não meras encenações para ser vistas pelos outros. É um apelo à coerência entre o que professamos e o que vivemos, entre os lábios que louvam e o coração que age.
A fé, quando genuína, move montanhas e se manifesta em ações concretas. Vemos a fé inabalável de Jairo e da mulher hemorrágica, a persistência da mulher siro-fenícia, que arrancou de Jesus um milagre além das fronteiras. Jesus, o “sal da Terra e a luz do mundo”, ensina a nós que o verdadeiro jejum é repartir o alimento com o faminto, abrigar o desabrigado e vestir o maltrapilho, como nos exorta Isaías. É na compaixão pelas multidões, como o pastor que cuida de suas ovelhas, que encontramos o cerne do Evangelho. Servir ao próximo, especialmente aos “pequeninos”, é servir ao próprio Cristo, como nos recorda São Mateus, que nos convida a ver a presença misteriosa de Jesus em cada irmão necessitado.
Com a Quaresma, que se inicia com as Cinzas, somos chamados à renovação interior. É tempo de “limpar nosso interior”, de nos desapegarmos das “lembranças difíceis” e dos erros passados, entregando-os ao Pai. Jesus nos mostra o caminho para vencer as tentações – a busca desenfreada por bens materiais, a exigência de sinais para crer, a sede de poder – por meio de sua própria experiência no deserto. É a oportunidade de aperfeiçoar a lei, não a abolindo, mas vivendo-a em sua plenitude: amando nossos inimigos, buscando a reconciliação e sendo perfeitos como o Pai celeste é perfeito. A oração do Pai-Nosso nos ensina a simplicidade e a profundidade de uma comunicação sincera com Deus, que conhece nossas necessidades antes mesmo de as expressarmos.
Que este início de 2026 seja um tempo de graça, em que a Palavra de Deus nos inspire a viver uma fé mais autêntica, humilde e comprometida. Que possamos, como discípulos de Jesus, ser sal que dá sabor e luz que ilumina, transformando o mundo ao nosso redor com a força do amor e da misericórdia. Que o caminho quaresmal nos conduza a uma Páscoa de verdadeira renovação e alegria no Senhor, celebrando a passagem da morte para a vida, do pecado para a graça.
NOTAS MARIANAS
Sinal da cruz
Fazemos o sinal da cruz para lembrar que fomos salvos pela cruz de Cristo (cf. 1Jo 3,5; 4,10) e batizados em nome do Deus Trino: Pai, Filho e Espírito Santo (cf. Mt 28,19). É uma prática muita antiga da Igreja, pois já no século II Tertuliano (160-220 d.C.) recomendava: “Quando nos pomos a caminhar, quando saímos e entramos, quando nos vestimos, quando nos lavamos, quando iniciamos as refeições, quando vamos nos deitar, quando nos sentamos, nessas ocasiões e em todas as nossas demais atividades, persignamo-nos a testa com o sinal da cruz”.