A Constituição pastoral Gaudium et spes, promulgada pelo Concílio Vaticano II em 7 de dezembro de 1965, ocupa um lugar singular no ensinamento conciliar por abordar diretamente a relação da Igreja com o mundo contemporâneo. Mais de sessenta anos depois, o Papa Leão XIV iniciou, em setembro de 2026, um ciclo de catequeses dedicado a esse documento, procurando mostrar sua atualidade diante das profundas transformações culturais, sociais e tecnológicas do nosso tempo. Vamos considerar as catequeses apresentadas nos dias 2, 9 e 16 de setembro de 2026.
Na primeira catequese, de 2 de setembro, Leão XIV destaca que a Constituição Gaudium et spes não propõe uma simples adaptação da Igreja às transformações históricas, nem um otimismo ingênuo diante do progresso humano; trata-se, antes, de uma atitude de escuta, discernimento e serviço, fundamentada no mistério de Cristo. A Igreja deve fazer suas “as alegrias e as esperanças, as tristezas e as angústias dos homens de hoje” (Constituição pastoral Gaudium et spes, 1), especialmente dos pobres e sofredores.
Leão XIV relaciona essa atitude com a necessidade de interpretar os sinais dos tempos à luz do Evangelho (cf. Constituição pastoral Gaudium et spes, 4). A Igreja não pode permanecer indiferente diante da história, das mudanças culturais, dos avanços tecnológicos, das injustiças ou das novas questões que atingem a humanidade. A sua missão consiste em acolher as perguntas mais profundas do ser humano e apresentar Cristo como “a chave, o centro e o fim de toda a história humana” (Constituição pastoral Gaudium et spes, 10).
Na segunda catequese, de 9 de setembro, Leão XIV concentra sua atenção sobre a dignidade da pessoa humana, retomando especialmente a Constituição Gaudium et spes (12-22). Para o Papa, a dignidade humana constitui um dos fundamentos dos valores mais apreciados pelo mundo contemporâneo, mas ela não pode ser separada de sua fonte divina. A dignidade não resulta simplesmente de um consenso social ou jurídico, pertence ao próprio ser da pessoa humana, criada à imagem de Deus.
Nesse contexto, Leão XIV retoma uma das afirmações antropológicas mais importantes da Constituição Gaudium et spes: “Cristo, novo Adão, na própria revelação do mistério do Pai e do seu amor, revela o homem a si mesmo” (22). Cristo não é apresentado apenas como resposta a uma questão religiosa particular, mas como aquele que revela o sentido último da existência humana.
O Papa chama, ainda, a atenção para a unidade da pessoa humana, constituída de corpo e alma. Inteligência, consciência e liberdade são dimensões fundamentais da pessoa, mas não podem ser compreendidas de maneira isolada. A dignidade humana deve ser defendida integralmente. Consequentemente, qualquer tentativa de reduzir a pessoa a uma dimensão puramente biológica, econômica, tecnológica ou funcional contradiz a visão antropológica apresentada pelo Concílio.
A terceira catequese, de 16 de setembro, trata da “comunidade humana”, com base na Constituição Gaudium et spes (23-32). Aí aparece uma consequência importante da dignidade pessoal: o ser humano não existe como indivíduo isolado, mas como pessoa chamada à relação e à comunhão. O Concílio Vaticano II observa que uma das características fundamentais do mundo moderno é a multiplicação das relações entre os seres humanos (cf. Constituição pastoral Gaudium et spes, 23). Leão XIV considera essa questão especialmente atual em uma sociedade marcada pela tecnologia digital, pelas redes sociais e pelo desenvolvimento da inteligência artificial.
O Papa identifica, nesse desenvolvimento, uma ambivalência: por um lado, as tecnologias diminuem distâncias, facilitam a comunicação e criam novas possibilidades de colaboração; por outro, podem favorecer relações cada vez mais virtuais e menos pessoais.
Leão XIV manifesta preocupação com o risco de o ser humano habituar-se a delegar aos algoritmos decisões que pertencem à consciência humana. A observação é particularmente significativa porque mostra como a Constituição Gaudium et spes pode ser aplicada a uma realidade que nem sequer existia quando o documento foi promulgado.
Em síntese, essas catequeses de Leão XIV mostram que a atualidade da Constituição pastoral Gaudium et spes está precisamente em sua capacidade de articular Cristo, pessoa humana e sociedade. A Igreja não deve fugir do mundo nem simplesmente conformar-se a ele. Deve escutá-lo, discernir os “sinais dos tempos” e servi-lo à luz do Evangelho.