A VIDA EM COMUNIDADE (CF. MT 18,1-35)

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O capítulo 18 de Mateus projeta luz nos relacionamentos da vida em comunidade. Nela, não existe quem é maior ou menor, superior e inferior. O caminho a percorrer é o de tornar-se pequenino como a criança (cf. vv. 1-4), de evitar o escândalo que causa muito dano (cf. vv. 5-11), da busca de quem tenha se distanciado (cf. vv. 12-14), a correção fraterna (cf. vv. 15-18), a oração em comum (cf. vv. 19-20), o perdão, cuja fonte é o amor divino (cf. vv. 21-35).

O amor que Jesus viveu e ensinou fundamenta e orienta todas as relações. Onde há justiça e amor, aí está Jesus: “Porque onde dois ou três estão reunidos em meu nome, aí estou eu no meio deles” (Mt 18,20). Para a superação de possíveis conflitos, os membros são chamados a se questionar e a responder à luz dos ensinamentos de Jesus.

A comunidade era formada por judeus cristãos, ou seja, cristãos oriundos do judaísmo que reconheciam e professavam Jesus como o Messias (estes são a maioria), e por pessoas não judias, denominadas “gentios” (em menor número).

Um dado histórico é que, após a destruição do templo no cerco e ataque do exército romano a Jerusalém, no ano 70, os diversos grupos existentes no judaísmo desaparecem. Toma corpo o grupo dos fariseus. Estes são rigorosos na observância da lei do puro e impuro e das tradições judaicas. A maioria das pessoas, sem estudo e devido às condições de sobrevivência, não conseguia seguir estritamente a observância das leis, por isso eram consideradas impuras.

A comunidade cristã seguia sendo oprimida tanto pelo império romano quanto pelas autoridades religiosas. Além desses conflitos externos, a comunidade tinha os internos, que surgiram em decorrência da intromissão dos judaizantes, que queriam obrigar todos a observar a lei judaica. Há registro desse tipo de situação na Carta aos Gálatas em episódio entre Pedro e Paulo: “Quando, porém, Cefas veio a Antioquia, resisti-lhe francamente, porque era censurável. Pois, antes de chegarem alguns homens da parte de Tiago, ele comia com os pagãos convertidos. Mas, quando aqueles vieram, retraiu-se e separou-se destes, temendo os circuncidados. Os demais judeus convertidos seguiram-lhe a atitude equívoca, de maneira que mesmo Barnabé foi levado por eles a essa dissimulação” (Gl 2,11-13). A imposição da circuncisão aos gentios convertidos era outro ponto de conflito.

Para a superação, as palavras de Jesus são fundamentais e fazem todo sentido: “Deste modo sereis os filhos de vosso Pai do Céu, pois Ele faz nascer o sol tanto sobre os maus como sobre os bons, e faz chover sobre os justos e sobre os injustos” (Mt 5,45). A prática de Jesus é amor indiscriminado e misericórdia. Assim, seguindo o Mestre e Senhor, os membros tiveram que aprender a fazer dos conflitos oportunidade para fortalecerem ainda mais os laços de amor e fraternidade. É uma grande luz para o caminhar cristão hoje e sempre.

Na convivência, surge o questionamento: qual o limite do perdão? Não há: “Não te digo até sete, mas até setenta e sete vezes” (Mt 18,22). Sustentado pelo amor divino, que é pleno, e para os relacionamentos se robustecerem, o perdão é fundamental. Perdoar é uma graça. Diz a Palavra: “Onde abundou o pecado, superabundou a graça” (Rm 5,20). A comunidade é o lugar onde Jesus ama e perdoa sem limites a todos.

As comunidades cristãs têm dificuldades, é verdade. Para sobreviver, os membros devem fortalecer a comunhão e a unidade. A correção fraterna fortalece os vínculos. As situações, em vez de levarem a rupturas, podem tornar-se grandes oportunidades de fazer soar vigorosas as palavras e ensinamentos de Jesus de Nazaré. Para tanto é fundamental a abertura de cada pessoa para que a presença de Jesus seja a do Ressuscitado. Ele vive entre os seus: “Eis que estou convosco todos os dias” (Mt 28,20). Na pessoa de Jesus, Deus está conosco.

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