Revista Ave Maria

Artigos da revista › 02/12/2019

Santa Luzia

13 DE DEZEMBRO
VIRGEM E MÁRTIR
(† 304)

“Dirijo-me a ti, que vens do povo, da gente comum, mas pertences à fileira das virgens. Em ti o esplendor da alma se irradia sobre a graça exterior da pessoa. Por isso és uma imagem fiel da Igreja.”

O grande bispo de Milão exprimia com essas palavras o conceito altíssimo que a comunidade cristã tinha, desde os primeiros séculos, a respeito das virgens: elas representavam a beleza e a fecundidade da Igreja. Era, pois, normal voltar a reviver a memória das jovens que, durante as perseguições, tinham dado um duplo testemunho: o da virgindade e o do martírio. Algumas delas eram tão famosas a ponto de serem recordadas durante a celebração eucarística juntamente com os apóstolos e os mártires.

Naturalmente, a comemoração litúrgica dessas jovens heroicas não comportava necessariamente uma reconstrução da sua vida e do seu martírio segundo nossos critérios historiográficos modernos; a comunidade cristã queria, antes de tudo, admirar a virtude heroica com que meninas cristãs tinham sabido desafiar e vencer o poder ultracorrupto do seu ambiente.

A famosa passio, a narrativa do martírio, frequentemente uma verdadeira obra de arte literária, aproxima-se do nosso romance histórico, em que o autor, servindo-se da liberdade permitida por esse gênero literário, embeleza a verdade histórica com elementos que a tornam mais atraente e bem inserida no contexto da época.

FALAM DE LUZIA

De Luzia sabemos com certeza que viveu em Siracusa e que foi martirizada aproximadamente em 304, durante a famosa perseguição de Diocleciano. Esses dados foram confirmados por recentes escavações que descobriram uma catacumba a ela dedicada e o lóculo onde tinha sido depositado o seu corpo. No mais, precisamos contentar-nos com a sua passio escrita no século V ou VI.

Luzia pertencia a uma abastada família de Siracusa, na Sicília. Vivia com a mãe porque, quando tinha 7 anos de idade, perdeu o pai. Ambas eram cristãs e Luzia se havia consagrado a Cristo como virgem, mesmo que, quando ainda pequenina, seu pai a havia prometido como esposa a um rico concidadão, segundo o costume do tempo.

Não obstante a perseguição, os cristãos da cidade de Catânia celebravam todo ano, com a chegada de muita gente, a festa de Santa Ágata, a virgem cataniense martirizada próximo do ano 250.

Luzia foi em peregrinação a Catânia com a mãe e juntas fizeram parte na comemoração durante a qual o diácono leu o Evangelho da hemorroíssa. Pura coincidência ou um sinal do céu? A mãe, de fato, sofria desse mesmo mal fazia anos e já sem esperança de cura.

Luzia se dirigiu à mãe: “Mãe, tu deves acreditar em tudo o que foi lido. Ágata padeceu por Cristo e agora reina com ele no Céu. Toca com fé o seu túmulo e serás curada”.

Esperaram que a multidão se retirasse e juntas dirigiram-se ao túmulo da mártir para implorar a cura. Luzia, vencida pelo cansaço, adormeceu e viu em sonho a virgem Ágata circundada pelos anjos e adornada de pérolas, que lhe disse: “Luzia, minha irmã, por que pedes a mim aquilo que tu mesma obtiveste? Eis que, pela tua fé, a tua mãe está curada”. Depois, com grande maravilha de Luzia, acrescentou: “Como Cristo glorificou por meio de mim a cidade de Catânia, assim glorificará por meio de ti a cidade de Siracusa, porque com a tua virgindade preparaste uma agradabilíssima morada para Deus”.

Ao acordar, apercebeu-se de que com a mãe acontecera o milagre e então lhe disse: “Agora que estás curada, eu te suplico em nome daquele que te obteve a saúde que não me constrinjas a casar-me com um homem, mas coloca à minha disposição os bens que preparaste para o meu casamento”. A mãe lhe fez notar: “Desde os 9 anos não só conservei, mas também acrescentei quanto teu pai te deixou. Fecha-me primeiro os olhos e depois poderás fazer dos teus bens o que quiseres”. E Luzia: “É muito pouco dar a Deus aquilo que não se pode levar consigo para o outro mundo”. A mãe consentiu e assim que voltaram para Siracusa começaram a distribuir os seus bens aos pobres, segundo as indicações da comunidade cristã da sua cidade.

Soube disso o noivo que lhe fora prometido, que não era cristão, e fez suas demonstrações na tentativa de não perder nem a futura esposa nem as muitas riquezas dela. Não tendo, porém, conseguido dobrar a vontade das duas mulheres, recorreu ao prefeito da cidade, Pascásio, fazendo-lhe notar que a sua Luzia estava desperdiçando o patrimônio que devia levar-lhe em dote. Também isso foi inútil. Fez então a última tentativa: acusou Luzia de ser cristã e iniciou o processo.

NARRATIVA E CATEQUESE

O prefeito ordenou a Luzia que sacrificasse aos deuses segundo a lei imperial. Aqui a passio traz o diálogo entre os dois, que é uma belíssima catequese:

Luzia: “O sacrifício verdadeiro e puro diante de Deus é aquele de visitar os órfãos e as viúvas. De três anos para cá não tenho feito outra coisa. Agora, sacrificarei ao Deus vivo também a mim mesma como hóstia viva”.

O prefeito ordenou que fosse levada para o lupanar para que quem quisesse pudesse abusar do seu corpo. Ninguém, porém, conseguiu arrastá-la, porque uma força misteriosa a tornou inamovível. Acenderam ao seu redor uma fogueira, mas as chamas não a lamberam. Pascásio atribuiu tudo isso a poderes de feitiçaria e mandou apunhalá-la no pescoço.

A sua ordem mal tinha sido cumprida e à comunidade cristã presente ao processo foi permitido apertar-se ao redor da virgem agonizante quando um grupo de guardas aprisionava Pascásio, réu por ter usado sua autoridade para se apropriar dos bens do povo siracusano. Transferido para Roma ele foi condenado à decapitação.

Para Luzia moribunda o bispo pôde dar os últimos sacramentos, enquanto a comunidade respondia o “amém” e a celebração do processo se concluía assim na celebração litúrgica.

Bem cedo, o culto à virgem atravessou os confins da Sicília e se difundiu em todo o Ocidente. São Gregório Magno, em uma de suas cartas, fala de dois mosteiros em homenagem a Santa Luzia, um em Roma e outro em Siracusa.

Pelo seu nome, que recorda a luz, tornou-se protetora da vista e, por ter distribuído os seus bens aos pobres, em vários lugares sua festa é acompanhada pelo uso de dar presentes às crianças.

Deixe o seu comentário





* campos obrigatórios.