23 DE ABRIL
(936-987)
“Eu me chamo Adalberto, sou da Boêmia por nascimento, monge por vocação, bispo por sagração e agora vosso apóstolo por missão. O motivo pelo qual estou aqui entre vós é para vossa salvação, a fim de que possais abandonar as estátuas surdas e mudas e conhecer o vosso Criador, o único e verdadeiro Deus; e crendo nele tenhais a vida e obtenhais o prêmio das alegrias celestes nas moradas eternas.” (Acta Sanctorum, abril, III, pp. 186-187)
Assim respondeu Adalberto aos pagãos que, em Tenkitten, na terra da Prússia entre o Noget e o Vístula, haviam-no aprisionado juntamente com seu irmão Gaudêncio e outro monge. À pergunta dos pagãos a respeito da viagem deles, a Liturgia das Horas coloca em sua boca as seguintes palavras: “Era nosso ardente desejo dar-vos não somente o Evangelho, mas também a nossa própria vida, pois, para nós, vós sois caríssimos”.
Nasceu por volta de 956 de um príncipe da Boêmia, da nobre família dos Slavnik e de mãe alemã, Adilburga, parente do rei Henrique I. Recebeu o nome de Vojciech, que significa “socorro da força armada”, e foi destinado à vida militar, mas ainda jovem ficou muito doente, à beira da morte, e os pais fizeram uma promessa de entregá-lo a Deus se ele recuperasse a saúde.
Para cumprir a promessa e encaminhá-lo à vida eclesiástica, no ano de 972 enviaram-no para a famosa escola capitular, em Magdeburgo, colocando-o sob a proteção de Adalberto, o santo bispo daquela cidade.
Vojciech era um rapaz muito inteligente e de belo aspecto, amante dos estudos e da vida ascética. Via na promessa dos pais uma manifestação da vontade de Deus e uma particular predileção da mãe de Jesus: escolhido pelo Senhor desde a sua infância para tão nobre missão, desejava corresponder-lhe com todo o zelo. O bispo, por sua vez, via em Vojciech um futuro apóstolo para evangelizar a Boêmia. O jovem correspondeu às expectativas de seu protetor e quando recebeu o Sacramento da Crisma quis mudar o nome; daí em diante, passou a ser chamado de Adalberto.
No ano de 981, retornou à sua cidade natal e naquele mesmo ano Dithmaro, primeiro bispo de Praga, ordenou-o sacerdote. A vida exemplar e a preparação intelectual, a linhagem nobre, tudo isso indicava que ele se tornaria seu sucessor.
Assim aconteceu em 982. Ao morrer o bispo, o príncipe Boleslau II, o clero e o povo de Praga o escolheram como pastor. O imperador Óton II provou a escolha e o metropolita o consagrou na ordem episcopal no dia 29 de junho de 983 em sua sede de Magonza.
A grandiosa festa de acolhida em Praga logo contrastou com o estilo de vida do eleito. Entrou na cidade descalço e em seguida propôs que o Evangelho não fosse proclamado como um rito mágico nas festas, mas como norma de vida cotidiana. Ao clero, recomendou a castidade; aos governantes, a justiça; e ao povo, o abandono das práticas das superstições pagãs. Não demorou muito para que Adalberto percebesse que não era fácil evangelizar o seu povo. Depois de seis anos de muito trabalho, não conseguindo extirpar a poligamia, o comércio dos escravos e a bruxaria, e não se conformando com as intrigas entre as famílias nobres e a desobediência do clero, sentiu-se incapaz de exercer o seu ministério de pastor e no ano de 988 resolveu ir a Roma.
Expôs ao Papa João XV suas dificuldades, depositou em suas mãos seu cargo de bispo e obteve a permissão de se retirar para a vida monástica. Antes de entrar em um mosteiro, fez uma peregrinação até a Terra Santa; antes, porém, parou em Montecassino e em seguida foi para o cenóbio de vale das Luzes, onde encontrou o famoso abade São Nilo. Encantado com a vida daqueles monges do rito oriental, Adalberto pediu para ser lá admitido, “Mas o abade Nilo percebeu no seu semblante, mesmo antes das primeiras palavras, o grande merecimento que ele possuía diante de Deus. Tanto que foi dizendo jamais ter visto um jovem assim, com tão grande amor por Jesus Cristo. E lhe disse: ‘Caríssimo filho, eu te receberei com muito prazer, pois tua admissão não trouxe nenhum prejuízo nem para mim nem para os meus e servirá para ti de rejuvenescimento’”.
Nilo pertencia ao rito grego e com os seus monges tinha fugido da Calábria para se livrar das pilhagens dos árabes da Sicília e foi recebido pelos monges de Montecassino, que lhe entregaram o convento do Valleluce perto de Cassino. Naquela época não era permitido receber na ordem um bispo latino. Então, escreveu uma carta e aconselhou Adalberto a abandonar a ideia da peregrinação aos lugares santos e, quanto antes, retornar a Roma para se apresentar ao abade do convento de Santo Aleixo. Lá encontraria o mesmo estilo de vida monástica, mas sob a proteção direta do Papa e ninguém teria coragem de criticá-lo.
Santo Aleixo sobre o Aventino era um dos conventos cedidos pelo Papa Bento VII ao metropolita Sérgio de Damasco, que tinha fugido da Síria para não cair nas mãos dos maometanos. Ele havia renovado a vida monástica com a intenção de acolher os monges que vinham em peregrinação a Roma. Por isso é que entre eles moravam monges gregos e latinos e ele era muito estimado pelos orientais e pelos ocidentais. Adalberto aceitou o conselho de São Nilo e passou a fazer parte daquele convento. Lá se uniu também a ele seu irmão Gaudêncio e para os dois se iniciou o período mais bonito de suas vidas, em abril de 990.
A paz monástica para eles não durou muito tempo. Em Praga, as coisas andavam muito mal e a evangelização daquele povo corria graves riscos, não encontrando um bispo à altura daquela missão. O arcebispo de Magonza, depois dos oportunos contatos com os nobres e o povo de Praga, pediu ao Papa que enviasse novamente Adalberto. Ele lhe fez ver que seu retorno seria perfeitamente inútil se os habitantes não estivessem dispostos a viver como cristãos. Como a presença de um bispo na cidade representava não só a evangelização, mas também a promoção humana, sobretudo por meio da escola e da instrução para os filhos dos nobres, prometeram juntamente com o povo que obedeceriam ao seu pastor.
Após essa resposta e em obediência ao Papa e ao abade, Adalberto retornou à sua terra. Dessa vez, tinha um plano diferente. Estava convencido de que a evangelização poderia ter sucesso só se os evangelizadores não trabalhassem sozinhos, mas em comunidade, e fossem portadores do carisma monástico. Para que a fé se enraizasse nos povos eslavos ou germânicos, não bastava lhes anunciar as verdades cristãs, era preciso apresentar um estilo de vida mais nobre e mais atraente do que aquele que eles tinham vivido até aquele momento.
Adalberto partiu de Roma com um grupo de doze monges, inclusive seu irmão Gaudêncio. Chegando à sua pátria fundou a abadia de Brevnov, que em seguida se tornou o centro propulsor da cultura e da evangelização do mundo eslavo.
O zelo do santo bispo não se limitou somente a Praga, mas estendeu-se também à Hungria, onde ele administrou o Sacramento da Crisma ao futuro rei Santo Estêvão e colaborou para que se casasse com uma princesa cristã, Gisela, irmã de Henrique II, também reconhecida como santa.
Enquanto isso, na sua terra estourava uma luta sangrenta entre duas famílias: a dos Slavnik, seus parentes, e a dos Premislidi. Sua intervenção foi inútil para restabelecer a paz; pelo contrário, piorou ainda mais a situação, pois foi acusado de favorecer sua família. Adalberto, não querendo se envolver nessa guerra, novamente deixou Praga no ano de 996 e retornou para o convento em Roma.
O abade não só o acolheu, mas lhe confiou o encargo de prior, tão grande era a estima que ele possuía junto aos romanos. Nesse meio de tempo, Óton III estava em Roma para ser coroado imperador, conheceu Adalberto e ficou impressionado com sua cultura e santidade. Um homem de tal envergadura não podia permanecer escondido em um convento romano. Enquanto isso, o arcebispo de Magonza retornava novamente à função, pedindo ao Papa e ao imperador que enviasse Adalberto a Praga, pois ele era a única pessoa certa para aquela difícil missão.
O pobre monge teve de deixar Roma de novo e, acompanhado pelo imperador, dirigir-se para além dos Alpes. Durante a viagem ficou sabendo que não só os diocesanos não o desejavam, mas na verdade já tinham até assassinado alguns de seus parentes.
Depois de ter permanecido algum tempo junto de Óton III como seu conselheiro, aceitou o convite do príncipe Micislau para evangelizar a Polônia. Sua obra de evangelização na Polônia foi um sucesso e ele se dirigiu à Prússia Oriental, levando o Evangelho a Danzica.
Encontrava-se com os seus monges em Tenkitten quando eles foram presos pelos habitantes do local. Ele confortava assim os seus companheiros: “Irmãos, não vos entristeçais! Sabei que sofremos estas coisas por causa do nome do Senhor: sua virtude supera todas as virtudes, sua beleza a todas as belezas, seu poder é inenarrável e sua misericórdia, extraordinária. Então, o que há de mais interessante e mais bonito que entregar nossas vidas ao dulcíssimo Jesus?”.
Suas palavras provocaram a reação do chefe dos carcereiros, que lhe deu um golpe de lança. Adalberto ainda teve forças para pedir em oração que aquele povo pudesse descobrir o amor infinito de Deus. Era 23 de abril do ano de 997. Os dois companheiros do santo foram libertados depois de um custoso resgate. O príncipe polonês resgatou também o que restava do corpo do mártir e o sepultou na cidade de Gniezno. Dois anos depois, o Papa Silvestre II o proclamou santo e no ano 1000 seu amigo imperador, Óton III, elevou Gniezno a arcebispado.
Onde quer que tenha passado, Adalberto espalhou vários conventos e seus monges souberam levar adiante com sucesso sua obra evangelizadora.