É chegado um dos momentos mais representativos para o povo católico: a Semana Maior, tempo de celebração e, especialmente, de profunda reflexão. É o amor e a fé que geram esperança para novos tempos por meio da Semana Santa e do triunfo de Cristo sobre o pecado. Sobretudo: o amor. “O Tríduo Pascal é o centro da caminhada cristã. Neste mistério do Senhor está o sentido da nossa caminhada salvífica, a beleza da nossa fé e a razão da nossa esperança. Em linguagem simples, significa provar o amor. Aquele amor que, sem mérito algum de nossa parte, se revelou quando o Verbo assumiu nossa pequenez no ventre da Bem-Aventurada Virgem Maria e, no Natal, se mostrou ao mundo na figura dos pastores humildes. Na Semana Santa, culminamos esse projeto de amor eterno”, define Pe. Rodolfo Chagas Pinho, Assessor Nacional da Comissão Episcopal para a Vida e a Família da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB).
Padre Rodolfo ressalta ainda a importância da família nesse processo de catequese. “A família é o lugar onde os pais se tornam os primeiros mestres da fé para seus filhos. É uma tarefa ‘artesanal’”, reforça. Assim como afirma o Papa Francisco na Exortação Apostólica Amoris Laetitia (n. 16): “A Bíblia considera a família também como o local da catequese dos filhos. Vê-se isso claramente na descrição da celebração pascal (Ex 12,26-27; Dt 6,20-25) – mais tarde explicitado na haggadah judaica –, concretamente no diálogo que acompanha o rito da ceia pascal. Eis como um Salmo exalta o anúncio familiar da fé: ‘O que nós ouvimos, o que aprendemos, o que nossos pais nos contaram, não ocultaremos a seus filhos; mas vamos contar à geração seguinte as glórias do Senhor, o seu poder e os prodígios que operou. Ele estabeleceu uma regra em Jacó, pôs uma lei em Israel; ordenou a nossos pais que a ensinassem a seus filhos, para que tomasse conhecimento a geração seguinte, a dos filhos que vão nascer, que por sua vez dirão a seus filhos’ (Sl 78/77,3-6).
Para Padre Rodolfo, é essencial ainda que o anúncio, a mensagem maior e a propagação da Palavra ressoem de forma contínua. “É o fogo do Espírito que se dá sob a forma de línguas e nos faz crer em Jesus Cristo, que, com sua morte e ressurreição, nos revela e comunica a misericórdia infinita do Pai. Na boca do catequista, volta a ressoar sempre o primeiro anúncio: ‘Jesus Cristo ama você, deu a sua vida para te salvar e agora vive contigo todos os dias para te iluminar, fortalecer e libertar’.”
São justamente nesses dias centrais do mistério pascal de Cristo que a consumação da salvação se manifesta desde sua encarnação, quando o Filho inicia o caminho do amor. “O Senhor nosso Deus demonstrou seu amor infinito pela humanidade e ofereceu a todos a oportunidade de se reconciliar com Ele. Esses eventos são considerados os ‘dias centrais da fé’ porque revelam a essência do amor e da misericórdia de Deus, que é a doação total, sem esquecer que esse amor perpassa todo o mistério desde a encarnação, sua vida pública até chegar à consumação pascal. Além disso, a salvação da humanidade não é apenas um evento passado, mas também um processo contínuo que se desenrola na vida dos fiéis”, explica Pe. Rodolfo.
Por meio das celebrações do Tríduo Pascal, os católicos são convidados a se unir a Cristo em sua vitória sobre o pecado e a morte e a viver sua própria vida de acordo com os valores do Evangelho. “É urgente voltarmos ao Evangelho. Nossa fidelidade à Palavra nos fará crescer como discípulos, pois a missão da Igreja é, a partir de Jesus Cristo, levar todos a um encontro pessoal com Ele”, destaca.
Colocar-se novamente nos trilhos da esperança e da fraternidade para um retiro interior no período quaresmal é uma das formas de retomar a caminhada de fé e voltar o coração ao Senhor. A humanidade é convidada a transformar sua vida, deixando-se “cristificar” e assumindo de fato seu caráter batismal de renascer como nova criatura. “Isso se dá em um processo de inspiração catecumenal que todo ser humano deve percorrer, acompanhado de alguém já iniciado à vida cristã, que já experimentou o amor de Deus e agora o anuncia”, indica.
Uma outra possibilidade é a dedicação de um maior tempo às leituras e à oração. “Leitura orante da Palavra, vida sacramental e momentos de silêncio em meio a tantos barulhos da vida, para não nos deixarmos levar pela fé apenas como um código de ética, e sim pelo que de fato ela é: uma pessoa, Jesus Cristo”, explica o padre.
Para Padre Rodolfo, a ressurreição de Cristo ensina que somos a Igreja daquele que foi crucificado e agora vive, o Ressuscitado. Portanto, viver de acordo com tal identidade é a nossa missão. “Sigamos firmes e em comunidade, fortalecidos na fé, alegres na esperança e solícitos na caridade. Sejamos anunciadores de um Deus vivo, e não de estruturas que não convertem os corações. Em Cristo Jesus, somos integralmente humanos”, conclui.
A importância de iniciar a caminhada de fé desde a primeira infância é algo que se carrega até a vida adulta, como recorda Padre Jair Costa, da Comissão Episcopal para a Liturgia – Setor Música Litúrgica, da CNBB. Quando era um jovem seminarista, cursando o último ano do estágio pastoral, Pe. Jair ouviu uma simples explicação que define bem o significado do Tríduo Pascal. “Os três dias principais da Semana Santa, juntos, constituem a celebração da Páscoa: Quinta-feira Santa, a Páscoa da Ceia; Sexta-feira da Paixão, a Páscoa da Cruz; Sábado Santo, a Páscoa da Vida. Ao ligar o termo ‘Páscoa’ à sua raiz mais antiga (do hebraico pessach, passagem), amplia-se o conceito: Jesus passa pela Ceia, passa pela Cruz e, na Ressurreição, sua vida não passa mais, permanece para sempre!”, recorda.
E a música, por meio dos cantos específicos de cada uma dessas celebrações, evidencia essa dimensão de passagem. A seguir, Padre Jair reflete sobre a importância de celebrar cada passagem desses dias com os cantos correspondentes. Na Missa Vespertina da Ceia do Senhor, um dos cantos específicos é: “Jesus, erguendo-se da Ceia, jarro e bacia tomou. Lavou os pés dos discípulos, este exemplo nos deixou.” Retomar o Evangelho proclamado, cantando no momento ritual do lavapés, nos traz para dentro do mistério celebrado. Em cada irmã e irmão que ali tem seus pés lavados, estão os discípulos da última ceia. Estamos cada um de nós que ali celebra. Jesus nos lava os pés, nos dá o seu “novo mandamento”; deixa, ao partir, “nova lei: que vos ameis uns aos outros, assim como eu vos amei.” Sua Páscoa, na Ceia, é passagem pela doação da vida, simbolizada pelo gesto de lavar os pés, e pão e vinho entregues como seu Corpo e Sangue.
Na Sexta-feira da Paixão, na procissão de adoração da Cruz, temos outro dos mais belos cantos específicos desses dias, o hino “Fiel Madeiro”. O momento ritual em que esse canto é entoado é a adoração da cruz. Enquanto a comunidade se aproxima devotamente para seu gesto de adoração, o canto recorda as cenas bíblicas que evocam a Paixão e a Páscoa.
Rituais cantados. Assim, Padre Jair define os grandes momentos celebrados ao longo da Semana Santa e que marcam a passagem do Senhor e tudo o que Ele representa para os cristãos. “Que nesta celebração da Páscoa possamos contemplar, pelos cantos e ritos específicos, a passagem do Senhor em nossa vida pessoal, comunitária e social; e possamos refletir a luz da vida nova, da Ressurreição, em nossas atitudes e decisões”, celebra.