A espiritualidade mariana nos acompanha em todos os tempos do ano litúrgico. Naturalmente que em cada tempo há uma maneira de vivenciar a espiritualidade mariana e de sermos conduzidos por ela ao seu filho Jesus.
A espiritualidade quaresmal nos orienta a aprofundar o autoconhecimento e o crescimento espiritual, seja na oração, na penitência e na prática das boas obras; por outro lado, o jejum e a esmola são formas de viver o controle pessoal e a partilha dos bens. O verdadeiro jejum é aquele que se transforma em doação aos mais necessitados.
Podemos afirmar que a vida de Maria, a mãe de Jesus, foi toda ela uma verdadeira quaresma, no sentido de enfrentar situações de contínuo sofrimento e superação de si mesma. O Evangelho de Lucas relata o possível sofrimento de Maria quando diz “Por não haver lugar na pousada, o Menino Jesus foi reclinado numa manjedoura” (2,7). Não é difícil imaginar quanto Maria teria desejado que seu filho tivesse um leito digno para repousar. Hoje nós espiritualizamos e vemos nesse fato a opção do próprio Jesus em se identificar com os mais pobres, porém, a realidade significou incômodo e superação.
Os estudiosos atualmente afirmam que um grande sofrimento de Maria foi o fato de não ter compreendido a missão de seu filho Jesus, pois seu agir, da infância à vida adulta, fugia totalmente do que se poderia imaginar, seja de um adolescente, seja de um adulto da época.
O próprio fato da permanência de Jesus no templo (cf. Lc 2,41-52), às vezes interpretada como se Ele se tivesse perdido, na verdade foi consciente. A atitude de José e Maria revela incompreensão e, com certeza, provoca grande dor. No coração deles há um misto de incompreensão e mistério: como entender que uma criança tenha uma atitude de independência dessa proporção: “Por que me procuravam? Não sabiam que devo ocupar-me das coisas de meu Pai?” (Lc 2,49).
Um fato não é revelado pelas Escrituras, mas tem base histórica; ao chegar à idade adulta, Jesus deixou a família e adotou um estilo de vida de andarilho, juntando-se às pessoas muitas vezes sem boa fama; isso destoava totalmente do que se esperava de um filho na época: abandonar a casa e não continuar a profissão do pai eram atitudes que fugiam completamente da normalidade e devem ter causado em Maria um grande sofrimento e, até onde se pode compreender humanamente, podemos dizer que ela teve dificuldade em entender as escolhas de Jesus, tanto é que os evangelhos não relatam a presença de Maria com o grupo que normalmente o seguia.
Além disso, como entender um coração de mãe quando Jesus disse “Minha mãe e meus irmãos são os que ouvem a palavra de Deus e a praticam” (Lc 8,19-25)?
Espiritualmente, dizemos que Maria é a primeira discípula de Jesus, o que é uma realidade, porém, o que a Bíblia nos diz é que o aprendizado dela foi permeado pelo sofrimento ao longo de toda a sua vida e de forma constante. O sofrimento ainda maior de Maria foi a paixão e morte de Jesus. A situação somente mudaria na ressurreição.
Contemplando o sofrimento de Maria, entendemos as palavras de Jesus: “Quem quiser me seguir, renuncie a si mesmo, tome sua cruz e siga-me” (Lc 9,22-25). Sua mãe foi a primeira a vivenciar essa realidade. O que mais impressiona em Maria é sua fé e sua perseverança, jamais duvidando, em meio a todas as dificuldades e sofrimentos da vida.
Que ela seja inspiração para todos nós nesta Quaresma!