“Senhor, tu sabes todas as coisas e sabes que te amo.”
(Jo 21,17b)
“Recomece, se refaça,
relembre o que foi bom,
reconstrua cada sonho,
redescubra algum dom,
reaprenda quando errar,
rebole quando dançar
e se um dia, lá na frente,
a vida der uma ré,
recupere sua fé
e RECOMECE novamente.”
(Bráulio Bessa)
Janeiro abre o calendário com cheiro de novidade. Há algo de simbólico e profundamente humano nesse tempo em que o mundo parece suspirar depois da pressa de dezembro. O início do ano é sempre um convite ao recomeço, à reorganização da vida, ao desejo de fazer diferente. Guardamos o que passou, revisamos o que ficou, sonhamos o que virá. Nesse movimento de balanço e esperança, muitas vezes encontramos também nossas falhas, aquilo que gostaríamos de ter feito melhor. É justamente aí que o Evangelho nos alcança com delicadeza.
No capítulo 21 do Evangelho de João (21,15-19), Pedro reencontra Jesus depois de tê-lo negado. Aquele que havia prometido fidelidade total então carrega o peso da culpa e da vergonha. O encontro à beira do lago acontece após uma noite de pesca vazia. Pedro volta ao seu ofício antigo, talvez para tentar esquecer o erro, talvez porque não se sentisse mais digno de ser discípulo, mas o Cristo ressuscitado o procura e o chama pelo nome. Não lhe pergunta por que falhou, mas o convida a amar novamente: “Simão, filho de João, tu me amas?”. Essa pergunta se repete três vezes, como um eco de ternura que cura as feridas da alma. Jesus não finge que nada aconteceu, mas transforma o erro em possibilidade. Onde antes havia negação, agora há reconciliação. Pedro é reerguido pela força do amor e de sua fragilidade nasce uma missão renovada. O mesmo homem que caiu se torna pedra sobre a qual se ergue a Igreja. O Evangelho nos mostra, assim, que Deus não desiste de nós.
O início de 2026 pode ser também esse encontro à beira do lago. Muitos de nós chegamos até aqui com cicatrizes, arrependimentos, promessas não cumpridas. Às vezes nos sentimos como Pedro, tentando voltar a pescar o que ficou no passado, temendo não ser mais dignos de seguir adiante, mas Deus continua a nos procurar. Ele não espera perfeição, espera amor. Não quer que sejamos impecáveis, quer que sejamos inteiros.
Recomeçar é mais do que apagar o que passou, é permitir que o amor de Deus ressignifique o que vivemos. É olhar para as quedas não como fracassos, mas como lugares de aprendizado e humildade. O perdão divino não apenas nos absolve, ele nos devolve a nós mesmos. É isso que o Cristo faz com Pedro: transforma o arrependimento em missão, o medo em coragem, a vergonha em testemunho.
Que este janeiro seja, para cada um de nós, um tempo de reconciliação. Que saibamos sentar com o Senhor na beira de nossos próprios mares e ouvir sua voz nos chamando de novo. Que cada erro de 2025 se torne ponto de partida e não de fim e que, ao longo de 2026, tenhamos a coragem de amar de novo, servir de novo, recomeçar quantas vezes for preciso.
Senhor, tu que conheces meu coração, ajuda-me a recomeçar. Quando o peso da culpa quiser me paralisar, lembra-me que o teu olhar é ternura e não condenação. Que este novo ano seja espaço de reconciliação contigo e comigo mesmo. Que o teu amor me ensine a transformar quedas em caminhos e que, como Pedro, eu possa ouvir de novo o teu chamado: “Segue-me”. Amém.