“Das coisas daquela época, recordo melhor das recentes; poderei descrever o lugar no qual o bem-aventurado Policarpo se levantava para falar, como exortava e como discorria sobre os assuntos, o seu modo de viver, o aspecto da sua pessoa, os discursos que fazia diante do povo, como falava de seu relacionamento com João e com os outros que tinham visto o Senhor, dos quais relembrava as palavras ouvidas a respeito do Senhor, de seus milagres e da sua doutrina” (Carta de Irineu a Florino, em Eusébio, história eclesiástica, V, 20,5-6): esse testemunho de Irineu de Leão, discípulo de São Policarpo, bastaria por si só para delinear a figura de nosso santo como um homem apostólico, isto é, discípulo direto de João e dos outros apóstolos. A esse testemunho se ajunta também o de Santo Inácio de Antioquia que, depois de tê-lo encontrado em Esmirna enquanto viajava para Roma, escrevia-lhe de Troade: “Considero-me feliz de ter visto o teu rosto sincero e é disso que eu me alegro no Senhor”.
O DISCÍPULO DOS APÓSTOLOS
De fato, Policarpo foi profundamente marcado pelo encontro que teve com os apóstolos, sobretudo com João. As palavras deles ficaram impressas em seu coração como se ele tivesse ouvido com os próprios ouvidos as palavras de Jesus e tivesse acompanhado pessoalmente os acontecimentos de sua vida terrena.
Além daquela proximidade com os apóstolos, nada sabemos de sua infância e de sua juventude. Acredita-se que nasceu por volta do ano 75, em uma família cristã.
Segundo a tradição, confirmada por Irineu, Tertuliano e Jerônimo, foi feito bispo de Esmirna pelo próprio São João, em torno do ano 100. Santo Irineu diz que “Ele foi discípulo dos apóstolos e familiar de muitos que tinham visto o Senhor e foi pelos próprios apóstolos designado bispo para a Ásia, na Igreja de Esmirna”.
De qualquer modo, sua ordenação aconteceu certamente porque todos viam nele a fiel testemunha da tradição joanina e isso lhe possibilitou exercer uma forte influência não só na cidade de Esmirna, mas também nas cidades vizinhas. O mesmo Inácio, estando para ser martirizado, recomendava-lhe que cuidasse da Igreja de Antioquia, que estava sem pastor.
O PASTOR FIEL À TRADIÇÃO
Levar adiante as comunidades cristãs da Ásia naquele tempo não era fácil. Mesmo quando os apóstolos estavam ali presentes, surgiam algumas heresias, mas suas intervenções esclarecedoras foram, para a grande maioria, decisivas: a palavra do apóstolo era a palavra de Jesus. Entretanto, nem sempre a palavra do bispo era reconhecida como autorizada. Tinham proliferado os profetas que frequentemente reivindicavam sua autonomia e não participavam da Eucaristia celebrada por Policarpo, criando igrejinhas pessoais de fiéis que professavam certo rigorismo moral, chegavam a negar que Jesus tivesse tido um corpo humano real e que o Antigo Testamento houvesse sido inspirado por Deus.
Irineu nos testemunha que Policarpo, durante toda a sua vida, praticou a caridade, assim como havia aprendido de João, para conduzir ao redil as ovelhas que se tinham deixado enganar pelas falsas doutrinas, pregando, porém, com firmeza, “sempre as mesmas coisas como tinha aprendido dos apóstolos e a Igreja tinha transmitido e que constituíam a única verdade”.
Por essa fidelidade à tradição joanina, muitas igrejas recorriam a ele para ser iluminadas e dirimir controvérsias doutrinais, como testemunha Eusébio: “Policarpo enviou cartas às igrejas vizinhas para confirmá-las ou a alguns irmãos para repreendê-los ou para estimulá-los” (Eusébio, História eclesiástica, V, 20,8).
Temos somente a carta que ele escreveu aos filipenses, atendendo aos seus pedidos. Depois de tê-los louvado pela assistência que haviam dado aos santos mártires Inácio, Zósimo e Rufo quando eles foram para Roma, e depois de ter recordado que eram filhos do apóstolo Paulo, Policarpo os exortava a permanecerem fiéis ao verdadeiro ensinamento dos apóstolos, insistindo no fato de que Jesus verdadeiramente sofreu sobre a cruz por nós em sua carne: “Ele carregou sobre a cruz em seu corpo os nossos pecados por meio da paixão suportada por sua vontade”.
O HOMEM DA COMUNHÃO
Um ano antes do martírio, Policarpo foi a Roma a fim de resolver com o Papa Aniceto a então espinhosa questão da data da celebração da Páscoa. A tradição da Igreja de Roma e da maior parte das outras igrejas celebrava a maior festa cristã no domingo depois do dia 14 de Nisã; a tradição das Igrejas da Ásia Menor, ao contrário, influenciada pela práxis joanina, celebrava-a sempre no dia 14 de Nisã.
Policarpo soube explicar bem as coisas para Aniceto: no fundo, não se tratava de uma questão doutrinal, mas de uma questão puramente disciplinar e, portanto, cada um poderia permanecer com a própria tradição. Aniceto ficou admirado pela santidade do bispo de Esmirna e, em sinal de comunhão e honra, quis que ele presidisse a celebração eucarística na Igreja de Roma.
Mais tarde, reacendeu-se o desentendimento e Irineu, escrevendo ao Papa Vítor, recordará a passagem de Policarpo por Roma e o acordo alcançado com o seu predecessor.
Quando Policarpo estava em Roma, encontrou-se com o herético Marcião, rico comerciante e dono de um navio, que tinha vindo ao Papa para buscar apoio às suas ideias, oferecendo dinheiro para propagação da fé. Vendo a boa acolhida a Policarpo, tentou ganhar também sua estima e apresentou-se a ele pedindo-lhe que o recomendasse. O bispo de Esmirna, que estava a par de suas ideias pouco ortodoxas, deu-lhe uma resposta precisa e cortante: “Oh! Sim! Eu reconheço o primogênito de Satanás”. Em Roma, a doutrina de Marcião não foi adiante.
O MÁRTIR
Tendo retornado a Esmirna, logo se deu conta de que continuariam os ventos da perseguição. Seus fiéis o convenceram a se retirar e a se esconder em uma casa de campo para evitar complicações, mas um pobre cristão, capturado pelos guardas e submetido a torturas, não conseguiu resistir e revelou o refúgio do seu pastor.
Uma longa carta da Igreja de Esmirna nos informa sobre o martírio de Policarpo (Atti dei martiri, vol. I, a cura di C. Allegro. Cidade Nova, Roma, 1974, pp. 74-77).
Os guardas chegaram à noite e encontraram Policarpo em oração. Ele os acolheu com amor, ofereceu-lhes alimento e bebida à vontade e, enquanto se fartavam, Policarpo orou durante duas horas por todas as pessoas que ele tinha encontrado, pequenas e grandes, de alta ou baixa condição, por toda a Igreja Católica na Terra. Os guardas não tiveram coragem de prender um homem assim tão santo e resolveram convidá-lo para sair montado em um asno para levá-lo à cidade.
No caminho, Herodes, chefe dos guardas, e Nicetes, pai deste, fizeram Policarpo subir na sua carroça, tentando convencê-lo a obedecer ao governador para evitar a morte. Foi uma conversa inútil que acabou irritando os dois funcionários que, ao se aproximarem da cidade, não quiseram mais carregá-lo na carroça e fizeram-no descer e ir a pé.
No dia seguinte, quando entrou no circo, onde era esperado pela multidão, ansiosa por divertimentos, e pelo governador Estácio Quadrato, um grito geral se levantou das escadarias.
O governador quis interrogar o ancião. Pediu-lhe para gritar diante de todos: “Abaixo os falsos deuses!”. Policarpo concordou de boa vontade, mas, quando lhe pediu para renegar a fé cristã e sacrificar ao imperador, recusou-se com firmeza.
Ao segundo convite do governador para pensar na sua idade avançada e se decidir a renegar a Cristo, ele respondeu: “Eu o servi durante 86 anos e jamais Ele me fez mal. Por que deveria trair agora o meu rei e o meu salvador?”.
Quando o mensageiro anunciou à multidão “Policarpo confessou que era cristão”, ouviam-se gritos de todos os lados: “Policarpo é o mestre de toda a Ásia, o pai dos cristãos, o destruidor de nossos deuses!”.
Pediam que ele fosse atirado aos animais. Como já era tarde, não foi possível realizar o espetáculo das feras e o povo teve de se contentar com a fogueira. Rapidamente foi ajuntada a lenha e os guardas se aproximaram de Policarpo para prendê-lo com correntes. Ele lhes pediu que não o amarrassem e, retirando a túnica e as sandálias, subiu na pira e aproximou-se da estaca. Quando os algozes chegaram para pregá-lo ao poste, ele lhes disse: “Deixai-me assim: aquele que me dá forças para suportar o fogo me concederá também, sem necessidade de pregos, permanecer imóvel sobre o fogo”. Os guardas limitaram-se a amarrá-lo.
O martírio foi descrito como uma grande e solene liturgia nos Atos dos Mártires. Preso com as mãos atrás das costas, como um cordeiro retirado de um grande rebanho para ser sacrificado, holocausto aceito por Deus, levantando os olhos ao céu, Policarpo, diante da multidão repentinamente emudecida, como se estivesse no altar a celebrar a sua última Eucaristia, fez a grande oração: “Senhor Deus onipotente, Pai do teu amado e bendito servo Jesus Cristo, eu te bendigo, porque me fizeste digno deste dia e desta hora, para poder participar, no número dos mártires, do cálice do teu Cristo pela ressurreição para a vida eterna, alma e corpo na incorruptibilidade do Espírito Santo. Que hoje eu possa ser acolhido à tua presença como sacrifício aceito e agradável, como predispuseste e revelaste e agora estás cumprindo tu, infalível e verdadeiro Deus. Amém!”.
Quando Policarpo ainda era um bispo jovem, Santo Inácio lhe escrevera: “Permanece firme como uma bigorna sendo golpeada”. Ele mesmo tinha exortado aos filipenses: “Estejamos continuamente presos à esperança e ao penhor de nossa justiça, Cristo Jesus. Ele sofreu por nós, a fim de que nós vivêssemos nele. Devemos, portanto, imitar sua paciência. Ele nos deixou um exemplo na sua pessoa”.
Tudo estava consumado. Os cristãos puderam recolher com veneração o que restou de seu corpo e escrever a história de seu martírio, enviando cartas às igrejas irmãs para que todos se alegrassem com o exemplo daquele que tinha sido e permanecia para sempre pai e mestre.
Santo Irineu escreveu primorosamente: “Policarpo teve uma vida muito longa e morreu já ancião em meio a um gloriosíssimo e nobilíssimo martírio”