Recentemente, a resposta do Papa Leão XIV a uma catequista de nome Nunzia que, em sua carta endereçada ao Santo Padre, relatava dificuldades em engajar famílias e jovens na sua paróquia na Suíça, despertou uma reflexão atual, necessária e indispensável.
De fato, todos nós agentes de pastoral e evangelizadores deparamos hoje, assim como no tempo de Jesus, como veremos, com poucas pessoas que estão dispostas a servir. A palavra “disposição” aqui aplicada está propositadamente posta para substituir “disponível”, haja vista que cada vez mais estamos atrasados, uma sensação mórbida de que o tempus fugit. Encontrar pessoas disponíveis, com tempo hábil para doar-se a Deus e suportar com paciência as demoras do agir pastoral, padecer os processos de idas e vindas próprios de todo movimento de conscientização e evangelização, é raro e quase impossível em nossos dias!
Sendo assim, precisamos olhar o Evangelho e buscar na pessoa de Jesus o modelo de como agir pastoralmente, sem nos deixar consumir pelo desânimo e cansaço do ativismo, nem tampouco nos deixar envaidecer pelos sedutores números de fãs e seguidores virtuais. O maior agente de pastoral que existiu acreditava no poder do pequeno grupo (cf. Mt 18,20), das pequenas comunidades (cf. Mc 3,13-14) e, por vezes, tão somente por vezes, falava às multidões e estava inserido nela. Teve muitos discípulos, entre eles alguns curiosos, outros desleais e embusteiros, e pôde, entre tantos simpatizantes, chamar de amigos um grupo relativamente pequeno.
Olhando o agir de Jesus, percebemos como Ele lidava com as massas e quanto se aplicava aos “pequenos encontros”, como aqueles com a mulher samaritana (cf. Jo 4,7-9), Nicodemos (cf. Jo 3,1-2) e Marta e Maria (cf. Lc 10,38-42). Jesus fez muitos atendimentos individuais, pastoral da escuta e, por vezes, curtia a solidão, transformando-a numa amiga de oração e intimidade com o Pai.
Dito isso, dá para entender porque o Santo Padre acalentou o coração da aflita e sonhadora catequista suíça ao dizer que “O problema da Igreja não são os números, mas a consciência de pertença”. Ou seja, a Igreja tem vocação a ser pequena, mas comprometida e portadora da mensagem do Reino: “Não temas, pequenino rebanho, porque a vosso Pai agradou dar-vos o Reino” (Lc 12,32-34). Poderíamos ainda recordar o teólogo africano Alain Clément Amiézi, atualmente bispo na Costa do Marfim, que em 2019 afirmou que a Igreja estaria “produzindo pessoas batizadas, mas não cristãs”, aludindo assim à importância da experiência pessoal com o Senhor em detrimento de um ritualismo vazio.
Por fim, o grande teólogo tcheco Thomás Halik publicou em 2023, pela Editora Vozes, sua obra O entardecer do cristianismo: a coragem de mudar, propondo uma Igreja com menos estruturas pesadas, de tendas, obviamente sem multidões, prevendo um entardecer que não é necessariamente enfraquecimento, mas florescer, com a coragem de mudar olhando os sinais dos tempos.
*Padre Aloísio dos Santos Mota é bacharel em Teologia e Filosofia e assessor da Pastoral da Comunicação na Arquidiocese de Aparecida (SP). Atuou como missionário no Santuário Nacional de 2016 a 2019. Atualmente é pároco na Paróquia São Pedro Apóstolo na Arquidiocese de Aparecida, cidade de Guaratinguetá (SP)