Na sala simples de sua casa em Campinas (SP), a aposentada Maria de Fátima Carvalho prepara, com um gesto silencioso e cheio de significado, um pequeno recipiente com água. Aos 74 anos, com dificuldades para caminhar devido a uma doença grave nas pernas, ela encontrou na transmissão ao vivo da Missa de Páscoa um caminho possível, e profundamente transformador, de viver a fé. Há cinco anos, sem falhar, acompanha a celebração presidida pelo Papa e recebe a bênção Urbi et Orbi, concedida da varanda central da Basílica de São Pedro.
Durante todos esses anos, Maria de Fátima acompanhou as celebrações presididas por Papa Francisco, cuja presença constante marcou sua experiência espiritual. “Depois que recebo a bênção, sinto que meu coração fica mais leve. É como se eu estivesse mais preparada para viver a Páscoa de verdade”, conta. A água que ela coloca diante da televisão torna-se, para ela, um sinal concreto dessa graça: “Eu ofereço às pessoas que me visitam. É uma forma de partilhar aquilo que recebo. Como não saio muito, sinto-me missionária cada vez que alguém vem me visitar e eu tenho essa água benta para oferecer”.
A história de Maria de Fátima revela um fenômeno cada vez mais comum: a vivência da espiritualidade mediada pela tecnologia, especialmente entre idosos ou pessoas com mobilidade reduzida. No entanto, longe de ser uma experiência superficial, ela se baseia em uma tradição teológica profunda da Igreja, uma tradição que encontra no Catecismo da Igreja Católica um de seus pilares mais sólidos.
Segundo o Padre Antonio Aparecido Pereira, conhecido como Padre Cido, sacerdote da Arquidiocese de São Paulo (SP) e especialista em liturgia, a bênção Urbi et Orbi ocupa um lugar singular na vida da Igreja. Com décadas de atuação pastoral e reconhecido por sua presença em meios de comunicação católicos, ele explica: “A bênção papal que traz indulgência plenária é a bênção Urbi et Orbi (‘à cidade e ao mundo’). Ela é concedida pelo Papa em momentos solenes: Natal, Domingo de Páscoa e na primeira bênção após a eleição de um novo Pontífice. Em situações extraordinárias, como a de 27 de março de 2020, durante a pandemia, também pode ser concedida,” contou, em entrevista à reportagem.
Padre Cido ressalta que a participação pode ocorrer inclusive pelos meios de comunicação, como no caso de Maria de Fátima: “Quem acompanha a bênção ao vivo, estando em estado de graça, recebe a indulgência plenária, desde que cumpra condições como confissão, comunhão, oração nas intenções do Papa e o desapego de qualquer pecado”.
Essa compreensão está diretamente ligada à doutrina das indulgências, explicada pelo Catecismo da Igreja Católica. No número 1471, o texto afirma: “A indulgência é a remissão, diante de Deus, da pena temporal pelos pecados, já perdoados quanto à culpa”, ou seja, como reforça a tradição da Igreja, não se trata de “apagar” o pecado, algo que ocorre no Sacramento da Confissão, mas de purificar as consequências espirituais deixadas por ele.
É importante ressaltar, contudo, que a possibilidade da bênção não deve substituir toda a caminhada quaresmal, em que os fiéis têm um tempo para praticar a oração, a caridade e o jejum mais intensamente.
A JUSTIFICAÇÃO ACONTECE NA PÁSCOA
O teólogo, artista plástico e professor de Religião Sergio Ricciuto aprofunda essa reflexão ao comentar o mesmo trecho: “No número 1471, o Catecismo da Igreja Católica afirma que a indulgência é a remissão, diante de Deus, da pena temporal pelos pecados já perdoados quanto à culpa, ou seja, não se trata de apagar o pecado em si, mas das consequências espirituais dele”.
Ele, no entanto, propõe um olhar mais existencial: “Confesso que não sou muito ligado a essas ‘sutilezas penitenciais’. Prefiro mergulhar na lógica da parábola do fariseu e do publicano. A justiça mais alta é a de Deus, o perdão. A justificação acontece na Páscoa”.
Sergio já participou da Missa presencialmente, na Praça São Pedro, no Vaticano, e recebeu a bênção dos papas João Paulo II e Bento XVI. “Sem dúvida é uma experiência que marca a vida”, disse em entrevista à reportagem.
Além da explicação teológica, a própria história da bênção Urbi et Orbi revela sua importância. A expressão latina, que significa “à cidade e ao mundo”, remonta aos primeiros séculos do cristianismo, quando os bispos de Roma começaram a conceder bênçãos solenes à cidade. Com o passar do tempo, especialmente a partir da Idade Média, essa prática se consolidou como um gesto universal do Papa, sucessor de São Pedro, dirigido não apenas a Roma, mas a todos os cristãos.
Foi sobretudo a partir do século XV que a bênção passou a ser associada às grandes solenidades litúrgicas e à concessão de indulgência plenária. Com o avanço dos meios de comunicação no século XX, rádio, televisão e, mais recentemente, internet, o alcance da Urbi et Orbi tornou-se verdadeiramente global, permitindo que fiéis como Maria de Fátima participem espiritualmente, mesmo a distância.
O próprio Papa Francisco destacou, em diversas ocasiões, a importância dessa bênção. Em uma mensagem pascal, afirmou que ela é um anúncio da vitória da vida sobre a morte e um convite para que todos acolham a misericórdia de Deus, ou seja, um chamado à renovação interior que está no coração da Páscoa.
Essa dimensão também se conecta com outro ponto do Catecismo da Igreja Católica, que recorda: “A reconciliação com Deus traz como consequência a remissão das penas eternas do pecado” (1472). A indulgência, portanto, insere-se nesse caminho de restauração espiritual, como um dom oferecido pela Igreja aos fiéis devidamente preparados.
Sergio Ricciuto amplia ainda mais essa perspectiva: “A graça de Deus e a comunhão dos santos estão além do espaço e do tempo, dos oceanos e dos séculos, dos satélites e das transmissões ao vivo”. Para ele, a experiência digital não diminui o alcance da fé; ao contrário, pode ampliá-la.
Padre Cido concorda, ainda que com um olhar pastoral: “A Igreja sempre buscou chegar até onde o fiel está. Se hoje isso acontece também pela televisão e pela internet, é um sinal dos tempos”.
Na casa de Maria de Fátima, esse “sinal dos tempos” ganha forma concreta. Entre limitações físicas e recursos tecnológicos, ela constrói um espaço onde o sagrado se faz presente. A tela não substitui o altar, mas se torna uma ponte. A água abençoada, compartilhada com visitantes, transforma-se em símbolo de uma fé que não se isola. “Mesmo sem poder ir até a igreja, eu sinto que a igreja vem até mim”, diz ela.
Num mundo marcado por distâncias, físicas, emocionais e espirituais, histórias como a de Maria de Fátima revelam que a fé, quando vivida com autenticidade, encontra caminhos. Seja no silêncio de uma sala, diante de uma tela, ou no gesto simples de oferecer um copo de água, a Páscoa continua acontecendo: como passagem, como renovação, como encontro.
O PERDÃO DOS PECADOS E A SUPERAÇÃO DOS PRECONCEITOS
“Irmãos e irmãs, Jesus Cristo ressuscitou e somente Ele é capaz de remover as pedras que fecham o caminho para a vida. De fato, Ele mesmo, o Vivente, é o caminho: o caminho da vida, da paz, da reconciliação, da fraternidade. Ele nos abre a passagem, algo humanamente impossível, porque somente Ele tira o pecado do mundo e perdoa os nossos pecados. Sem o perdão de Deus, essa pedra não pode ser removida. Sem o perdão dos pecados, não se consegue sair dos fechamentos, dos preconceitos, das suspeitas mútuas e das presunções, que sempre levam a absolver a si mesmo e acusar os outros. Somente o Cristo ressuscitado, ao dar-nos o perdão dos pecados, abre o caminho para um mundo renovado.” (Discurso do Papa Francisco durante a celebração da