Ao longo do Evangelho de Mateus, uma convicção acompanha toda a narrativa: Jesus é apresentado como o cumprimento das promessas feitas por Deus ao seu povo. Nada em sua vida aparece como um acontecimento isolado ou inesperado. Desde o início, o evangelista procura mostrar que a história de Jesus está profundamente ligada às Escrituras e à esperança cultivada por Israel ao longo dos séculos. Em Cristo, aquilo que havia sido anunciado pelos profetas alcança sua realização.
Essa compreensão aparece de maneira explícita quando Jesus afirma: “Não penseis que vim abolir a Lei e os Profetas. Não vim abolir, mas dar-lhes pleno cumprimento” (Mt 5,17). A missão de Jesus não rompe com a história da salvação; ao contrário, revela seu sentido mais profundo. A Lei e os Profetas não são deixados para trás, mas iluminados à luz da presença do Filho de Deus. Mateus escreve para uma comunidade que conhece as Escrituras e deseja compreender como as antigas promessas encontram, em Jesus, sua plena realização.
Por essa razão, o evangelista recorre frequentemente à expressão “para que se cumprisse o que fora dito pelo profeta”. Essa fórmula aparece em momentos decisivos da narrativa e mostra que os acontecimentos da vida de Jesus não podem ser entendidos separadamente da ação de Deus na história. O nascimento em Belém, a fuga para o Egito, o início da pregação na Galileia e até mesmo os gestos realizados por Jesus são apresentados como parte do desígnio divino anunciado anteriormente.
No relato do nascimento de Cristo, Mateus oferece uma das passagens mais significativas de todo o Evangelho. Ao narrar a concepção de Jesus, recorda a profecia de Isaías: “Eis que a virgem conceberá e dará à luz um filho, e ele será chamado Emanuel” (Mt 1,23). O próprio evangelista explica o significado do nome: “Deus conosco”. Não se trata apenas de um título simbólico, mas da afirmação de uma presença nova e definitiva de Deus entre os homens.
O nome Emanuel revela a proximidade de Deus com a humanidade. Em Jesus, Deus não permanece distante do sofrimento humano, mas entra na história e partilha a condição humana. Cristo vive entre o povo, aproxima-se dos que sofrem, acolhe os excluídos e manifesta, por meio de suas palavras e de seus gestos, a misericórdia e o cuidado do Pai.
A tradição cristã aprofundou amplamente o sentido dessa presença. Tomás de Aquino, ao comentar o nome Emanuel, recorda que Deus está com a humanidade pela união do Verbo com a natureza humana, pela convivência visível de Cristo entre os homens e também pela permanência espiritual de sua presença junto à Igreja.
Assim, o “Deus conosco” não pertence apenas ao passado do Evangelho, mas continua sendo uma realidade viva para os discípulos de todos os tempos.
Essa presença acompanha toda a narrativa de Mateus. Jesus ensina, cura, perdoa e anuncia o Reino de Deus como aquele em quem a ação divina se torna visível. Mesmo ao falar por parábolas, Mateus recorda que isso acontecia “para que se cumprisse o que fora anunciado pelo profeta” (Mt 13,35). Em Cristo, as Escrituras deixam de ser apenas memória antiga e tornam-se Palavra viva que se realiza diante do povo.
Ao final do Evangelho, depois da ressurreição, a promessa do Emanuel reaparece com ainda mais força. Antes de enviar os discípulos em missão, Jesus declara: “Eis que estarei convosco todos os dias, até o fim dos tempos” (Mt 28,20). O Evangelho que começou anunciando o “Deus conosco” termina reafirmando essa presença contínua. Cristo permanece junto de sua Igreja, sustentando seus discípulos e acompanhando a caminhada da humanidade.
Desse modo, Mateus convida cada leitor a reconhecer em Jesus a fidelidade de Deus às suas promessas. A fé cristã nasce da certeza de que Deus não abandonou seu povo, mas cumpriu aquilo que havia anunciado. Em Jesus Cristo, as promessas encontram rosto, voz e presença. O Emanuel continua caminhando com seu povo, iluminando a história humana com a esperança que vem de Deus.
Referências
CONCÍLIO VATICANO II. Constituição Dogmática Dei Verbum. Petrópolis: Vozes, 2000.
MESTERS, Carlos. Evangelho Segundo São Mateus. São Paulo: Paulus, 1991.
RATZINGER, Joseph. Introdução ao Cristianismo. São Paulo: Loyola, 2005.