Em setembro, a Igreja no Brasil celebra o Mês da Bíblia, convidando-nos a uma aproximação mais atenta da Sagrada Escritura. Em muitas comunidades, a Bíblia recebe um lugar de destaque nas celebrações, nos encontros de formação, nos círculos bíblicos e nas casas. Esse gesto possui uma beleza própria, pois nos recorda que a Palavra de Deus deseja encontrar espaço em nossas vidas, iluminar nossas escolhas e ajudar-nos a compreender os caminhos que percorremos.
A celebração acontece neste mês em razão da memória de São Jerônimo, no dia 30 de setembro. Ele dedicou grande parte de sua vida ao estudo e à tradução das Escrituras, reconhecendo que o conhecimento da Palavra nos conduz ao encontro com Cristo.
Em 2026 somos convidados a conhecer com maior profundidade o Livro de Daniel, iluminados pelo lema “Seu reino jamais será destruído” (7,14). Muitos de nós conhecemos Daniel desde a infância, especialmente pelas narrativas da cova dos leões, da fornalha ardente e dos sonhos que ele interpretava. Com o passar dos anos, podemos retornar a essas histórias e descobrir nelas a experiência de um povo que procurava manter a fé em meio às perseguições, ao exílio e às tentativas de apagar sua identidade.
Daniel vivia em uma terra estrangeira. Ele e seus companheiros haviam sido levados para a Babilônia e passaram a conviver com uma cultura que desejava modificar seus costumes, sua alimentação, seus nomes e sua maneira de viver.
Uma das cenas mais bonitas do livro acontece quando Daniel fica sabendo da existência de um decreto que proibia qualquer oração dirigida a outro deus ou pessoa que não fosse o rei. Ao tomar conhecimento da ordem, ele entra em sua casa, abre a janela voltada para Jerusalém, ajoelha-se e reza como fazia diariamente (cf. Dn 6,11).
A janela aberta para Jerusalém guardava a memória de sua terra, do templo, de sua família e da aliança de Deus com o povo. Enquanto rezava, Daniel reconhecia sua origem e mantinha vivo o sentido de sua existência. Seu corpo estava na Babilônia, inserido na estrutura do império, enquanto seu coração permanecia voltado para o Deus de Sião.
Aquela oração cotidiana foi formando em Daniel a coragem necessária para enfrentar os momentos difíceis. Sua fidelidade havia sido cultivada ao longo do tempo, nos gestos repetidos, na consciência educada e na confiança depositada em Deus. Assim também acontece conosco: as decisões mais importantes de nossas vidas são preparadas pelas pequenas escolhas que fazemos todos os dias. A oração, a leitura da Palavra, a participação na comunidade e o cuidado com os outros vão formando nossos corações e oferecendo critérios para atravessarmos os tempos de confusão.
O Livro de Daniel nasceu dentro de uma história marcada pela perseguição e pelo sofrimento, por isso, suas páginas estão repletas de imagens fortes, como grandes animais, estátuas, reis, chifres, tronos e visões. Essa linguagem ajudava o povo a compreender sua realidade e a alimentar a esperança.
Os impérios costumavam apresentar-se como invencíveis. Seus governantes exigiam reverência, levantavam estátuas e utilizavam o medo para garantir a obediência. O povo que escutava as narrativas de Daniel recebia uma mensagem de coragem. Os reis passariam, os impérios perderiam sua força e as feras que espalhavam o terror seriam vencidas. O Reino de Deus permaneceria, pois estava sustentado na justiça, na fidelidade e no cuidado com o seu povo.
Essa esperança alcança também os nossos dias. Ainda convivemos com poderes que desejam ocupar a consciência das pessoas, orientar seus desejos e determinar a maneira como elas devem pensar. Algumas vezes, esses poderes utilizam a violência, a mentira, o dinheiro e até mesmo a religião para conquistar espaço. Diante dessas realidades, a experiência de Daniel nos ajuda a perguntar para onde estão voltadas as janelas de nossos corações.
Manter a janela aberta para Jerusalém significa conservar a memória de Deus em meio aos nossos afazeres. Significa guardar um espaço interior para a oração, para o discernimento e para a escuta. Significa recordar que nossa fé possui uma história, foi transmitida por uma comunidade e continua alimentada pela vida de tantas mulheres e homens que permaneceram fiéis ao Evangelho.
O lema deste Mês da Bíblia afirma que o Reino de Deus jamais será destruído. Jesus retomou essa esperança ao anunciar a proximidade do Reino e torná-lo presente em sua própria vida. Por onde passava, os enfermos encontravam cuidado, os pecadores recebiam misericórdia, os pobres recuperavam a dignidade e os excluídos voltavam a ocupar um lugar na comunidade. O Reino estava presente nos gestos que devolviam vida e esperança ao povo.
Celebrar o Mês da Bíblia pede de nós uma escuta capaz de alcançar a existência. A Palavra deseja participar de nossas escolhas, de nossas relações, da maneira como exercemos autoridade e da forma como cuidamos dos mais fragilizados. A leitura comunitária da Bíblia ajuda-nos a perceber os sinais do Reino que já estão presentes entre nós, nas pessoas que repartem o pão, defendem a justiça, acolhem os feridos e permanecem próximas daqueles que atravessam suas fornalhas e covas.
Daniel nos ensina que a fé pode florescer também em terras estrangeiras e em tempos difíceis. Sua janela permaneceu aberta, sua oração continuou sendo feita e sua esperança sustentou outros que enfrentavam as mesmas dores. Que neste mês de setembro a Palavra de Deus abra também nossas janelas interiores e nos ajude a olhar a vida com fé, coragem e esperança.