Em Caravaca de la Cruz, na região de Múrcia, na Espanha, ergue-se a Basílica Santuário da Vera Cruz. Aí se encontra uma devoção antiga, que infelizmente no Brasil e alguns países tem se misturado com superstições motivadas por publicações que misturam fé com bruxaria; porém, graças ao testemunho dos papas recentes, como São João Paulo II e Bento XVI, tem-se divulgado ao povo fiel uma verdadeira devoção à santa cruz .
Na obra de Antonio de Honcala de 1546, Pentaplon christianae pietatis, relata-se que, no século XIII, um sacerdote aventurou-se em território mouro para pregar o Evangelho. Foi preso pelos muçulmanos e levado perante o governante, Zayd Abu Zayd. O governante interrogou-o sobre a Missa e o sacerdote explicou-a tão detalhadamente que o governante exigiu que fosse celebrada em sua presença. O sacerdote não possuía os itens necessários e mandou buscá-los na cidade de Concha, que estava sob controle cristão, contudo, a cruz havia sido esquecida. O sacerdote, sem saber da sua ausência, começou a Missa, mas, parou quando percebeu que ela faltava. O governante, que assistia à Missa com a sua família, perguntou-lhe o que havia de errado. O sacerdote respondeu: “Não há cruz”. Nesse momento, o muçulmano viu dois anjos colocando a cruz no altar e apontando para o objeto desejado disse: “Será que é isso?”. O sacerdote deu graças a Deus e continuou com a Missa.
Segundo a lenda, esse evento levou o governante muçulmano e sua família a se converterem ao cristianismo. De acordo com a maioria das versões da história, o clérigo chamava-se Ginés Pérez Chirino ou Quirino, era originário de Mahora, na província de Albacete, e viera de Cuenca, onde fora discípulo do bispo São Julião, que o designara para servir na catedral. Segundo outra versão, seu nome era Fernán Pérez e por isso um dos filhos do governante foi batizado com o nome de Fernán Pérez.
Leonardo Mayor Izquierdo situa a data do milagre em 3 de maio de 1231. Dom F. Renón, usando dados da monografia de Juan Robles Corbalán de 1615 sobre a verdadeira cruz de Caravaca, situa o milagre em 1227. Zayd Abu Zayd comunicou sua intenção de se converter ao cristianismo ao Papa Gregório IX em 1228. Essa conversão ocorreu após essa data.
Existe outra lenda sobre a sua origem. Quando Santa Helena encontrou a verdadeira cruz no século IV, deu um pedaço ao patriarca de Jerusalém. No século XIII, o imperador Frederico II Hohenstaufen foi proclamar-se rei de Jerusalém, ocasião em que colocou a relíquia no peito. Contudo, devido à sua falta de piedade, dois anjos apareceram e levaram-na, tendo esta reaparecido mais tarde em Caravaca.
Outra história, mais prosaica, conta que quando Caravaca foi conquistada por Jaime I, o Conquistador, e entregue a Fernando III, o Santo, em 1244, pelo tratado de Almizra, este entregou a cidade aos templários, que trouxeram a verdadeira cruz, de acordo com a regra da ordem de tê-la em todas as suas comendas. Ela teria sido colocada num relicário em forma de cruz patriarcal, pois era uma cruz simbólica dos templários.
A cruz serviu como estandarte e talismã contra os subsequentes ataques andaluzes, especialmente os perpetrados por Muhammad ibn Nasr, emir de Arjona e Granada. Com isso, Caravaca consolidou sua posição como um bastião na fronteira hispano-islâmica.
Conta a lenda que, no século XIII, os templários foram sitiados no castelo pelos muçulmanos e a água das cisternas da fortaleza ficou estagnada. Um grupo de templários conseguiu escapar e foi até as fontes em busca de água, mas estas haviam sido envenenadas pelos sitiantes. Encontraram apenas vinho, então, encheram vários odres com ele e o carregaram em seus cavalos. Ao retornarem à fortaleza, após cruzarem com sucesso as linhas inimigas mais uma vez, abençoaram o vinho com a vera cruz e o deram aos doentes, que foram curados. Também derramaram um pouco do vinho nas cisternas, que foram purificadas. Dessa forma, conseguiram resistir ao cerco e as forças muçulmanas finalmente se retiraram. Essa tradição, conhecida como os Cavalos do Vinho, é comemorada todo dia 2 de maio, quando os clubes equestres de Caravaca enfeitam um cavalo e escolhem quatro representantes para correrem pela encosta que leva ao Santuário da Vera Cruz.
O mestre da Ordem de Santiago, Lorenzo Suárez de Figueroa, fez uma peregrinação a Caravaca em 1390 e doou uma caixa de prata dourada para guardar a relíquia.
A partir do século XIV foram emitidas bulas de indulgência para aqueles que visitavam a capela onde se encontrava a cruz. As duas primeiras que sobreviveram foram promulgadas por Clemente VII de Avignon em 1379 e em 30 de janeiro de 1392. O primeiro Papa de Roma a conceder indulgências para esse fim foi Pio V em 1572. Posteriormente, essas indulgências foram prorrogadas por Gregório XV em 1622 e confirmadas por Urbano VIII (1623-1644), Clemente X (1670-1676) e Inocêncio XII(1691-1700).
Em 1536, o comandante Pedro Fajardo y Chacón, primeiro marquês de Vélez, doou uma custódia de ouro e um porta-cruz de prata, avaliados em mil ducados.
Em 1711, o duque de Montalto doou um relicário, que foi substituído por outro em 1777, doado pelo duque de Alba.
A cruz foi objeto de um roubo sacrílego na noite de 14 de fevereiro de 1934. Os ladrões roubaram a relíquia sagrada e o relicário que a continha, uma doação da casa de Alba em 1777, deixando para trás o cofre que continha ambos e que foi doado em 1390 por Lorenzo Suárez de Figueroa, mestre da Ordem de Santiago.
Em 30 de abril de 1942, dois fragmentos chegaram a Caravaca juntamente com um documento impresso em latim, emitido em 15 de abril de 1942, pelo frade dominicano Gabriel Moriondo, bispo de Caserta, que estava associado às relíquias do Vaticano desde pelo menos 1930. O documento certificava que os fragmentos provinham da cruz de Jesus Cristo e autorizava a sua exibição em qualquer igreja, capela pública ou oratório. Ambos os fragmentos foram colocados num relicário que era uma réplica do que tinha sido roubado. A relíquia chegou a tempo para as festividades de maio em honra da verdadeira cruz.
São João Paulo II concedeu um ano jubilar à cidade em 2 de janeiro de 1981, a pedido do bispo de Cartagena. Em 1998, a pedido do bispo de Cartagena e da real e ilustre Confraria da Santa e Verdadeira Cruz de Caravaca, São João Paulo II concedeu perpetuamente um ano jubilar a cada sete anos ao santuário, a partir de 2003, concedendo uma indulgência plenária, nas condições habituais, em 3 de maio e 14 de setembro, ou por meio de uma peregrinação em grupo. Caravaca tornou-se uma das cinco cidades do mundo com esse privilégio, consideradas “cidades santas”. As outras são Jerusalém, Roma, Santiago de Compostela e Santo Toribio de Liébana .
Em 2002, o então Cardeal Ratzinger, futuro Papa Bento XVI, peregrinou à cidade para encerrar um congresso internacional de cristologia na região de Múrcia. Ele celebrou a Eucaristia e venerou publicamente a relíquia no Santuário da Vera Cruz de Caravaca.
O Papa Francisco recebeu delegações e enviou bênçãos apostólicas para os anos jubilares mais recentes, porém, nunca realizou uma viagem oficial até o município espanhol.
A adoração da santa cruz se encontra no centro de nossa fé. Vários santos se inspiraram na santa relíquia para promover missões, como São Junípero Serra, devoto da vera cruz de Caravaca, ou as missões jesuíticas no nosso país que conservam em muitos lugares a imagem dessa cruz. Já São Boaventura, em uma meditação, disse que assim como o lenho alimenta a chama, o santo lenho da cruz alimenta nosso amor. Esse é o real segredo da santa cruz de Caravaca.