Ao longo do tempo, diversos filósofos, teólogos e pessoas comuns têm buscado responder a essa pergunta fundamental. Para os que professam uma fé religiosa, o texto do Êxodo é claro: “Não terás outros deuses diante de mim” (20,3). Partindo desse mandamento, propomos uma reflexão sobre qual posição o Criador ocupa de fato em nossas vidas cotidianas.
Quando Deus proíbe a idolatria, não o faz por ciúmes ou insegurança. Ele não carece de nada, nem mesmo de nossas orações. Ele é pleno em Si mesmo. No entanto, por amor, Ele quer nos incluir em sua história. O amor de Deus por nós é profundo e pessoal, fomos feitos à Sua imagem e semelhança (cf. Gn 1,26-27). Como poderia Ele não nos amar se refletimos algo dele? Deus não rejeita a própria imagem que em nós está impressa.
O primeiro mandamento é reafirmado por Jesus em Mateus 22,37, “Amarás a Deus de todo coração, de toda tua alma e de todo entendimento”. Amar a Deus não significa negar as realidades legítimas da vida, como família, trabalho, mas orientá-las segundo a vontade divina revelada nas Escrituras. O trono de nossos corações deve ser pertencer àquele que nos criou e nos abençoou com toda sorte de graças. Curiosamente, Deus nos oferece uma liberdade tão absoluta que nos permite até negá-lo.
Vivemos, porém, sobe o grave pecado da idolatria. Já não se trata mais de cultuar animais ou astros, como em tempos antigos. A idolatria moderna é mais sutil e, por isso, mais perigosa. Manifesta-se na obsessão por bens materiais, na veneração de celebridades, na adesão cega a ideologias, na busca desenfreada por poder e até na dependência excessiva da tecnologia. Em todas as formas, o ser humano substitui o Criador pela criatura, cultuando o que foi feito em lugar daquele que fez tudo.
O coração do ser humano tem um vazio que nenhuma criatura pode preencher, somente Deus é capaz de ocupá-lo plenamente, contudo, esse lugar raramente fica vazio: é rapidamente ocupado por futilidades ou por pessoas elevadas à condição de ídolos. Milhões de pessoas frequentam templos, mas, no dia a dia, cultuam “pequenos deuses”. O homem passa, então, a refletir seus próprios desejos e a adorar a criatura em lugar do Criador (cf. Rm 1,25).
Há muitos deuses modernos que disputam o trono do Deus vivo e verdadeiro. Para a nossa geração, o deus predominante tem sido a posse de bens, dinheiro e o status. O desejo de “ter” supera o desejo de “ser”. A ganância tornou-se o motor da existência. A ciência, por mais avançada que é, oferece respostas parciais; a autorreferencialidade e a autopromoção erguem-se como novas religiões; a liberdade com ausência de limites.
Mesmo a humanização excessiva de objetos ou de animais pode configurar uma forma de idolatria, pois nenhuma criatura, nem coisa, pode ocupar o lugar do homem, feito imagem e semelhança de Deus. E você, qual o lugar que Deus ocupa em sua vida?
Se o primeiro mandamento é amar a Deus, a prova desse amor é o amor ao próximo, não bastam frases feitas, é necessária uma vida que o anuncie. Para isso fomos feitos, para conhecê-lo, manifestá-lo e glorificá-lo eternamente.
*Pe. Adelmo Sérgio Gomes é sacerdote da Diocese de Divinópolis (MG). É também vice-postulador da causa de beatificação e canonização do Venerável Servo de Deus Padre Libério