A Solenidade da Epifania do Senhor é uma das festas mais antigas do calendário cristão e expressa uma verdade fundamental da fé: Deus se manifesta ao mundo inteiro na pessoa de Jesus Cristo. A palavra “epifania” indica justamente essa “manifestação”, essa “revelação” da glória divina antes oculta e agora visível no Verbo encarnado. O Evangelho de Mateus (2,1-12), ao narrar a vinda dos magos do Oriente, simboliza essa manifestação universal: homens estrangeiros, guiados pela luz, reconhecem na simplicidade de uma criança o Rei que veio para todos.
O sentido teológico da Epifania está profundamente ligado a esse episódio. Os magos representam todos os povos que se aproximam da luz que irradia de Cristo, cumprimento da profecia de Isaías “As nações caminharão à tua luz” (60,3). Em Jesus, manifestam-se a realeza, quando recebe o ouro, a divindade, quando recebe o incenso, e a humanidade redentora, anunciada pela mirra. Assim, a Epifania celebra que Cristo não veio apenas para Israel, mas para todos os povos; celebra a universalidade da salvação, a abertura radical do Evangelho e o reconhecimento de Jesus como Luz das nações, como Rei e Messias, como Filho amado do Pai no Jordão e como Senhor glorificado em Caná, quando manifesta pela primeira vez sua glória mediante o milagre da água transformada em vinho.
A tradição litúrgica da Igreja reconhece três epifanias fundamentais de Cristo: a adoração dos magos, que revela Jesus às nações, o Batismo no Jordão, que o manifesta publicamente como Filho de Deus, e o sinal de Caná, que manifesta sua glória e inaugura seu ministério. Essas três manifestações expressam de modo amplo quem Jesus é e abrem o horizonte de sua missão salvífica.
O próprio termo “epifania” tem uma história rica e significativa. Proveniente do grego “ἐπιφάνεια” (“epipháneia”), derivado do verbo “ἐπιφαίνω” (“epipháinō”) – aparecer, manifestar-se, tornar-se claro, brilhar sobre –, era utilizado no mundo greco-romano para indicar a aparição de uma divindade, a visita solene de um rei a uma cidade ou a revelação súbita de algo oculto. Ao ser assumido pelo cristianismo, o termo ganha um sentido novo e absoluto: não se trata mais de uma aparição simbólica, mas da manifestação real do Deus verdadeiro que se fez homem em Jesus Cristo.
Já no século III, os cristãos do Oriente celebravam em 6 de janeiro a Theophania, isto é, a “manifestação de Deus”, reunindo em uma única festa o nascimento de Cristo, a visita dos magos, o Batismo no Jordão e o milagre de Caná – todas as formas de Jesus se revelar ao mundo. No Ocidente, quando a celebração do Natal se separou da Epifania, esta passou a destacar principalmente a adoração dos magos, tornando-se a festa da manifestação de Cristo aos gentios e símbolo da missão universal da Igreja.
O simbolismo da Epifania é profundamente catequético: o ouro oferecido a Jesus proclama sua realeza, o incenso, sua divindade, a mirra, sua humanidade destinada ao sacrifício. Esses dons expressam o reconhecimento de quem Jesus é, enquanto o gesto dos magos recorda o movimento espiritual de todo crente: procurar, encontrar, adorar e oferecer.
A Epifania continua a ser, para a Igreja de hoje, um chamado, um apelo. Ela convida cada discípulo a reconhecer Jesus como luz verdadeira, capaz de dissipar a escuridão interior e social, a colocar-se em caminho, com humildade e perseverança, como fizeram os magos, a oferecer-lhe os dons do próprio coração e a compreender que a fé cristã não é privilégio restrito, mas dom destinado a todos os povos. A Epifania recorda que Deus não se esconde, mas se deixa encontrar por quem o busca sinceramente (cf. Mt 7,7). A estrela que guiou os magos continua a brilhar na vida dos que se abrem à ação da graça.
Mais do que uma festa, a Epifania do Senhor é um convite permanente à contemplação do mistério: Deus manifesta sua glória na fragilidade humana, tornando-se luz para todos os povos. A história do termo e da celebração mostra que a fé cristã é, desde suas origens, uma experiência de revelação: o invisível torna-se visível, o oculto torna-se claro e a humanidade reconhece no Menino de Belém o verdadeiro Rei e Salvador, aquele diante do qual os sábios do Oriente se ajoelharam e ofereceram seus dons, inaugurando o caminho da fé que se estende até nós.