Estimado(a) leitor(a) da Revista Ave-Maria, o mês de outubro é marcado, na Igreja particular do Brasil, como o mês missionário. A missão mais exigente é a de evangelizar os nossos familiares. Por isso, com a presença do Espírito Santo, queremos suplicar essa graça para nossas casas.
Iluminados pelo texto do apóstolo São Tiago: “A língua é um fogo” (Tg 3,6), percebemos que, pequena em tamanho, mas enorme em poder, assim é a nossa língua. Uma única palavra pode trazer alívio a um coração cansado, mas também pode deixar uma ferida que permanece por muito tempo. Às vezes, nem percebemos a força existente naquilo que dizemos, sobretudo quando falamos de alguém que não está presente.
É justamente para essa realidade que São Tiago chama nossa atenção. Ao comparar a língua a um fogo e a um pequeno leme que conduz uma grande embarcação, ele nos mostra que algo aparentemente pequeno pode determinar o rumo de muitas coisas. O problema não está na palavra em si, mas no uso que fazemos dela. Da mesma boca podem sair palavras que louvam a Deus e palavras que ferem o irmão.
A língua pode tornar-se instrumento de caridade quando comunica a verdade com amor, mas também pode transformar-se em fonte de destruição quando é utilizada para espalhar comentários maldosos, alimentar suspeitas ou prejudicar a reputação de alguém.
É nesse terreno que aparecem atitudes às quais nem sempre damos a devida importância: a fofoca contada como se fosse apenas uma novidade; a crítica disfarçada de preocupação; a informação que repetimos sem saber se é verdadeira.
O Catecismo da Igreja Católica nos ajuda a distinguir algumas dessas atitudes. O juízo temerário acontece quando, sem fundamento suficiente, consideramos verdadeira uma falta moral do próximo. A maledicência ocorre quando revelamos, sem motivo objetivamente válido, os defeitos e as faltas de alguém a pessoas que os desconhecem. Já a calúnia acontece quando, por afirmações contrárias à verdade, prejudicamos a reputação de outra pessoa e damos ocasião a falsos julgamentos sobre ela (cf. Catecismo da Igreja Católica, n. 2477).
A Igreja é clara ao afirmar que a maledicência e a calúnia ferem a justiça e a caridade, pois atingem a honra e a reputação a que toda pessoa tem direito (cf. Catecismo da Igreja Católica, n. 2479).
Mas o mal não atinge somente a pessoa de quem falamos. Quando usamos a língua com maldade, também permitimos que aquilo que dizemos deforme nosso próprio interior. A palavra revela o que existe em nosso coração (cf. Mt 12,34) e, ao mesmo tempo, pode alimentar em nós a inveja, o ressentimento, a vaidade ou o desejo de diminuir o outro.
Quem espalha uma suspeita talvez prejudique a reputação de alguém, mas também se acostuma a olhar o próximo com desconfiança e a encontrar satisfação em expor suas fraquezas.
Aos poucos, a língua que deveria servir à verdade passa a ser instrumento de uma disposição interior que nos afasta da caridade. Por isso, falar mal não significa apenas causar um dano externo; é também permitir que o próprio coração se torne menos sensível ao bem, menos disposto à misericórdia e mais inclinado ao julgamento.
A pessoa que é alvo da maledicência perde algo de sua honra; quem fala, porém, também perde algo de sua própria dignidade.
Mas São Tiago não nos convida apenas a evitar o mal. Ele nos chama a uma verdadeira conversão da palavra. A mesma boca que pode ferir foi criada para louvar a Deus e fazer o bem. Nossa língua pode tornar-se instrumento de caridade quando escolhemos palavras que acolhem em vez de excluir; que corrigem com amor em vez de humilhar; que promovem a verdade em vez de espalhar suspeitas.
Talvez o primeiro passo para essa mudança seja perceber o peso que nossas palavras podem ter e examinar, com sinceridade, a maneira como temos usado nossa língua, especialmente nas situações em que somos tentados a comentar, criticar ou falar sobre alguém.
Antes de falar, talvez precisemos aprender a fazer uma pequena pausa e perguntar: É verdade? É necessário? É caridoso? Se aquilo que vamos dizer não edifica, talvez o silêncio seja a melhor escolha (cf. Ef 4,29).
E, quando precisarmos falar sobre o outro, que o façamos com respeito, na presença de Deus e buscando sempre o bem daquela pessoa.
Que o Espírito Santo nos ajude a vigiar nossas palavras e, mais ainda, a cuidar do nosso coração, para que de nossa boca brotem palavras que gerem vida, esperança e reconciliação. Que nossa língua seja, cada dia mais, instrumento de amor e não de destruição.