No Evangelho de Lucas, a oração ocupa um lugar central na vida espiritual. Para os novos fiéis, cristãos de origem pagã que não tinham a tradição de oração dos judeus, Lucas ressalta a oração como uma forma essencial de comunicação com Deus e expressão de uma fé autêntica. Em sua narrativa, a oração não é um mero ritual, mas uma prática que define a identidade da comunidade cristã e fortalece sua conexão com o divino.
Desde os relatos sobre a infância de Jesus, Lucas cria um ambiente marcado pela oração. Personagens como Zacarias (cf. Lc 1,67-79), Isabel (cf. Lc 1,41-45), Maria (cf. Lc 1,46-55), Simeão (cf. Lc 2,29-32) e Ana (cf. Lc 2,36-38) são descritos em momentos de louvor, gratidão e súplica. Nesse cenário, Lucas apresenta quatro orações que se tornaram pilares da liturgia cristã: o Benedictus (cântico de Zacarias, cf. Lc 1,68-79), o Magnificat (cântico de Maria, cf. Lc 1,46-55), o Gloria (dos anjos, cf. Lc 2,14) e o Nunc dimittis (cântico de Simeão, cf. Lc 2,29-32). Essas orações não só celebram a ação de Deus na história da salvação, mas também servem como modelos para a oração pessoal e comunitária. Além disso, as palavras de Isabel a Maria (cf. Lc 1,42-45) formam a base da Ave-Maria, uma das orações mais conhecidas e recitadas na tradição cristã.
Lucas retrata Jesus como o modelo perfeito de oração. Enquanto outros evangelistas, como Marcos, mencionam a oração como uma prática habitual de Jesus (cf. Mc 1,35), Lucas amplia essa ideia, mostrando Jesus em oração em momentos cruciais de sua vida e missão. Ele ora durante seu Batismo (cf. Lc 3,21), em meio às atividades de seu ministério (cf. Lc 5,16), antes de escolher os doze apóstolos (cf. Lc 6,12), antes da confissão de Pedro (cf. Lc 9,18), na transfiguração (cf. Lc 9,29), após o retorno dos 72 discípulos (cf. Lc 10,17-21), na agonia do Getsêmani (cf. Lc 22,39-46) e na cruz (cf. Lc 23,34-36). Esses episódios revelam que a oração é o alicerce de sua missão e o meio pelo qual Ele se alinha à vontade do Pai.
Lucas também enfatiza a oração como uma resposta vital diante de desafios e decisões importantes. Nas parábolas do amigo importuno (cf. Lc 11,5-8) e do juiz iníquo (cf. Lc 18,1-8), ele ensina sobre a persistência na oração e a confiança na justiça divina. A oração é apresentada como uma prática que fortalece os discípulos em momentos de crise, como no Getsêmani (cf. Lc 22,40). Além disso, Lucas estabelece uma conexão clara entre a oração e o Espírito Santo (cf. Lc 1,15.17; 3,21s; 10,21; 11,13), mostrando que a oração é um canal para a ação do Espírito na vida dos fiéis (Papa Francisco, Exortação Apostólica Evangelii Gaudium, Paulinas, 2013, p. 112).
Nos Atos dos Apóstolos, Lucas continua a destacar a centralidade da oração na vida da comunidade cristã. Desde o início, os discípulos se dedicam à oração em comum (cf. At 1,14) e essa prática se torna uma característica marcante da Igreja primitiva. A oração é essencial tanto para os apóstolos (cf. At 6,4) quanto para toda a comunidade (cf. At 2,42), especialmente em momentos de dificuldade (cf. At 4,23-31; 12,5; 12,12) ou de decisões importantes, como a escolha do substituto de Judas (cf. At 1,24), a nomeação dos diáconos (cf. At 6,6) e o envio de Barnabé e Paulo (cf. At 13,3).
Personagens como Pedro, João e Paulo são frequentemente retratados em oração, evidenciando que a liderança cristã está profundamente enraizada na vida espiritual. Pedro e João vão ao templo para orar (cf. At 3,1), Pedro ora antes de realizar um milagre em favor de Tabita (cf. At 9,40) e Paulo ora em momentos decisivos de sua missão, como na prisão em Filipos (cf. At 16,25) e antes de curar o pai de Públio (cf. At 28,8). Até mesmo Cornélio, um gentio, é elogiado por suas orações e esmolas (cf. At 10,4.31), demonstrando que a oração transcende barreiras culturais e religiosas.
CONCLUSÃO
No Evangelho de Lucas, a oração é apresentada como um pilar fundamental da vida cristã, tanto individual quanto comunitária. Ela é o meio pelo qual os fiéis se conectam com Deus, discernem sua vontade e encontram força para superar desafios. Por meio de Jesus e dos primeiros cristãos, Lucas ensina que a oração não é apenas um ato de devoção, mas uma expressão de confiança na providência divina e uma fonte de unidade e perseverança para a comunidade. Dessa forma, a oração se torna um testemunho vivo da presença de Deus no mundo e um chamado à fé constante e à esperança em sua ação salvadora (Papa Francisco, Exortação Apostólica Evangelii Gaudium, Paulinas, 2013, p. 178).