A relíquia do título da cruz é um pedaço do título completo. As frases em grego e latim estão escritas da direita para esquerda no modo como os judeus leem. O titulum não foi escrito pelos soldados que em grande parte eram romanos ou de onde hoje é a Itália. Longino nasceu em Lanciano e o soldado que fez a primeira profissão pública, Abenadar, era romano, profetizando a fé da Igreja de Roma. O titulum foi escrito por ordem do próprio Pôncio Pilatos com ajuda de um escriba judeu, provavelmente, como testemunham as Escrituras, que compreendeu quem era Jesus.
Quando Jesus foi condenado, Pôncio Pilatos mandou escrever em hebraico, grego e latim a razão de sua pena: “Jesus Nazareno, Rei dos Judeus”, o que em latim ficaria “Iesu(a) Nazarenus Rex Iudaeorum” e na pronúcia hebraica algo como “Yeshua HaNatzrati vMelech Yehudim”, o que aborreceu e muito os fariseus presentes, que pediram encarecidamente que a placa fosse modificada, o que Pilatos se negou a fazer.
QUAL A CAUSA DE TAMANHO ABORRECIMENTO POR PARTE DOS JUDEUS?
A causa foi um acróstico que se formou quando ele escreveu a sentença. Um acróstico são formas textuais em que a primeira letra de cada frase ou verso forma uma palavra ou frase, é uma composição em verso na qual a primeira, e alguma vez, a última letra da linha é lida em ordem e forma um nome ou título. Por exemplo, INRI é um acróstico das palavras escritas em latim “Iesu(a) Nazarenus Rex Iudaeorum”. No hebraico temos “Jesus Nazareno, Rei dos Judeus” como “Yeshua HaNatzrati vMelech Yehudim” (וע הנצרתי ןמלך היהודים – no hebraico se lê da direita para a esquerda). As iniciais usadas eram exatamente as mesmas usadas para pronunciar o nome sagrado de Deus, יהוה (“YHWH”): “E Pilatos escreveu também um título, e pô-lo em cima da cruz; e nele estava escrito ‘Jesus Nazareno, Rei dos Judeus’” (Jo 19,19).
Muitos dos judeus leram esse título, porque o lugar onde Jesus estava crucificado era próximo da cidade e estava escrito em hebraico, grego e latim. Diziam, pois, os principais sacerdotes dos judeus a Pilatos: “Não escrevas ‘O Rei dos Judeus’, mas que ele disse ‘Sou o Rei dos Judeus’. Respondeu Pilatos: ‘O que escrevi, escrevi’” (Jo 19,19-22).
ONDE A RELÍQUIA SE ENCONTRA?
Ela se encontra na Basílica de Santa Croce in Gerusalemme, uma das sete igrejas de Roma que fazem parte do tradicional roteiro de peregrinação consagrado por São Filipe Néri. Sua construção começou no século IV, perto do Palazzo del Sessorium, residência de Santa Helena, mãe do imperador Constantino, próxima ao Latrão. A basílica não foi erguida para honrar a memória dos mártires, como era tradição, mas exclusivamente para preservar parte da cruz de Jesus, juntamente com outras relíquias da paixão que, segundo a tradição, Santa Helena teria trazido para Roma em seu retorno da viagem à Terra Santa em 325. Foi, portanto, concebida desde o início como um grande relicário destinado a preservar preciosos testemunhos da paixão de Jesus. A basílica é chamada “em Jerusalém” devido à presumida presença de terra consagrada do monte Calvário, que foi colocada na base dos alicerces, terra transportada em navios juntamente com as próprias relíquias da cruz. Por essa razão, a igreja foi chamada, desde a Idade Média, simplesmente de “Hierusalem” e para a devoção popular visitar essa basílica significava pôr os pés na própria cidade santa de Jerusalém. Tem a dignidade de uma basílica menor.
Em 1983, o então Cardeal Joseph Aloisius Ratzinger, futuro Papa Bento XVI, pregou os exercícios espirituais da Cúria Romana a pedido do Papa São João Paulo II. As meditações que estão contidas hoje no livro O caminho pascal fazem uma analogia da cidade de Roma com a Terra Santa e justamente a Basílica de Santa Cruz em Jerusalém é vista como a Jerusalém mística da cidade de Roma.
CARACTERÍSTICAS DO TITULUM CRUCIS
A placa feita da árvore nogueira tem 25×14 centímetros, 2 centímetros de espessura e pesa 687 gramas. Está inscrita de um dos lados em três linhas, a primeira delas praticamente destruída. A segunda utiliza letras gregas e escrita reversa, e a terceira, em letras latinas, também com escrita reversa.
Em 1997, o autor e historiador alemão Michael Hesemann investigou a relíquia e apresentou-a a sete especialistas em paleografia hebraica, grega e latina. Segundo ele, nenhum dos especialistas encontrou qualquer indício de falsificação antiga ou medieval. Todos eles dataram o objeto entre os séculos I e IV, com a maioria preferindo (e nenhum excluindo) o século I. Hesemann concluiu que é possível que o titulus crucis seja de fato uma relíquia autêntica.
Carsten Peter Thiede sugeriu que é provável que o titulus crucis é uma parte genuína da vera cruz, escrito por um escriba judeu. Ele cita que a ordem das línguas na placa coincide com o que seria historicamente plausível e não com a ordem revelada nos relatos do Novo Testamento, o que certamente não aconteceria se o objeto fosse uma falsificação medieval.
O titulo da cruz testemunha uma profissão de fé na identidade de Jesus, Ele é o homem ao que título “Nazareno” faz referência, mas é alguém diferenciado, pois o termo “Rei” se refere à unção, pois reis eram ungidos. “Ungido” é o significado de “Cristo” em grego e “Messias” em hebraico. Por fim, o nome de IAWE revelam o verdadeiro Deus.
*Padre Reinaldo Bento é sacerdote incardinado na Diocese de Osasco (SP).