A Sagrada Face de Manoppello

Paul Badde, famoso vaticanista já falecido, publicou um livro que tornou mais conhecida uma possível relíquia do Senhor: o Véu de Manoppello. Segundo a opinião de alguns, seria um dos véus de Verônica, já que certa tradição diz que a face de Cristo se reproduziu nas três dobras do véu, quando ela enxugou o rosto de Jesus no caminho do Calvário. Essa imagem do Senhor se mistura com a pesquisa de várias outras relíquias, como o Santo Sudário e outras faces em véus atribuídos a Verônica.

A tradição que envolve o “Santo Volto” baseia-se no relato parcialmente lendário de Frei Donato da Bomba, em sua Relatione Historica, de 1640. Segundo essa tradição, o ícone apareceu pela primeira vez em Manoppello, em 1506, abandonado por um peregrino “com um rosto angelical” nas mãos de Giacomo Antonio Leonelli. A família Leonelli guardou zelosamente a relíquia por mais de um século, até que uma das herdeiras, uma certa Marzia Leonelli, entregou o Véu a Donato Antonio De Fabriciis como resgate por seu marido, que estava preso em Chieti.

Como o ícone se encontrava em condições precárias, De Fabriciis incumbiu o Padre Clemente da Castelvecchio de supervisionar sua restauração. O Padre Clemente removeu o excesso de tecido ao redor do rosto impresso e confiou a organização do restante a Frei Remigio da Rapino, que, entre outras coisas, criou a requintada moldura de nogueira e inseriu os dois painéis de vidro protetores. Posteriormente, em 1638, De Fabriciis confiou a relíquia aos padres capuchinhos, que a colocaram em sua igreja. A escritura formal de transferência, que constitui a primeira prova documental da presença da imagem sagrada em Manoppello, é datada de 1646 e contém o já mencionado relato de Frei Donato.

A imagem é considerada “aqueropita”, do grego, isto é, “não feita por mãos humanas”, como outras relíquias famosas desse tipo, incluindo o Sudário de Turim, o Santo Rosto de Lucca e a imagem da Virgem impressa no manto de São João Diego, conhecida como Nossa Senhora de Guadalupe. A esse respeito, porém, existem estudos oficiais discordantes. Um exame realizado em 1997 pelo professor Donato Vittore, da Universidade de Bari, demonstrou que as fibras do Véu não apresentam qualquer tipo de pigmento e que a imagem é idêntica em ambos os lados do tecido, o que demonstraria que a imagem não foi pintada.

O professor Giulio Fanti, da Universidade de Pádua, demonstrou, em um exame realizado em 2001, que encontrou vestígios de algumas substâncias coloridas em alguns fragmentos do tecido, em certos detalhes anatômicos, mantendo ainda a hipótese de que a imagem, em sua totalidade, é de natureza aqueropita. Saverio Gaeta, em um livro intitulado Il Volto del Risorto, escrito em 2005 para a revista Famiglia Cristiana, justifica a descoberta de vestígios coloridos com a hipótese de um retoque realizado na Idade Média para dar maior intensidade ao olhar do rosto.

Não foram permitidas amostras para testes laboratoriais a fim de determinar o material do véu, e um artigo recente conclui que o linho deve ser considerado o material mais provável. Alega-se que o tecido é feito de bisso, uma fibra natural rara do molusco bivalve Pinna nobilis, tecida em seda marinha e usada por povos antigos, principalmente na região do Mediterrâneo.

Paul Badde, correspondente do Vaticano para o Die Welt, afirma que esse é um tipo de tecido que normalmente só seria encontrado nos túmulos de faraós egípcios. Contudo, o tecido de bisso, ou seda marinha, nunca foi exclusivo dos antigos egípcios e era considerado um tecido de alta qualidade feito, na Antiguidade, pelos fenícios, gregos e romanos; durante a Idade Média, pelos franceses e italianos; e, ainda hoje, pelos sardos.

Antonio Bini, em uma reportagem sobre o santo véu, recolheu o seguinte testemunho vindo de São Pio de Pietrelcina: “Foi o próprio Pe. Domenico a relatar que, anos antes, ao contar ao Padre Pio o seu encontro com a Santa Face, o santo de Pietrelcina observou: ‘É o maior milagre que temos’” (As vidas paralelas do Padre Pio e do Padre Domenico da Santa Face, por Antonio Bini).

A face é, para todos nós, a porta de entrada na personalidade e no mundo interior de uma pessoa. Essa relíquia, assim como o Santo Sudário, toca os fiéis por apresentar uma porta. Ao mesmo tempo, por ser uma porta, não é a aparência que apresenta o Tesouro que se encontra no interior. Já quando Deus ordenou a Moisés construir o Tabernáculo no deserto, ele era pobre por fora, mas rico por dentro, onde realmente se manifestava a presença de Deus.

A humanidade de Jesus, ainda que pudesse ter suas particularidades, nunca foi o mistério mais rico que se encontra no interior de Cristo. Essas riquezas só podem ser descobertas quando alguém compreende que Jesus é uma pessoa viva e que podemos nos relacionar com Ele. A história do culto da Sagrada Face tem essa característica: sempre a Face foi uma porta.

Em 1º de setembro de 2006, S.S. o Papa Bento XVI, em visita ao Santuário de Manoppello, disse: “Todos procuramos o Rosto do Senhor, e é este o sentido de minha visita a Manoppello: um rosto que juntos tentamos conhecer sempre melhor, e de que encontramos esta força de amor e de paz que nos mostra também o caminho de nossa vida.”

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