2 de novembro é um dia para rezar, refletir e comemorar
No dia 2 de novembro, a Igreja Católica Apostólica Romana celebra a Comemoração de Todos os Fiéis Defuntos. Na liturgia, a Igreja mostra que essa é uma data propícia para que os cristãos rezem pelos seus entres falecidos, mas também reflita sobre a morte e a esperança na ressurreição.
“Lembrai-vos também, na vossa misericórdia, dos nossos irmãos e irmãs que adormeceram na esperança da ressurreição e de todos os que partiram desta vida; acolhei-os junto a vós na luz da vossa face”, reza o sacerdote que preside a Missa nesse dia.
Trata-se de uma celebração muito antiga da Igreja Católica. Há indícios de que, já no século II, os cristãos rezavam e celebravam a Eucaristia pelos seus defuntos. No início eram recordados no terceiro dia do enterro e, depois, no aniversário de morte. A seguir, no sétimo e no trigésimo dia.
O Abade Odilo, de Cluny (994-1048), exigiu, no ano 998, que o então chamado Dia de Todas as Almas fosse celebrado em 2 de novembro, em todos os mosteiros sob a sua jurisdição. Hoje, a liturgia propõe várias missas nessa data, a fim de ressaltar o mistério pascal e a vitória definitiva de Jesus sobre a morte.
A caminho da plenitude
“O Dia de Finados também nos lembra a importância da oração pelos que partiram. A Igreja nos ensina a rezar pelos nossos irmãos e irmãs falecidos, pedindo a Deus que os purifique de suas faltas e os acolha em seu Reino. A Sagrada Escritura nos oferece vários exemplos de intercessão pelos mortos”, explica Dom Anuar Battisti, arcebispo emérito de Maringá (PR).
Em seu artigo, ele recorda figuras bíblicas como Judas Macabeu, que “mandou oferecer um sacrifício pelos mortos, para que fossem absolvidos de seus pecados” (2Mc 12,46). Dom Anuar explica que essa passagem “expressa a fé judaica, que foi transmitida à tradição cristã, sobre a eficácia das orações em favor dos falecidos”.
“Nós, como Igreja peregrina, estamos unidos à Igreja triunfante, composta pelos santos no Céu, e à Igreja padecente, composta pelas almas no Purgatório, em uma grande comunhão de santos. Nossa oração, nossas missas e nossos sacrifícios podem ajudar aqueles que ainda precisam de purificação para entrar na plenitude da comunhão com Deus. Essa é uma grande obra de misericórdia que somos chamados a realizar”, continua Dom Anuar.
Além disso, ele salienta que o Catecismo da Igreja Católica nos ensina que “A Igreja desde os primeiros tempos honrou a memória dos defuntos e ofereceu sufrágios em seu favor, em especial o sacrifício eucarístico” (1032).
É possível viver o luto serenamente?
Finados é um dia que pode ser vivido de maneiras diferentes por cada um. Para alguns é um momento de encontro, de homenagens e de conexão com as lembranças das pessoas que partiram; para outros, pode ser um dia de muita saudade, tristeza e até de vontade de ficar sozinho e em silêncio.
“Acredito que podemos viver essa data com mais serenidade quando deixamos de exigir de nós mesmos que estejamos bem o tempo todo. Não precisamos esconder a tristeza, nem transformar a saudade em algo que precisa ser superado. Podemos visitar um lugar significativo, olhar fotografias, conversar sobre quem partiu ou simplesmente”, disse, em entrevista à reportagem, Pryscila Simieri, psicóloga clínica e educadora. Ela falou sobre a importância de lembrar que o luto não é linear e a data pode mobilizar sentimentos que pareciam já superados.
“Acredito que uma das coisas mais difíceis do luto é aprender a viver em uma realidade na qual alguém tão importante já não está fisicamente presente. Não perdemos apenas uma pessoa, muitas vezes perdemos também os planos que fazíamos com ela, a rotina compartilhada, a sensação de segurança e até de certa forma, a maneira como nos reconhecíamos no mundo”, continuou.
Pryscila disse, ainda, que cada vínculo é único e, por isso, cada luto também é: “Não cabe a ninguém determinar quanto tempo uma pessoa pode sofrer, comparar dores ou dizer que ela precisa ser forte. Muitas vezes, essa cobrança social faz com que a pessoa enlutada se sinta ainda mais sozinha”.
Presença e acolhida
Profissionais da área da saúde são unânimes em orientar que buscar ajuda psicológica é fundamental quando há um sofrimento intenso e persistente ou quando a pessoa encontra dificuldades para retomar atividades importantes da vida. “O acolhimento também pode vir de familiares, amigos, grupos de apoio e serviços de saúde. É importante entender que pedir ajuda não significa fraqueza, pelo contrário, é reconhecer que não precisamos atravessar todos os momentos difíceis sozinhos”, explicou a psicóloga.
“Acho importante compreender que, diante de uma perda muito grande, nem sempre a pessoa consegue enxergar esperança imediatamente e nem devemos exigir isso dela. Em alguns momentos, conseguir levantar da cama, tomar um banho, alimentar-se ou aceitar a companhia de alguém já representa um esforço enorme”, continuou.
Pryscila disse, também, que a esperança não precisa significar esquecer quem partiu, deixar de sentir saudade ou encontrar rapidamente um sentido para o que aconteceu: “Às vezes, ela começa na presença de alguém que oferece escuta, na possibilidade de retomar uma atividade significativa ou na descoberta de que é possível sentir tristeza e, ainda assim, experimentar momentos de afeto e alegria. É possível construir uma nova relação com as lembranças, preservar o amor e, gradualmente, encontrar maneiras de seguir vivendo”.
Espiritualidade e busca de sentidos
Pryscila ressaltou a importância da espiritualidade como fonte de acolhimento e sustentação durante o luto para muitas pessoas: “Ela pode ajudar a construir sentidos, encontrar conforto, fortalecer vínculos comunitários e lidar com perguntas muito difíceis sobre a vida e a morte, mas considero fundamental respeitar a maneira como cada pessoa compreende essa experiência. Para algumas, a espiritualidade está ligada à religião e à fé; para outras, está na conexão com a natureza, nas relações humanas, nos valores que orientam a vida ou nas lembranças de quem partiu”.
Em sua homilia, na Comemoração dos Fiéis Defuntos de 2025, o Papa Leão XIV lembrou que “A fé cristã, fundada na Páscoa de Cristo, ajuda-nos a viver a memória não apenas como uma lembrança do passado, mas, sobretudo, como uma esperança futura. Não se trata tanto de olhar para trás; trata-se, antes, de olhar para frente, para a meta do nosso caminho, para o porto seguro que Deus nos prometeu, para a festa sem fim que nos espera”.