Nunca antes na história do nosso país estivemos em um momento de decisões tão fortes e acaloradas. O Brasil vai às urnas em meio a um cenário de polarização endêmica e aguda, desconfiança nas instituições que zelam pela ordem e uma campanha marcada pela desinformação/difamação. Escolhemos nossos rumos em um momento em que o mundo também se reorganiza, haja vista as inúmeras tensões geopolíticas, crises econômicas e a erosão do diálogo público que tornam o exercício do voto mais difícil e, ao mesmo tempo, mais exigente.
Com o apoio bíblico-litúrgico deste período, queremos apresentar um pano de fundo inquietante e necessário para este momento. O Evangelho do 27º domingo fala de uma vinha que, cercada de todos os cuidados, produziu apenas agraço (cf. Mt 21,33-43). A imagem ecoa com força em tempos eleitorais: uma nação que recebeu tanto (recursos, talentos, história) e que tantas vezes deixa de produzir os frutos de justiça que dela se esperam. A pergunta que a parábola lança não é sobre os outros, mas sobre nós: que frutos temos dado?
A liturgia também traz a célebre distinção entre o que é de César e o que é de Deus (cf. Mt 22,15-21). Não se trata de separar fé e política, mas de lembrar que a cidadania terrena não esgota a vocação humana. O cristão é chamado a cumprir seus deveres de cidadão sem abrir mão de sua consciência. Numa campanha em que se confundem promessas e princípios, a lição é de sobriedade: pagar o que se deve, respeitar as autoridades, mas não entregar a Deus o que pertence ao Estado, nem ao Estado o que pertence a Deus.
Se formos pensar à luz da Palavra todo o nosso contexto de vida, o 30º domingo é, talvez, o mais contundente. A primeira leitura ordena: não maltratarás o estrangeiro, não prejudicarás a viúva e o órfão (cf. Ex 22,20-26). O Evangelho resume toda a lei no amor a Deus e ao próximo (cf. Mt 22,34-40). Em um país com milhões de pessoas à margem, a mensagem é direta: nenhum projeto político é digno se não coloca os mais vulneráveis no centro. A política, em seu sentido mais nobre, é serviço e o critério último de qualquer governo é o que ele faz pelas pessoas, em especial às mais vulneráveis.
Lembremos que no dia 12 a Festa de Nossa Senhora Aparecida, padroeira do Brasil, recorda-nos que a fé deste povo nasceu da humildade, uma imagem simples encontrada por pescadores (cf. Lc 1,46-48). Ao longo de outubro, a devoção do Rosário convida à oração pela paz, em um tempo em ela parece escassa.
Ao aproximar-se das urnas, o eleitor cristão é chamado a mais do que escolher um nome; é chamado a rejeitar a mentira, a perdoar adversários, a lembrar que ninguém vive para si apenas (cf. Rm 14,7). O voto é uma forma de dizer para quem se vive. Que outubro encontre o Brasil não apenas nas urnas, mas no coração aberto à Palavra que transforma e que qualquer que seja o resultado prevaleça a paz que excede todo entendimento (cf. Fl 4,7).
NOTAS MARIANAS
Rosário de Nossa Senhora
“A prece do santo Rosário, para o católico consciente, não é uma fórmula de orar, mas uma escola de espiritualidade mariana, pela qual se chega a uma interioridade do mistério redentor e santificador da vida, Jesus Cristo, iniciado em Maria e terminado na ressurreição.” (Elias Leite. O Rosário de Nossa Senhora. 6ª ed. São Paulo: Ave Maria, p. 27, 2005.)