A voz de Deus que reacende a Esperança

“A esperança não decepciona.”
(Rm 5,5)

“A esperança
Tece a linha do horizonte
Traz tanta paz
Em reluzente e doce olhar
Que nos conforta
Quando o mar não é tão manso
Quando o que resta
É só o frio sem luar”
(Flávia Wenceslau)

Setembro é um tempo propício para a escuta. É o mês em que a Igreja, como mãe e mestra, recorda-nos, de modo mais enfático, que a Sagrada Escritura é o coração palpitante de sua vida e missão. Não celebramos apenas um livro ou uma coleção de livros, celebramos o diálogo eterno de Deus com a humanidade, que se prolonga nas páginas inspiradas.

Como ensina o Concílio Vaticano II, na Constituição Dei Verbum (13), “As palavras de Deus, expressas por línguas humanas, fizeram-se semelhantes à fala humana, assim como o Verbo do Pai eterno, assumindo a carne da fraqueza humana, fez-se semelhante aos homens”. O Deus infinito, que habita em luz inacessível, inclina-se à nossa condição, veste-se com o nosso idioma e fala com a nossa gramática para que possamos compreendê-lo. É a condescendência amorosa de um pai que se abaixa até o berço de seus filhos para lhes contar histórias de salvação.

A Bíblia é, ao mesmo tempo, memória e profecia, registro da fidelidade de Deus e testemunho da fragilidade humana. Nela vemos o Senhor que, desde Abraão até o “sim” de Maria, mantém-se fiel à aliança, ainda que o povo, muitas vezes, desvie o coração. É a crônica do Deus que promete e cumpre e da criatura que promete e esquece, mas que, reerguida pela misericórdia, volta sempre ao colo do Pai.

Como disse Santo Agostinho, “A Sagrada Escritura é carta enviada por Deus para que nós, que vivemos no exílio, não percamos o caminho de casa”. Ela é mais que orientação, é alimento para a fé, é água para a sede, é fogo para o frio da alma. Quando a noite do mundo parece engolir o horizonte, a Palavra é o luzeiro que aponta o rumo e nos recorda que a última palavra não é da escuridão, mas da luz.

Aqui entra a esperança não como sentimento vago, mas como virtude teologal enraizada na promessa de Deus. São Paulo garante: “A esperança não decepciona” (Rm 5,5), porque o fundamento dela não está em nossos méritos, mas no amor de Deus “derramado em nossos corações pelo Espírito Santo”. É a esperança que nasce da escuta da Palavra, cresce na meditação e floresce em obras concretas de amor.

Neste Mês da Bíblia somos chamados não apenas a abrir o Livro, mas a deixar que ele nos abra. A Palavra não é um objeto para ser decorado, mas uma voz para ser refletida, rezada, incorporada em nossa existência; não é um texto para ser apenas lido, mas um olhar para ser sustentado.

Guiados por essa Palavra inspirada, aprendemos a atravessar desertos, a enfrentar tempestades e a esperar contra toda esperança. Porque quem se deixa conduzir por ela caminha com Cristo e descobre que mesmo nas noites mais densas há sempre uma luz que não se apaga, a luz da esperança que jamais decepciona.

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