O Livro de Atos dos Apóstolos, escrito por São Lucas, narra a vivência fraterna dos primeiros cristãos, marcada pelo amor ágape.
“Ágape” é um termo de origem grega que indica um amor fundado e plasmado sobre a fé, descendente de Deus, oblativo e altruísta. É o amor incondicional que busca o bem do próximo sem interesses. É associado ao amor divino e à caridade fraterna.
Vejamos como o amor fraterno marcou a vida, a partilha e a unidade dos primeiros cristãos e como, nos dias atuais, o exemplo de amor das primeiras comunidades pode ajudar a Igreja em sua vivência fraterna.
No contexto filosófico e bíblico, tanto na Grécia Antiga como nas Sagradas Escrituras, diferenciava-se o termo “ágape” de “eros” e do amor “philia” (amor de amizade). Bento XVI, em sua Encíclica Deus caritas est sobre o amor cristão, de 2005, explica que as duas formas fundamentais do amor – ágape e eros – estão relacionadas ao amor divino. Em Deus, elas se fundem: Deus ama sua criatura com o amor apaixonado eros e ao mesmo tempo com doação total e gratuita ágape, que perdoa e salva, ensina o Papa.
A Igreja primitiva foi profundamente impactada por esse amor da Trindade. Ela nasceu e foi impulsionada pelo amor de Deus: do Pai que deu seu Filho para nossa salvação (cf. Jo 3,16; 1Jo 4,9-10 ), de Jesus que provou seu amor ao extremo na Cruz (cf. Rm 5,8) e selou dando a si mesmo “Espírito de amor” (Rm 5,5).
São Lucas deixa o belo testemunho da unidade espiritual e material na vivência fraterna dos novos cristãos ao escrever que “A multidão dos fiéis era um só coração e uma só alma. Ninguém considerava suas as coisas que possuía, mas tudo entre eles era posto em comum” (At 4,32). Segue o texto lucano: “E perseveravam na doutrina dos apóstolos, na vida da comunidade, na fração do pão, e nas orações” (At 2,42).
A experiência da vivência fraterna dos primeiros cristãos revela a força do Evangelho quando vivido com as duas faces do amor – eros e ágape – e quando abrange a integralidade do ser humano. Com efeito, assim como eles, não devemos amar só com palavras e/ou com um mero sentimento afetivo, mas como amor caridade: efetivo, sobrenatural, sacrificial, na doação total de si, em atitudes concretas e gratuitas de bem ao próximo, tendo claro que o amor ao próximo tem seu fundamento no amor a Cristo: “Foi a mim que o fizestes” (Mt 25,40).
O Evangelho é e sempre será a Boa-Nova apresentada pela Igreja como resposta para as necessidades da sociedade. O mundo atual enfrenta desafios marcados, sobretudo, pelo relativismo e pelo individualismo, cujo remédio não está em replicar mecanicamente a estrutura do início do cristianismo, mas na vivência do mesmo Espírito que os conduzia, em que a vida de oração (sacramental), a comunitária (koinonia), o anúncio da Palavra (kerigma) e a assistência material (diaconia) preparavam os fiéis para darem o testemunho supremo, o martírio por amor a Cristo e à sua Igreja.
Concluímos estas reflexões confiando ao Espírito Santo, verdadeiro protagonista da missão, nossos corações e as comunidades do nosso tempo para que se renove a vivência de um ardente amor fraterno, pois só assim a Igreja de hoje dará ao mundo um testemunho credível de amor desejado por Jesus quando orou ao Pai: “Para que todos sejam um, como tu, ó Pai, o és em mim, e eu, em ti; que também eles sejam um em nós, para que o mundo creia que tu me enviaste” (Jo 17, 21).
*Rosa Maria Dilelli Cruvinel é formada em Física pela Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras de Guaxupé (MG), em Teologia pela Faculdade Canção Nova em Cachoeira Paulista (SP) e é leiga consagrada na Comunidade Canção Nova.