Entre pedidos, agradecimentos e histórias de vida, a devoção a Nossa Senhora Aparecida atravessa gerações e revela uma fé que encontra em Maria a mãe que acolhe, intercede e conduz a Jesus
Chuva, estrada, cansaço e quilômetros percorridos não são capazes de afastar aqueles que chegam a Aparecida (SP). No Santuário Nacional, vê-se um povo que traz terços, velas, fotografias e objetos nas mãos; orações nos lábios; e, no coração, histórias que, muitas vezes, só podem ser explicadas pela fé.
Foi em um sábado chuvoso, 12 de setembro de 2026, durante a Romaria da Diocese de Santo Amaro, que Maria José da Silva Souza chegou mais uma vez à Casa da Mãe. Integrante da Paróquia São José, ela não foi apenas para pedir, mas também para agradecer.
“Estar em Aparecida, para mim, é sempre uma oportunidade de agradecer a Deus, porque eu sou muito grata a Nossa Senhora Aparecida. Sempre fui, mas alcancei uma graça que foi tudo na minha vida. Minha filha está aqui, a prova viva disso”, conta.
A filha de Maria José tinha apenas 3 anos quando ficou gravemente doente. Depois de dois meses de internação, a família recebeu dos médicos a notícia de que não havia mais o que fazer. “A médica falou para mim: ‘Mãe, vai para casa e reza, porque para ela, só um milagre’.”
Naquele momento, a família recorreu à oração. Hoje, aos 23 anos, Cícera da Silva acompanha a mãe na devoção. “Ela também é muito devota de Nossa Senhora Aparecida. Lá em casa todos somos gratos e agradecemos a ela todos os dias por essa graça alcançada. Porque foi uma graça, um milagre”, afirma Maria José.
A história se repete, com diferentes personagens, em milhares de famílias brasileiras. Há quem chegue ao Santuário para agradecer por uma cura, pedir um emprego, rezar por um filho, cumprir uma promessa ou simplesmente permanecer alguns minutos diante da pequena imagem encontrada nas águas do rio Paraíba do Sul, em 1717.
A fé que se aprende em família
A devoção mariana também atravessa gerações. Durante a romaria da Paróquia Nossa Senhora Aparecida, da Vila Zatt, na zona oeste de São Paulo, Maria José Spinelli chegou ao Santuário Nacional acompanhada do esposo, Otávio Spinelli. A enfermeira recorda que aprendeu a amar Nossa Senhora em casa, seguindo o exemplo dos pais.
“Eu sou devota de Nossa Senhora desde o tempo do meu pai. Meu pai era devoto, minha mãe era devota e eu continuei sendo devota”, relata Maria José.
Para ela, a história de sua família está profundamente ligada à fé. Entre as graças que atribui a Nossa Senhora está a recuperação do primogênito, Rodrigo, hoje advogado, com 46 anos e a saúde restabelecida.
Segundo seu relato, Rodrigo quase morreu quando ainda era recém-nascido. Depois de receber dos médicos a informação de que não havia mais o que fazer, Maria José voltou para casa e passou a noite com o filho nos braços.
“Eu falei assim: ‘Nossa Senhora, eu vou entregar meu filho nas mãos do seu Filho. Que a Senhora peça para Ele fazer a vontade Dele, mas salve o meu filho’.”
Na manhã seguinte, Maria José encontrou o filho vivo e sorrindo. “Meu filho é o meu milagre, eu olho para ele todos os dias. Nossa Senhora é tudo na minha vida: ela é mãe e, como mãe, abriu as portas para mim e me deu meu filho de volta.”
A experiência de Maria José também está ligada à história de seu pai. Na década de 1970, em meio às dificuldades econômicas, ele teria saído de casa decidido a encontrar trabalho. Caso não conseguisse, pensava em recorrer ao crime para alimentar a família.
Entretanto, voltou para casa trazendo um pequeno decalque, semelhante a um adesivo, com a imagem de Nossa Senhora Aparecida.
“Chegou com o decalque em casa, colocou no espelho e falou para a minha mãe: ‘Essa aqui é a minha arma!’ No outro dia ele conseguiu um ótimo trabalho na cidade de Cubatão, na Cosipa. Meu pai trabalhou nessa empresa e até se aposentou nela.”
Para a devota, essa história tornou-se parte de sua herança espiritual. “Nossa Senhora Aparecida para mim é tudo. E a fé alcança, né? Alcança. Eu sou a prova de que a fé alcança. E a fé de uma mãe pedindo para outra mãe… não tem como.”
Maria não ocupa o lugar de Jesus
Para a Igreja Católica, a devoção a Maria não substitui Cristo. Pelo contrário, está relacionada à sua missão como mãe de Jesus e à sua participação na história da salvação.
A tradição da Igreja apresenta Maria como aquela que aponta para o Filho. Nas Bodas de Caná, narradas no Evangelho de São João, ela percebe a necessidade dos noivos e apresenta a situação a Jesus. A partir desse episódio, a tradição cristã compreende a dimensão intercessora de Maria. O Santuário Nacional explica que recorrer a Nossa Senhora significa recorrer à Mãe de Cristo como auxiliadora e intercessora junto a Jesus.
A devoção mariana, portanto, não termina em Maria, mas conduz ao próprio Cristo. A Academia Marial de Aparecida destaca que o cultivo da espiritualidade mariana deve estar relacionado ao conhecimento teológico, evangelizador e pastoral sobre Nossa Senhora e sobre o mistério de Deus realizado por meio dela.
É também nesse sentido que o título de Nossa Senhora da Conceição Aparecida ganha significado. A imagem encontrada no rio, em 1717, representa a Imaculada Conceição, isto é, Maria concebida sem o pecado original. Ao longo dos séculos, a devoção cresceu e transformou Aparecida em um dos principais destinos de peregrinação católica do país. A Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB) recorda que, em 1984, a basílica foi oficialmente declarada Santuário Nacional.
Do povo simples aos grandes nomes
A devoção não se restringe a um grupo social. Ela se manifesta tanto na simplicidade daqueles que chegam de ônibus, depois de horas de viagem, quanto nas histórias de personalidades conhecidas pelos brasileiros.
Na Sala das Promessas, objetos pertencentes a pessoas famosas convivem com milhares de testemunhos anônimos. Entre eles estão itens relacionados a nomes como Ayrton Senna, Ronaldo Fenômeno, Renato Aragão, Xuxa, Daniel e Marcos Mion.
Entre os objetos ligados a Ayrton Senna estão uma luva e uma réplica de seu conhecido capacete. O espaço reúne peças oferecidas por devotos como expressões de agradecimento, pedidos e testemunhos de fé. Ali, histórias de pessoas anônimas encontram-se com as de figuras conhecidas do país, demonstrando que a devoção a Nossa Senhora Aparecida alcança diferentes trajetórias e realidades.
Uma Bíblia a céu aberto
No mesmo dia 12 de setembro de 2026, enquanto milhares de peregrinos chegavam ao Santuário, outro acontecimento marcava a história da Casa da Mãe: a entrega da Fachada Oeste da Basílica. A cerimônia concluiu o projeto da Jornada Bíblica, iniciado em 2019.
A nova fachada recebeu quase 4 mil metros quadrados de mosaicos, concebidos e executados por 39 mosaicistas ligados ao Centro Aletti, em Roma. As pedras utilizadas vieram de diferentes países, entre eles Brasil, Itália, Grécia e Afeganistão.
A Fachada Oeste é dedicada ao Apocalipse, à segunda vinda de Cristo e ao juízo universal. Entre as cenas representadas estão a Coroação de Maria, a parábola dos talentos, as obras de misericórdia, a parábola das dez virgens e outras passagens bíblicas.
No alto da fachada, a Coroação de Maria aparece como sinal de esperança. Segundo a explicação do próprio Santuário, Maria é apresentada como imagem da Igreja e como aquela que participa, com Cristo, da realização da criação por meio da redenção.
A nova fachada, portanto, não é apenas uma obra de arte. É também uma catequese visual, um convite à contemplação da história da salvação e ao reconhecimento de que Jesus Cristo permanece no centro da fé cristã.
“Quem tem fé, alcança”
De volta ao pátio do Santuário, Maria José da Silva Souza e suas filhas, Cícera e Maria Luiza, permanecem entre os romeiros. Para ela, a peregrinação não termina quando retorna para casa. Todos os anos, volta ao Santuário para agradecer e apresentar a Nossa Senhora as dores de outras pessoas.
“Esse ano eu já vim duas vezes. Sempre que posso, venho agradecer a ela e clamar também pela vida de tanta gente que está nos hospitais, tanta gente que precisa alcançar uma graça”, diz.
É nessa união entre sofrimento e esperança que a devoção a Nossa Senhora Aparecida permanece viva. Uma fé transmitida pelos pais, ensinada pelos avós, aprendida nas comunidades e renovada diante da imagem da Padroeira do Brasil.
Maria José Spinelli resume sua experiência em poucas palavras, repetidas com emoção: “Quem tem fé, alcança. Quem tem fé, alcança!”
Para milhões de brasileiros, chegar a Aparecida significa justamente isso: colocar a própria história diante da Mãe, agradecer pelo caminho percorrido e, mais uma vez, confiar.