Há um “princípio” muito importante a ser seguido no caminho da nossa fé, expresso pelo axioma “Lex orandi, lex credendi”, a saber, “A lei da oração é a lei da fé”. Isso significa que a oração expressa a nossa fé.
A partir desse princípio, vamos analisar a oração da coleta das missas respectivamente da apresentação de Maria (21 de novembro) e da apresentação de Jesus (2 de fevereiro), apresentações acontecidas para ambos no templo de Jerusalém.
A tradição da apresentação de Maria no templo, ainda menina, por parte de seus pais, São Joaquim e Santa Ana, encontra sua origem nos escritos apócrifos, especialmente no Protoevangelho de Tiago, e foi progressivamente acolhida pela liturgia oriental, sendo posteriormente integrada ao calendário romano. Longe de constituir uma afirmação histórico-crítica, a liturgia interpreta esse evento em chave simbólica e teológica, apresentando Maria como figura da total disponibilidade a Deus.
Eis, a seguir, como nesse sentido se expressa a oração da coleta da festa da apresentação de Maria no templo: “Ó Deus, que no dia presente quisestes que a Bem-aventurada sempre Virgem Maria fosse apresentada no templo, digna morada do Espírito Santo, concedei-nos que, pela sua intercessão, sejamos apresentados no templo da vossa glória”. Maria, então, é apresentada no templo porque ela própria se tornará o verdadeiro templo da presença divina, “digna morada do Espírito Santo”. Assim, a liturgia desloca a atenção do lugar sagrado para a pessoa consagrada, em consonância com a teologia bíblica do templo vivo. Nós, cristãos, somos templos do Espírito Santo, conforme nos ensina o apóstolo Paulo: “Não sabeis que sois templo de Deus e que o Espírito de Deus habita em vós?” (1Cor 3,16).
Diferentemente da apresentação de Maria ao templo quando criança, que não está relatada nos evangelhos canônicos, o Evangelho de Lucas (2,22-40) fala de Maria e José que apresentam Jesus, menino de quatenta dias, no templo de Jerusalém para cumprir a lei de Moisés. Eis o sentido teológico dessa apresentação, conforme o texto da coleta dessa festa: “Deus onipotente e eterno, vê os teus fiéis reunidos na festa da apresentação ao templo do teu único Filho feito homem e concede também a nós a graça de sermos apresentados a ti, plenamente renovados no espírito. Por Cristo Nosso Senhor. Amém”.
Analisando o texto de São Lucas, percebemos que no templo Jesus é reconhecido por Simeão e Ana como “luz para iluminar as nações e glória de Israel”. Assim é manifestada, pela primeira vez de modo público, a identidade messiânica de Jesus. Ele é o Senhor que entra no seu templo, conforme anunciado pelo profeta Malaquias (cf. 3,1), antecipando o mistério pascal: aquele que é apresentado ao Pai será, um dia, oferecido plenamente na cruz.
Apesar das diferenças entre as duas festas, a primeira não citada no Evangelho, diferentemente da segunda, ambas apontam para a vocação do cristão, chamado a tornar-se templo do Espírito Santo “apresentando” toda a própria vida a Deus, no exemplo de Jesus e de Maria.
*Lino Rampazzo é doutor em Teologia e professor no curso de Teologia da Faculdade Canção Nova de Cachoeira Paulista (SP)