No artigo anterior foi apresentado o grande acontecimento do Concílio Vaticano II, que transcorreu de 1962 até 1965. Lembramos que o Papa Leão XIV, no mês de janeiro deste ano, iniciou um ciclo de catequeses intitulado “O Concílio Vaticano II através de seus documentos”. O primeiro desses documentos a ser apresentado foi a Constituição dogmática Dei Verbum (a Palavra de Deus) sobre a revelação divina, que ressalta a relação entre Escritura e tradição, a inspiração bíblica, a importância da Palavra de Deus e o incentivo à leitura da Bíblia.
O Papa, na catequese do dia 14 de janeiro, enfatizou a revelação divina como um diálogo de amor e amizade entre Deus e a humanidade, destacando Cristo como a plenitude dessa revelação e a importância da Palavra de Deus na vida da Igreja.
Neste sentido, a Constituição dogmática Dei Verbum ressalta que Deus não transmite apenas ideias, mas busca uma aliança, tratando os seres humanos como amigos e revelando-se em Cristo.
Eis, pois, como se expressa o número 2 desse documento: “Em virtude desta revelação, Deus invisível (cf. Cl 1,15; 1 Tm 1,17), na riqueza do seu amor fala aos homens como amigos (cf. Ex 33,11; Jo 15,14-15) e convive com eles (cf. Br 3,38), para os convidar e admitir à comunhão com Ele”.
Podemos, a esse respeito, citar o seguinte texto do Evangelho de João: “Já não vos chamo servos, porque o servo não sabe o que faz o seu senhor; mas chamei-vos amigos, porque vos dei a conhecer tudo o que ouvi do meu Pai” (15,15).
Comentando essa passagem do quarto Evangelho, Santo Agostinho insiste sobre a perspectiva da graça, a única que nos pode tornar amigos de Deus no seu Filho (cf. Comentário ao Evangelho de João, homilia 86).
Nessa ótica, o Papa afirma que a primeira atitude a cultivar é a escuta, para que a Palavra divina possa penetrar as nossas mentes e corações; ao mesmo tempo somos chamados a falar com Deus não para lhe comunicar o que Ele já sabe, mas para nos revelarmos a nós mesmos. Isso significa que, diante da Palavra de Deus, a primeira atitude não é falar, mas ouvir. Deus toma a iniciativa de se comunicar com a humanidade, por isso, quando lemos a Bíblia, participamos da liturgia ou meditamos a Palavra devemos abrir a mente e o coração para acolher o que Deus quer nos dizer.
A expressão “para que a Palavra divina possa penetrar as nossas mentes e corações” recorda que a Palavra de Deus não é apenas uma informação a ser estudada, mas uma mensagem viva que transforma a pessoa. Como diz a Carta aos Hebreus, a Palavra de Deus é “viva e eficaz” (4,12).
“Somos chamados a falar com Deus” significa que depois de ouvir vem a resposta. A oração cristã é um diálogo: Deus fala e o ser humano responde. Não basta apenas escutar, é necessário entrar em conversa com Deus.
“Não para lhe comunicar o que Ele já sabe”, pois Deus conhece tudo. Ele conhece nossos pensamentos, necessidades, alegrias e sofrimentos antes mesmo que os expressemos, portanto, a oração não serve para informar Deus sobre algo que Ele desconhece.
“Mas para nos revelarmos a nós mesmos”: aqui está o ponto mais original e profundo da frase. Quando falamos com Deus, acabamos descobrindo quem realmente somos. Ao colocar diante de Deus nossos sentimentos, dúvidas, medos, pecados, esperanças e projetos passamos a enxergar nossa própria realidade com mais clareza. A oração torna-se um caminho de autoconhecimento.
Santo Agostinho expressava algo semelhante quando dizia que o encontro com Deus ajuda o ser humano a encontrar a verdade sobre si mesmo.
A reflexões deste artigo não têm a pretensão de apresentar toda a riqueza da Constituição dogmática Dei Verbum; trata-se apenas de um estímulo para analisá-lo, considerando também a facilidade de encontrá-lo integralmente na internet. Pode ser, inclusive, um primeiro passo para valorizar a riqueza espiritual dos documentos do Concílio Vaticano II.