Estimado(a) leitor(a) da Revista Ave Maria, o mês de agosto é marcado pela celebração das inúmeras vocações, entre elas, a vocação familiar. Nesse contexto, a Semana Nacional da Família de 2026 propõe o tema “Família, torna-te aquilo que és” e o lema “O amor jamais acabará” (1Cor 13,8). A partir dessa proposta, quero convidar o leitor a meditar sobre alguns dos novos desafios enfrentados pelas famílias, especialmente a superação da murmuração e do vitimismo.
A murmuração e o vitimismo são atitudes muito presentes na vida humana. Surgem, principalmente, em momentos de dificuldades e sofrimentos ou, simplesmente, quando as coisas não acontecem conforme havíamos planejado. Normalmente, manifestam-se por meio de reclamações constantes, críticas, desânimo ou insatisfação diante das dificuldades. Lembremo-nos, porém, de que o próprio Jesus já dizia: “Nesse mundo terei aflições” (Jo 16,33).
Na Sagrada Escritura, vemos que um dos pecados mais frequentes do povo de Israel durante a caminhada pelo deserto foi justamente a murmuração. Em Êxodo (16,2-8), mesmo após presenciar os prodígios de Deus na libertação do Egito e na travessia do Mar Vermelho, o povo começou a reclamar da falta de alimento, esquecendo-se de tudo o que o Senhor já havia realizado. A murmuração nasce quando deixamos de contemplar as bênçãos recebidas e passamos a olhar somente para os problemas.
Em Números (14,1-11), diante do desafio de entrar na Terra Prometida, o povo novamente reclama e demonstra falta de confiança na promessa de Deus. O medo tomou o lugar da fé, e a murmuração contaminou toda a comunidade. Isso nos ensina que nossas palavras têm força para edificar ou destruir. Uma pessoa que vive reclamando espalha desânimo, enquanto aquela que confia em Deus transmite esperança.
Assim como a oração e o louvor nos aproximam de Deus, a murmuração nos afasta dele e nos conduz a realizar aquilo que o inimigo planejou.
Por isso, precisamos ter muito cuidado para não permanecermos presos a atitudes de murmuração e vitimismo.
A Palavra de Deus afirma que aqueles que murmuram são infelizes: “São murmuradores descontentes” (Jd 1,16). Essa atitude revela um coração ferido pela falta de confiança em Deus. Quando alimentamos reclamações constantes, deixamos de perceber a presença do Senhor agindo em nossa história.
São Paulo nos exorta: “Fazei tudo sem murmurações nem discussões” (Fl 2,14), pois o cristão é chamado a ser luz no mundo, testemunhando a esperança mesmo durante as tribulações. O Catecismo da Igreja Católica ensina que Deus conduz todas as coisas com sabedoria e amor (Catecismo da Igreja Católica, n. 302) e que a esperança sustenta o cristão nas dificuldades (Catecismo da Igreja Católica, n. 1817-1821).
Santo Agostinho ensinava que um coração inquieto somente encontra descanso em Deus: “Fizeste-nos para ti, e inquieto está o nosso coração enquanto não repousa em ti”. Muitas reclamações nascem porque buscamos segurança nas circunstâncias, e não em Deus.
São João Crisóstomo ensinava que a gratidão é a memória viva dos benefícios de Deus e que o coração agradecido permanece firme mesmo durante as provações. Santa Teresa de Calcutá testemunhava que “a alegria é oração, a alegria é força”, mostrando que quem vive unido a Cristo não permite que as dificuldades lhe roubem a paz.
A murmuração enfraquece a comunhão, espalha desânimo e impede que enxerguemos a Providência Divina. A gratidão, por sua vez, fortalece a esperança, inspira os irmãos e abre espaço para a ação do Espírito Santo.
Dentro de nossas famílias, não é diferente. Muitas vezes, ficamos desanimados e sem esperança de que algo possa melhorar. São Tiago também nos exorta a respeito da murmuração nos relacionamentos: “Tende também vós paciência e fortalecei os vossos corações. […] Não vos queixeis uns dos outros” (Tg 5,8-9).
Precisamos permanecer fortes por meio da oração e da meditação da Palavra, buscando sempre aprender com todas as dificuldades que encontramos em nossa missão familiar. Muitas vezes, a dificuldade que Deus permitiu em sua família é exatamente o caminho por meio do qual ele deseja realizar uma obra particular em você.
Somos, portanto, convidados a vigiar nossas palavras. Antes de reclamar, façamos uma breve oração e perguntemos: “Senhor, o que queres me ensinar nesta situação?”. O louvor, mesmo em meio às provações, fortalece a fé e abre espaço para a ação de Deus.
Procuremos substituir cada reclamação por um motivo de agradecimento, lembrando-nos de que Deus continua conduzindo nossa história com amor. Que nossas palavras sejam sempre instrumentos de paz, encorajamento e fé, para que nossa família seja um lugar em que Cristo seja reconhecido por meio da confiança e da gratidão.