Humildade ou Soberda: Qual caminho tenho escolhido?

Entre todos os pecados, há um que se apresenta de modo silencioso, quase invisível, mas profundamente devastador: a soberba. Ela não costuma fazer alarde; instala-se no coração como uma convicção íntima de autossuficiência, como se tudo o que somos e possuímos tivesse origem em nós mesmos. A tradição cristã sempre reconheceu nela a raiz mais remota do mal. Antes da queda visível, antes da desobediência concreta, existe um movimento interior: o afastamento de Deus. Esse afastamento começa na soberba.

A soberba leva a pessoa a sentir-se origem de seus próprios bens materiais e espirituais. É o amor-próprio desordenado que diminui o amor de Deus. Quando o “eu” ocupa o centro, Deus deixa de ser reconhecido como o doador de todo bem. Assim nasce a negligência, aquela série de quedas rápidas e quase imperceptíveis que conduzem, pouco a pouco, à desobediência. A origem do mal está na soberba, sua fase seguinte é a negligência e o último passo é a queda manifesta.

As Escrituras e a tradição espiritual são claras: Deus é o doador de todo bem. São Francisco de Assis insistia vigorosamente nessa verdade. Em suas Admoestações, ele escreveu: “Assim se pode conhecer se o servo de Deus tem o espírito do Senhor: se seu eu não se exaltar, quando Deus realizar por meio dele algum bem – porque o eu é sempre contrário a todo bem –, mas antes se considerar o mais desprezível e se avaliar como menor do que todos os outros homens” (12). Para o Pobrezinho de Assis, tudo o que há de belo e bom na vida procede de Deus. O verdadeiro pobre em espírito é aquele que reconhece em todo bem a operação do Espírito do Senhor.

Entretanto, nossa “carne”, nosso pequeno eu, deseja “sequestrar” os dons de Deus, atribuindo à própria vontade aquilo que é graça. Quantas vezes nos ensoberbecemos por nossas obras, por nosso êxito pastoral, por nossas capacidades intelectuais ou espirituais? Exaltar-se é apropriar-se do que não nos pertence. É esquecer que somos instrumentos, não a fonte.

A soberba é também uma distorção da realidade. Ela impede o reto juízo porque tudo faz convergir para si. Conforme recordava o Papa Francisco, “É próprio do Espírito Santo descentralizar-nos de nosso eu e abrir-nos ao ‘nós’ da comunidade: receber para dar. Não somos nós o centro: somos um instrumento daquele dom para os outros” (audiência-geral, 6 de junho de 2018). A soberba nos fecha no “eu”; o Espírito nos abre ao “nós”.

Não por acaso, a primeira sedução narrada na Bíblia envolve justamente o orgulho: “Sereis como deuses” (Gn 3,1-6). O pecado original nasce da pretensão de autonomia absoluta. Como ensina Santo Agostinho, é a soberba que afasta o homem de Deus e, afastando-o, conduz o ser humano ao pecado. Deus, às vezes, permite que experimentemos nossa fragilidade para nos convencer de que não somos autônomos, mas dependentes dele. Não se trata de desejar o pecado, mas de reconhecer que sem a graça nada podemos.

Como identificar a soberba em nossas vidas? Ela se manifesta de formas sutis: na dificuldade de aceitar correção, na resistência em pedir perdão, na necessidade constante de reconhecimento, no desprezo silencioso pelos outros, na comparação que sempre nos coloca acima, na incapacidade de agradecer verdadeiramente. Também se revela quando nos entristecemos mais por perder prestígio do que por ofender a Deus.

Há ainda uma forma espiritual de soberba, talvez a mais perigosa: a presunção. Quando julgamos que nossas obras nos tornam merecedores da graça, quando pensamos que nossa fidelidade é fruto exclusivo de nosso esforço, quando nos consideramos superiores por praticarmos o bem. O primeiro sinal de que não se possui o Espírito do Senhor é precisamente a soberba e a presunção, pois o presunçoso não reconhece que todos os bens procedem de Deus.

A soberba é porta para outros pecados porque desordena a raiz do coração. Se não reconheço Deus como origem do bem, deixo de confiar nele; se deixo de confiar, passo a agir segundo meus próprios critérios; assim, pouco a pouco, a negligência enfraquece o amor ao bem, até chegar ao desprezo. O amor-próprio desordenado gera frieza espiritual e a frieza abre caminho para toda espécie de infidelidade.

Como, então, viver uma vida humilde?

Primeiramente, cultivando a memória agradecida. A humildade nasce do reconhecimento: tudo é dom. Cada talento, cada oportunidade, cada fruto apostólico é graça. A oração de louvor e ação de graças é um antídoto poderoso contra a soberba.

Em segundo lugar, acolhendo a verdade sobre nós mesmos. Humildade não é negar os dons recebidos, mas reconhecê-los como presentes de Deus, colocados a serviço dos irmãos. É saber-se pequeno e, ao mesmo tempo, amado. É ocupar o próprio lugar sem pretender o lugar de Deus.

Por fim, exercitando a conversão contínua. Assim como a respiração sustenta a vida, a conversão sustenta o cristão. O coração facilmente se endurece, distrai e confunde, por isso é necessário vigiar, examinar-se, pedir luz ao Espírito Santo. Quando percebemos em nós movimentos de vanglória, autossuficiência ou desprezo é hora de retornar ao essencial: “Senhor, tudo vem de ti”.

A soberba promete grandeza, mas produz isolamento. A humildade parece pequena, mas conduz à verdadeira liberdade. Ao reconhecer Deus como fonte de todo bem, libertamo-nos da pesada tarefa de sermos o centro do mundo. Tornamo-nos, então, aquilo que realmente somos: filhos dependentes do Pai, irmãos entre irmãos, instrumentos de um amor que nos precede e nos ultrapassa.

Se a soberba é a raiz do mal, a humildade é o terreno fértil da santidade. Talvez o primeiro passo para vencê-la seja esta simples e sincera oração: “Ó Deus, livra-me da ilusão de ser a origem do bem. Ensina-me a receber tudo como dom e a devolver tudo como louvor”. 

*Frei Augusto Luiz Gabriel, ofm é religioso franciscano da Ordem dos Frades Menores. Natural de Xaxim (SC), atualmente reside na Fraternidade São Pedro Apóstolo, em Pato Branco (PR). Presidente da Fundação Frei Rogério e vice-presidente da Rede Celinauta de Comunicação, atua na gestão de meios de rádio e televisão. Além disso, é guardião da fraternidade, animador das juventudes da Província da Imaculada Conceição do Brasil, responsável pelo Serviço de Animação Vocacional (SAV) local e vigário paroquial

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