No ritual católico atual do matrimônio, estão previstas a bênção e a entrega das alianças, popularmente chamadas de “troca de alianças”, no sentido de um presente oferecido mutuamente pelos noivos.
Historicamente, o uso de anéis em casamentos remonta ao Antigo Egito. Seu simbolismo, porém, é muito variado e específico. No judaísmo, foi no período medieval que se determinou o uso de alianças lisas, de ouro ou prata, sem incrustações de pedras, ranhuras ou formatos incomuns.
Essa informação poderia colocar em dúvida a autenticidade de uma relíquia conhecida como Santo Anello, o anel que, segundo a tradição, a Santíssima Virgem teria recebido de São José por ocasião de seu casamento. Contudo, não existe um relato documental único e integral sobre a maneira como eram realizados os casamentos judaicos. As Sagradas Escrituras não descrevem esse ritual, embora seus elementos jurídicos, com algumas variações, já existissem.
A arqueologia encontrou inúmeros anéis, confeccionados com materiais diversos, na Terra Santa. Não se sabe, contudo, para quais finalidades eram utilizados. Sabe-se que os rituais ou contratos matrimoniais não se limitavam a uma cerimônia realizada em um único momento.
Ainda hoje, no âmbito da Igreja, muitas pessoas se referem ao casamento apenas como “bênção”. Em razão de uma formação catequética insuficiente, algumas desconhecem que, além de sacramento, o matrimônio também possui natureza contratual, pois não é recebido individualmente. Além disso, o casamento existe em sua forma natural entre os não batizados. Para os batizados, porém, Cristo o elevou à dignidade de sacramento.
Na Antiga Aliança, o casamento ainda não havia sido elevado à condição sacramental, mas já possuía elementos religiosos. A cerimônia também compreendia etapas legais que precisavam ser cumpridas.
O Santo Anello encontra-se na Itália. Estudos indicam que sua origem pode ser coerente com a Terra Santa do século I. Feito de calcedônia, o objeto, no que se refere à tradição judaica, assemelha-se à chamada “moeda de aquisição”, que o noivo deveria oferecer à noiva. Na forma original do ritual, utilizava-se uma moeda, posteriormente substituída por um presente de valor.
Muitos costumes antigos foram codificados tardiamente pelos rabinos. Por isso, práticas anteriormente permitidas passaram a ser proibidas pelos costumes posteriores.
A relíquia está preservada em uma capela da Catedral de San Lorenzo, em Perugia, na Itália. Para abrir o relicário, guardado em um cofre, são necessárias 14 chaves.
A relíquia possui uma longa história. Em 985, Ranieri, um ourives de Chiusi, teria adquirido o anel de um comerciante judeu. Ele permaneceu em Chiusi até 1473. Naquele ano, frei Winter, de Mainz, roubou-o com a intenção de levá-lo para seu país. Durante o percurso, porém, foi impedido de prosseguir por causa de um nevoeiro considerado prodigioso, em Perugia, e decidiu deixar o Anel Sagrado naquele local. Após o roubo, teve início um conflito promovido por Chiusi, cujo exército era comandado por Anton Felice Dei.
Além do anel conservado em Perugia, existem outros dois anéis atribuídos a São José na Europa: o anel de noivado, conservado na Catedral de Notre-Dame, em Paris, e o anel “diário”, guardado na Igreja de São José, em Messina.
O anel de Messina chegou às margens do estreito no início do século XVI, quando o nobre Dom Filippo La Rocca o recebeu como presente do arcebispo de Barcelona. A relíquia permaneceu por quase um século no Palácio La Rocca, em Messina. Posteriormente, em 9 de abril de 1618, foi doada por Dom Cristoforo La Rocca à Igreja da Confraria dos Carpinteiros.
Apesar dos efeitos do tempo, a importante relíquia permanece conservada na Igreja de São José, em Messina. Durante muitos anos, era conduzida em procissão no dia 19 de março, juntamente com a imagem de prata do santo. Embora pouco conhecido, o anel confirma a importância do patrimônio histórico-religioso da cidade de Messina, que deve ser valorizado e promovido.
O historiador e escritor de Chiusi Fulvio Barni também relata: Foi esculpido em um pedaço de ônix. Seu trabalho é bastante modesto e, portanto, não podemos chamá-lo de uma verdadeira joia, mas, na realidade, para os fiéis, é um tesouro de valor inestimável. Refiro-me ao que a lenda e a tradição acreditam ser o anel com o qual Maria de Nazaré, mãe de Jesus, se casou com José.
Conservado em Chiusi por quase cinco séculos, o anel encontra-se atualmente na Catedral de San Lorenzo, em Perugia, na Itália. A primeira menção oficial à relíquia está registrada em um documento datado de 25 de maio de 1474, elaborado pelo então chanceler de Chiusi, Leonetto Cavallini. A ausência de registros anteriores provavelmente se deve à inexistência, nos arquivos históricos municipais, de seções documentais anteriores a 1400.
A relíquia atraía grandes multidões de peregrinos, proporcionando considerável retorno econômico à cidade. Talvez essa tenha sido a verdadeira motivação para o roubo. O anel era exposto à veneração dos fiéis três vezes ao ano: na segunda-feira de Pentecostes, também conhecida como Festa da Páscoa Rosada; em 3 de julho, festa da padroeira Santa Mustiola; e em 3 de agosto, para os peregrinos de toda a Itália que retornavam de Assis, onde buscavam obter a indulgência conhecida como Perdão de Assis.
Raramente, e somente em circunstâncias excepcionais, a relíquia era exibida fora dessas datas para pessoas de grande importância. Entre as personalidades dos séculos passados, destacam-se o imperador Carlos IV da Boêmia, em 17 de abril de 1355; o papa Eugênio IV, em 1443; os cardeais Orsini e Dei Conti, em 1436; o capitão Francesco di Niccolò Piccinino, comandante dos homens de armas de Siena, em 15 de outubro de 1431; a duquesa de Camerino; e outras pessoas ilustres.
O Anel, entretanto, nunca havia saído dos muros de Chiusi. O duque Filippo Maria Visconti, que sofria de uma doença ocular, pediu que a relíquia fosse enviada a Milão. Seu pedido foi recusado, apesar das orações, das súplicas e das determinações do papa Eugênio IV e da Signoria de Siena. Acreditava-se, em uma combinação de fé e superstição, que o objeto possuía propriedades milagrosas para a cura de doenças oculares.
Fazio degli Uberti também menciona essa crença em sua obra Dittamondo:
Esse caminho é muito conhecido:
bondade do Anel virtuoso e santo,
que é tão bom para preservar a visão.
O relato apresentado a seguir é um resumo do texto do padre Giovanni Crisostomo Trombelli, que encontrou um rascunho da narrativa sobre a chegada do Anel da Virgem Maria a Chiusi. O documento foi localizado em um manuscrito do século XI, preservado na Biblioteca Angélica, em Roma. Em 1765, com a autorização de seus superiores, o sacerdote transcreveu o texto e o publicou em sua obra Mariae sanctissimae vita ac gesta.
Hugo da Toscana, duque desde 961, casou-se com Judite, sobrinha do imperador Oto III. Ambos apreciavam joias e pedras preciosas. Naquela época, vivia em Chiusi um ourives experiente chamado Ainerio, homem de confiança da nobreza para a realização de compras importantes.
Em 985, Ainerio recebeu a notícia de que um judeu romano, retornando do Oriente, havia trazido consigo ouro, joias e pedras preciosas. Imediatamente, informou à condessa aquilo que soubera. Ela lhe forneceu dinheiro e o enviou a Roma para que adquirisse bens de qualidade.
O ourives partiu e, ao chegar a Roma, realizou tantas compras que gastou todo o dinheiro que lhe havia sido confiado. Depois de concluído o negócio, o comerciante judeu quis presenteá-lo, como recompensa pelas aquisições, com um anel de calcedônia de fabricação modesta.
Ainerio olhou para o objeto com desdém e perguntou se o comerciante pretendia zombar dele. O judeu respondeu:
Não o despreze, pois não há dinheiro no mundo que o compre. Este é o anel com o qual José se casou com Maria de Nazaré. Foi-me transmitido por meus antepassados e, embora não sigamos o cristianismo, sempre o conservamos com devoção. Há algum tempo desejo oferecê-lo aos cristãos. Quem melhor do que você para conservá-lo com honra? Coloque-o em um lugar digno e dedique-se a ele.
Ainerio recebeu o anel e o guardou em sua bolsa, sem dar crédito às palavras do comerciante. Ao retornar a Chiusi, colocou-o em uma caixa, junto a outros objetos de pouco valor, e se esqueceu dele.
Alguns anos depois, o único filho de Ainerio faleceu. Desolado e profundamente entristecido, o pai mandou levar o corpo do menino à igreja para a celebração de um funeral solene. Enquanto a multidão de parentes e amigos acompanhava silenciosamente a cerimônia fúnebre, teria ocorrido um milagre: o menino abriu os olhos e sentou-se sobre o caixão.
Ele contou que havia chegado ao limiar do Céu e visto a Virgem Maria aproximar-se dele e dizer:
Volte para seu pai e diga-lhe que aquilo que lhe foi dito na Terra também foi confirmado no Céu. Ele guarda aquilo que um amigo lhe deu como se não tivesse valor algum.
O menino explicou que a mensagem se referia ao anel da Virgem Maria. Ao ouvir essas palavras, o pai, atônito, lembrou-se do presente que havia esquecido.
O filho voltou a falar:
O bem-aventurado Arcanjo Miguel e o papa São Calisto reclamaram dos votos que você fez e não cumpriu. Você prometeu restaurar a Igreja de São Calisto e ir rezar no Santuário de São Miguel Arcanjo, no Gargano. Por isso, Cristo colocou dois fios de cabelo em meu corpo: um da barba de São Calisto, enrolado em meu braço, e outro da Mãe de Deus, em meu pescoço.
Após mostrar aos presentes aquilo que acabara de mencionar, o menino pegou uma caixa que havia sido colocada na cabeceira do caixão, abriu-a, retirou o anel e declarou: Agora voltarei para o lugar de onde fui enviado, mas, antes, retirarei os cabelos de meu corpo, para que sejam guardados com grande veneração, juntamente com o anel, na Igreja da Virgem Santa Mustiola.
Antes de morrer, o menino também teria indicado o lugar onde desejava ser sepultado: Cavem em um lugar onde pendem imagens de metal, encontrem um sarcófago de mármore e sepultem-me ali.
Alguns dias depois, o anel e os dois fios de cabelo foram expostos à veneração dos fiéis. A condessa Gualdrada também quis contemplá-los e, de maneira considerada indigna, pegou o anel e o colocou no dedo, que teria ficado imediatamente paralisado.
Uma compreensão mais literal do simbolismo da relíquia pode ser encontrada no seguinte versículo do Cântico dos Cânticos: “Grave o meu nome no seu coração e no anel que está no seu dedo” (Ct 8,6).
Desse modo, o significado do anel de sinete compreendia uma marca interna e outra externa. A marca externa servia como testemunho público de um amor, enquanto a interna representava a realidade mais profunda desse mesmo amor.
Ainda que não seja possível comprovar a autenticidade da relíquia, ela nos recorda o amor profundo e verdadeiro entre São José e Nossa Senhora. Por meio de Jesus, esse amor se abre e se estende a todos nós.